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Correio Braziliense

Com 'Meu nome é Bagdá', diretora brasileira participa de festival em Berlim

'Meu nome é Bagdá', da diretora paulista Caru Alves de Souza, foi um dos selecionados para uma das mostras do 70º Festival de Cinema de Berlim chamada Generation 14plus


postado em 25/02/2020 06:40

A diretora de 'Meu nome é Bagdá', com Grace Orsato e Karina Buhr, atrizes do filme(foto: Luciana Barreto/CB/D.A Press)
A diretora de 'Meu nome é Bagdá', com Grace Orsato e Karina Buhr, atrizes do filme (foto: Luciana Barreto/CB/D.A Press)

 

Violência, sexismo e discriminação são elementos que terão representatividade na tela dos cinemas da Alemanha, quando da projeção, hoje, do longa-metragem brasileiro Meu nome é Bagdá. A presença de solidariedade promete rebater os maus fluidos estampados no enredo do longa. O filme foi um dos selecionados para uma das mostras do 70º Festival de Cinema de Berlim chamada Generation 14plus, que cerca temáticas tocantes ao universo dos jovens. Uma skatista integrada a um meio bastante particular (propenso ao aparecimento de machismo) protagoniza o filme assinado pela paulistana Caru Alves de Souza.

 

“Acho que uma das descobertas mais potentes que fiz ao longo do processo deste filme foi como é necessário, principalmente para atravessarmos períodos duros como o atual, criarmos ilhas de afetos entre nós, nos encontrarmos, respeitarmos as nossas diferenças, nos apoiarmos e nos organizarmos contra as opressões do dia a dia. Acho que Meu nome é Bagdá, tematicamente, virou um filme sobre isso”, conta Caru, em entrevista ao Correio. Muito do que se vê na tela veio incorporado da realidade, ainda que, vagamente, o roteiro tenha sido baseado numa obra chamada Bagdá, o skatista, e assinada por Toni Brandão.

 

A emancipação de alguns personagens e a afirmação de uma protagonista, a skatista Bagdá (a estreante Grace Orsato), movimentam a fita. De cabelos curtos e uma personalidade forte, Bagdá curte um ambiente em que desfruta de liberdade, nos rolês de skate e vendo o círculo de amigos — muitos deles homens — distraído no carteado jogado na rua. Moradora de região nada privilegiada — na Freguesia do Ó (bairro de SP) —, Bagdá interage muito com as presentes amigas da mãe dela. No elenco do filme, destaque para a drag queen Paulette Pink, para Gilda Nomacce e para a cantora e intérprete Karina Buhr.

 

O projeto foi desenvolvido “com muito amor”, pelo que conta Caru, ciente de que o clima das filmagens se refletirá na obra, pelo crivo dos espectadores. “Conversando com a produtora Rafaella Costa, percebemos a necessidade de transpor uma rede de afeto para o set de filmagem, tentar torná-lo um lugar acolhedor, onde os talentos fossem reconhecidos, onde as pessoas fossem respeitadas, e acho que conseguimos isso”, observa a cineasta. Familiarizada com o somatório (em projetos) que a vivência com o dia a dia externo e a realidade impõem, Caru, entre outras experiências, conduziu mais de 10 episódios para a série Causando na rua. Com a sensação de resistência, veio o nítido empoderamento, ao explorar uma trama que avança até em questões como assédio.

 

“Ter mais mulheres, artistas negros, indígenas, pessoas LGBTQI+, de diferentes classes sociais, fazendo cinema garante uma diversidade maior,  o que é fundamental. Afinal, a sociedade não é composta somente por homens, brancos, heterossexuais, de classe média alta — que são maioria no cinema —, assim, não faz sentido que sejamos submetidos a apenas um ponto de vista, a apenas um tipo de narrativa”, comenta Caru, com parte da vida ganha — o atual longa já tem circulação garantida, a partir de contratos com a distribuidora Reel Suspects.

 

Pela diversidade

 

Meu nome é Bagdá, no desenvolvimento, contou com apoios do Tribeca Film Institute e do programa Ibermedia (dedicado à expansão do cinema Iberoamericano). Com parte da carreira alavancada no exterior, Caru, entre outros feitos do passado, competiu no Festival de San Sebastián (Espanha), há sete anos, e, com o longa De menor, conquistou o principal prêmio do Festival do Rio. A visibilidade, na opinião dela, se deve à injeção de maior diversidade, na realização de filmes nacionais. “Diretoras mulheres, em maior ou menor número, com maior ou menor projeção, sempre estiveram presentes no audiovisual brasileiro. Mas, como acontece na sociedade como um todo, ao longo da história sua importância foi abafada e suas obras muitas vezes relegadas ao esquecimento”, pontua.

 

Além de apinhada de nomes femininos em funções de produtoras e roteiristas, Meu nome é Bagdá ainda tem destaques na direção de fotografia, com Camila Cornelsen, e na direção de arte, a cargo de Marinês Mencio. “Sempre me inspiro nas mulheres que fazem cinema. Voz, a gente sempre teve — o problema é que, muitas vezes, essas vozes foram silenciadas. Ou tentam silenciar. Mas nunca conseguem totalmente. Desde os anos de 1960, o número de mulheres diretoras vem crescendo muito. Com o avanço dos anos de 2010 e 2020, estamos conquistando uma diversidade muito maior no audiovisual. Saber que alguém como você, uma mulher, pode fazer cinema sempre é um estímulo para começar e seguir fazendo”, conclui. 

 

» Duas perguntas // Caru Alves de Souza, diretora

 

Como você elege a temática a ser trabalhada nas suas obras?

Os meus filmes normalmente têm um posicionamento político muito definido, o que não quer dizer que são panfletários. E sempre partem de alguma inquietação minha em relação a injustiças como homofobia, racismo, machismo, discriminação de classe etc. Muitos cineastas brasileiros também não se esquivam de se posicionar contra essas injustiças, e isso incomoda muito o atual governo e os setores da sociedade que o apoiam.

 

Você acredita que a vocação do Brasil contrasta com a inércia do atual governo, sem estímulo claro para a produção  audiovisual?

Eu acredito que o cinema brasileiro tem conquistado, após décadas de políticas públicas investidas no setor, um espaço importante nos festivais internacionais. Ter 19 filmes no Festival de Berlim este ano é a consolidação disso. Ainda que tenha muito a ser feito, o cinema do nosso país também está se atualizando em relação à diversidade, temática, estética e também em relação aos trabalhadores do audiovisual. Nos últimos anos, mais mulheres, homens e mulheres negros, indígenas, periféricos  têm se destacado no cinema no Brasil. O festival de Berlim este ano também revela parte dessa diversidade, por meio dos diretores e diretoras selecionados e também por sua temática.Não creio que este governo esteja inerte, pelo contrário, todo esse vigor do cinema brasileiro se choca com uma política ativa e consciente de desmonte. 

 

 

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