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Correio Braziliense

Pensamento de Antonin Artaud permanece provocador para múltiplos saberes

A avaliação ocorre 62 anos depois da morte, do ator, dramaturgo e diretor de teatro


postado em 29/02/2020 06:05

(foto: Man Ray/Divulgação)
(foto: Man Ray/Divulgação)
O grito original, para Antonin Artaud, vem de uma esperança de mais vida, não do terror ou da repugnância, nem do desespero, mas do ser primitivo, do tempo dos deuses ancestrais, reorganizadores do universo dos humanos. Nascido em 1896, Artaud morre aos 51 anos, dia 4 de março de 1948, no quarto alugado no hospício do bairro de Ivry-sur-Seine, arrabaldes de Paris.

Como todo homem, morre sozinho, frente ao vazio da existência. Deixa uma obra ímpar, forjada por uma trajetória crepitante, como tudo que foi e fez: poeta, ator, encenador, dramaturgo, artista plástico, roteirista, cenógrafo e pensador. Tido como louco, próximo ao que se comenta de Hölderlin, Van Gogh, Nerval, Nietzsche ou Arthur Bispo do Rosário, ele salta das chamas e nos esturrica com o verbo vivo e flamejante.

Na pesada aventura terrestre, desestrutura a tradição artística, no início do século 20, desorientando as concepções, até hoje, do que seja modernidade e pós-modernidade, em busca da compreensão do sentido vital, existencial e político do homem que precisa se refazer constantemente, enquanto ato revolucionário e cultural.

No mundo, Artaud provoca ressonâncias de impulso visceral, vivo e carnal em diferentes áreas do saber pelo caráter fundante de que a arte deve se desarticular do bom modismo ocidental e retomar os ritos e se religar ao fluxo do cosmos, mediante a ação no mundo como ato ético, político e ideológico, indo às fontes primitivas e autênticas, em direção contrária ao universo, exclusivamente, livresco e portador do ideal iluminista, indo em busca da ideia de humanidade, o que está em permanente reconstrução.


Projeto de humanidade


Artaud, em certo sentido, questiona: fracassamos, coletivamente, no projeto de humanidade? Como afirma o escritor e tradutor Claudio Willer, “Artaud foi um rebelde dos mais radicais. Por decorrência, um maldito, marginalizado”. Falar em ser humano é ferir o sensível entre cultura e civilização, por isso Artaud é o demônio ou o anjo que nos provoca a tocar no mistério do homem, quebrando a palavra articulada, para apalpar o grão da vida imaginativa e poética: a liberdade acima das normas e convenções. Ele põe o homem a se reinventar, numa alegria plena pela própria redescoberta de ser, na lógica do louco que traz a lucidez.

Se Artaud foi Deus ou Diabo, seria limitar o que não sabemos ou até mesmo não compreendemos. Louco, gênio ou drogado também seria acorrentar o que ignoramos no homem que destruiu conceitos arbitrários na psiquiatria, medicina, literatura, linguística, semiologia, música, cinema, teatro, dança, psicologia e filosofia. Por exemplo, alguns eventos, pensadores e artistas que dialogam com o pensamento de Artaud: André Breton e o surrealismo, Peter Brook, Jerzy Grotowski, Eugenio Barba, os beatniks, Buñuel, Sartre, Picasso, Simone de Beauvoir, a contraculutra dos anos 60 e 70, Jacques Lacan, Jacques Derrida, Maurice Blanchot, Deleuze, Guattari, Susan Sontag, Michel Foucault, Julia Kristeva, Evelyne Grossman, entre outros.

No Brasil, para citar alguns, a recepção do caso Artaud deflagra o interesse da psiquiatra Nise da Silveira na área da saúde mental nas práticas manicomiais, como mecanismos de exclusão; no teatro, o diretor e ator José Celso e também os atores Rubens Corrêa e John Vaz; na psicanálise, o sociólogo e filósofo Daniel Soares Lins; nas artes plásticas e na literatura, a pesquisadora Ana Kiffer; nas relações interdisciplinares, atualmente, o ator, poeta e pesquisador Adeilton Lima; e a mim mesmo, na área de investigação interartística e psicanalítica.

Tendo ido de Marselha para Paris, na década de 1920, já portador de dores infernais na cabeça e alívio provocado pelo láudano, com um histórico de internações em asilos, Artaud vai se deparar com a vida pulsante da poesia que atinge o sagrado, do teatro e do cinema. Antes e depois dos nove anos encarcerado (1937-1946) em manicômios e ter sofrido eletrochoques devastadores do corpo e da memória, Artaud se constrói como artista e pensador, mesmo estando em erosão interior.

Num rápido trajeto de pensamento, eu me alio à pesquisa de Vera Lúcia Felício, a qual traça o teatro da crueldade de Artaud na busca de totalização da vida, arte, cultura, revolta e metafísica, tendo vivências marcadas por conceitos de peste, metafísica, alquimia, cabala, tarô, o Oriente (teatro balinês e sírio) e civilização tarahumara do México, no período de 1930 a 1940, aqui se inclui a ascensão dos regimes totalitários e opressores (nazismo, fascismo e stalinismo).

Linguagem corporal


Além disso, Artaud propõe a linguagem corporal, forma superior ao textocentrismo teatral, como revolta, com seu corpo sem órgãos e o atletismo afetivo. Ele reivindica a cena pura e eletrizante que envolve o espetáculo e o público de foram visceral, retomando os mitos originários da tragédia da antiga Grécia, ao estilo dionisíaco, proposto por Nietzsche. Artaud revolta-se contra as instituições e os valores sociais e filosóficos da Europa.

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)


A produção vital de Artaud é intensa, basta destacar seu espólio grandioso: cartas, poemas, filmes, conferências, desenhos e desenhos-escrituras, ensaios, manifestos, roteiros, peças e traduções. Leiamos os livros: A perda de si: Cartas de Antonin Artaud (org. Ana Kiffer), Eu, Antonin Artaud, O Teatro e seu Duplo, Van Gogh, o suicidado da sociedade, Heliogabalo ou o Anarquista Coroado e Escritos de Antonin Artaud (org. Claudio Willer).

Vejamos os filmes: La Passion de Jeanne d’Arc, de Carl Theodor Dreyer (1928), Verdun, visions d’histoire, de Léon Poirier (1927), La Coquille et le clergyman, de Germaine Dulac (1928); sintamos os poemas, em especial, o texto performático preparado para transmissão radiofônica, depois censurado, Para acabar com o julgamento de deus (1947); enfim, para Artaud, por apresentar uma complexidade que se renova, o mal que o perseguia desde sempre pode ser considerado também como intrínsico a ele, era sua força vital na criação artística e na construção de subjetividades. Segundo Ana Kiffer: “a discussão em torno ao delírio ou loucura de Artaud mostra-se inoperante quando aquilo que interessa é ler e pensar a partir de seus textos, desenhos, enfim, da obra.”

Reflito que estudar Artaud só faz sentido se houver entendimento de que a tradução de atos e pensamentos esteja na esfera do diálogo crítico possível entre culturas. No seu tempo, havia a nefasta construção da máquina nazifascista e reificadora do homem e das vontades, incitadora do que há de mais recalcado e cruel na nossa miséria humana: a cólera cega, