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Correio Braziliense

Mesmo com o desmonte, o cinema brasileiro tem visibilidade no exterior

Entidade que fomenta o setor, Ancine nega que haja crise


postado em 29/02/2020 06:00 / atualizado em 28/02/2020 19:00

Filme Fico te devendo uma carta sobre o Brasil: passagem por três festivais internacionais(foto: Ricardo Azoury/Divulgação)
Filme Fico te devendo uma carta sobre o Brasil: passagem por três festivais internacionais (foto: Ricardo Azoury/Divulgação)

É da capital alemã, em meio à realização do reconhecido 70º Festival de Berlim, que ecoa o recado de Caru Alves de Souza, uma das cineastas brasileiras destacadas em mostra do evento, pela realização do longa-metragem Meu nome é Bagdá: “Acho que a maior mensagem que o filme leva a Berlim é a de que o audiovisual brasileiro tem potência, reconhecimento, qualidade, diversidade e não vai acabar”.

É na mesma corrente que embala a dupla Caetano Gotardo e Marco Dutra (responsável pelo concorrente ao Urso de Ouro, com o filme sobre a perpétua escravidão brasileira, chamado Todos os mortos) e o realizador Matias Mariani. Ele está em Berlim, selecionado pela mostra Panorama, dada a realização de Cidade pássaro, filme detido num olhar sobre imigrantes nigerianos.

Caru Alves de Souza (E):
Caru Alves de Souza (E): "O cinema brasileiro não acabará" (foto: Luciana Barreto/CB/D.A Press - 27/2/19)


“É o festival com o qual mais me identifico. É uma honra incrível ter um filme apresentado nele”, diz Mariani. Outra diretora pronta para despontar no cenário internacional é Carol Benjamin, que, depois de premiada em festival de cinema na Holanda, representará o Brasil na Suécia e na Suíça, com o documentário Fico te devendo uma carta sobre o Brasil, que destaca a militância política da família. Uma forma de mostrar que o cinema mantém-se vigoroso, apesar de tudo.

Ao Correio, Matias Mariani fez um desabafo: “Sinto que a atual crise institucional, o ataque aos direitos civis que estamos vivendo, deixou muito claro (para nós, cineastas) o quão semelhantes são os nossos desafios sociais e estéticos, independentemente da localidade, o que faz com que seja muito natural se procurar um ao outro, criar pontes narrativas que transcendam a nacionalidade”, comenta. Ainda que esteja reluzindo, no exterior, com temas como união entre povos, exame de questões raciais e alinhado a temas políticos e sociais, o cinema nacional, pelo que percebe o diretor tende a minguar.

“Acho que acontecerá uma seca enorme nos próximos anos, fruto do desejo explícito do governo de tentar domar a criação artística. Como cinema domado não é bem cinema, acho que as produções diminuirão, e teremos anos ruins pela frente. Mas, a médio e longo prazo, que o cinema sempre volta mais forte — temos umas das tradições audiovisuais mais antigas do mundo e, neste sentido, somos muito maiores que os líderes desta ou daquela época”, avalia.

As percepções de Mariani engrossam coro na avaliação de grande parte da classe de cinema, mas são negadas por representantes da Agência Nacional do Cinema (Ancine). De acordo com a entidade, não haverá descontinuidade nem interrupção da produção em cinema, uma vez que centenas de projetos estão sendo produzidos com aportes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) ou com recursos do fomento indireto.

“Hoje, o mercado conta com players privados que continuam produzindo conteúdo sem recursos públicos. Há números expressivos no fomento audiovisual em 2019 realizados via FSA: foram publicados resultados de editais que premiaram 334 projetos de 15 estados e do Distrito Federal com mais de R$ 272 milhões. Para editais que já haviam sido concluídos anteriormente, foram contratados 660 projetos em 27 chamadas públicas, que receberam mais R$ 526 milhões apenas em 2019”, contesta a Ancine, por meio de assessoria.

Apesar dos argumentos da Ancine, o setor critica orientações do governo e dirigismo nos temas a serem desenvolvidos com o apoio da Agência, como restrições para proponentes negros, LGBTs e indígenas. “Não há restrição a nenhum segmento social. A Ancine continuará executando a política pública de fomento ao audiovisual de acordo com a legislação em vigor”, destaca a nota.

Em busca de recursos


O diretor Fabio Meira afirma:
O diretor Fabio Meira afirma: "Seguiremos remando" (foto: Vivi Giaquinta/Divulgação)


A luta para sobreviver e buscar outras fontes de recursos é forte no setor audiovisual. Como o projeto apoiado pelo Ibermedia (fundo que estimula promoção e distribuição de filmes ibero-americanos, criado em 1997), que apoiou a produção do longa Tia Virgínia, de Fabio Meira. A viabilização do longa contou com assessorias de peso junto ao diretor Karim Aïnouz (vencedor da mostra Um Certo Olhar de Cannes, com o longa A vida invisível) e ao dramaturgo argentino Jorge Goldemberg — tudo possibilitado pela participação no Curso de Desarollo Cinematográfico da Fundação Carolina (Madri).

Em Tia Virgínia, estrelado por Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso, o diretor seguiu aprendizado proclamado por Tolstoi — “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. “Estou confiante de que a personagem encontrará eco em diversas partes do mundo”, explica Meira, que acrescenta: “O recado do filme vem da capacidade de fazer cinema em situações tão adversas, em levantar uma produção de baixo orçamento com uma equipe e um elenco que se entrega em nome da arte e da cultura de um país prestes a afundar. Nosso recado é que seguiremos remando, fazendo a nossa parte e trabalhando com o amor e afinco que nos caracteriza.”

Duas perguntas /Carol Benjamin


(foto: Carol Benjamin/Divulgação)
(foto: Carol Benjamin/Divulgação)


Que imagem do país pretende incrementar, quando da projeção do longa Fico te devendo uma carta sobre o Brasil?

A imagem que o filme transmite é a de um país que precisa se reconciliar com sua história, e com urgência. Ao promulgar a Lei de Anistia, (o presidente) João Baptista Figueiredo pronunciou: “Melhor silenciar certos eventos em nome da paz da família brasileira”. De acordo com ele, o esquecimento era a chave para evitar o prolongamento de processos traumatizantes na nossa sociedade. Mas é o contrário: precisamos contar nossas histórias, compreender a nossa herança política, pois só assim teremos ferramentas para construir futuro.

O longa nos convida a conhecer melhor a história recente, não apenas por meio de grandes heróis ou grandes eventos, mas, sobretudo, a partir da conexão emocional com pessoas comuns, que tiveram suas vidas atravessadas pela violência de Estado — uma violência que teve raízes no período da ditadura, mas que se fincou como modus operandi moldante das nossas polícias militares até hoje. O direito à verdade, que tem no caso Marielle Franco um grande emblema, nos é negado desde a Lei da Anistia de 1979, que impediu a condenação dos agentes de Estado que cometeram crimes de lesa humanidade e nunca foram a julgamento.


Acredita que o país atual dê respaldo para conquistas lá fora? Contará com algum apoio?

Creio que temos uma indústria pulsante e muito bem-sucedida do ponto de vista econômico que vem sendo desmantelada por interesses ideológicos. Pelos dados levantados pelo Sindicato da Indústria Audiovisual, o setor injeta mais de R$ 25 bilhões por ano na economia, com mais de 13 mil empresas, gerando mais de 300 mil empregos. A cada R$ 1 investido, temos um retorno de R$ 2,60 em tributos — além disso, a maior fonte de recursos para a produção audiovisual (o FSA) vem de um imposto pago pelo próprio setor. Isso tudo porque tivemos quase 20 anos de fomento e regulação, que permitiram a profissionalização de toda uma indústria que está sendo descartada por não servir aos interesses do governo. A verdade é que os mecanismos que garantiam a idoneidade dos processos e paridade na distribuição dos recursos vêm sendo sistematicamente destruídos desde 2017, e atualmente temos um número enorme de projetos parados, empresas semifalidas e profissionais desempregados.


Visibilidade internacional


Entre as equações que regem o incremento de público de cinema e a constância de produção do conteúdo nacional, criou-se uma expectativa — a exemplo do que acontece mundo afora — com a interferência das gigantes do streaming na produção audiovisual. O tema é muito complexo e imprevisível, como reforça o diretor Marcelo Brennand, uma das promessas da estreia na ficção (com o longa Curral) e que se vê integrado à força do cinema pernambucano, que tanto tem repercutido nos cenários nacional e internacional. Tratando da conquista de votos de político, no interior arrasado por crise hídrica, Brennand não desconversa, quando vislumbra o painel futuro do cinema brasileiro com o streaming e a defasagem de legislação.

“A tecnologia muda radicalmente toda cadeia audiovisual. A internet potencializou a distribuição digital, o que diminuiu drasticamente a vida útil de um filme no cinema. O caminho para sermos mais competitivos é a regulamentação do Estado para cota de tela no streaming, assim como houve na TV a cabo; aliás a qualidade audiovisual que atingimos hoje no Brasil é decorrente da cota”, opina.

Curral, o longa que Marcelo filma em Gravatá (PE), desde a composição técnica se mostra afinado com tendências exitosas do cinema brasileiro recente: atores dos cultuados Bacurau e Tatuagem (respectivamente, Thomás Aquino e Rodrigo García) integram o elenco, e a direção de arte coube a Juliano Dornelles, renomado em Cannes 2019, e associado a sucessos como Aquarius e O som ao redor.

A percepção do estreito laço entre cultura e política que norteará Curral advém do documentário Porta a porta — A política em dois tempos (feito por Brennand, em 2008), que abria discussões sobre o sistema eleitoral e de como ele impacta contradições cotidianas capazes de abranger o público e o privado e o legal e o legitimado, além do correto e o praticado. “Hoje, o filme Curral, que tem como elemento dramático a falta de água, apresenta um recorte claro do ponto de vista de alguém que, em  princípio, está fora da política, mas inserido no processo eleitoral como massa de manobra”, revela, adiantando que o microcosmo de uma sociedade do agreste incita um espaço de observação para se “olhar um país”.

Mudanças sociais


Resistência, impulso e frescor de linguagem se ajustam aos ideais do cineasta Brennand entusiasmado com a expressividade de o Brasil, em 2020, ter contado com a seleção de 19 filmes para Berlim. “O cinema é um instrumento importante para retratar as mudanças sociais — dá voz aos não detentores de poder e ajuda a desvendar o mundo. A história do cinema brasileiro, é de resistência. Passamos pela censura e, na década de 1990, foi extinta a Embrafilme: foram quase quatro décadas de resistência e resiliência”, analisa.

Vislumbrando um quadro de incerteza no governo federal, o cineasta reforça que Curral, ao lado de uma leva de lançamentos de 2020, foi produzido com recursos provenientes de 2018. “Nos momentos de crise surgem filmes e cineastas que retratam a realidade atual do nosso país no exterior”, pontua.

O sucesso internacional de colegas de profissão como Petra Costa e Kleber Mendonça Filho, por Brennand, é visto como “o cinema nacional exercendo seu poder de diplomacia”. Para encerrar, ele demarca a recorrente visibilidade do Brasil no exterior, especialmente no “mais político evento de cinema do mundo”: o Festival de Berlim (cuja 70ª edição será encerrada hoje). “Só nos últimos três anos, Berlim contou com a presença de 43 filmes brasileiros. Isso é um marco! Mostra que a política está enraizada na nossa cultura”, conclui.

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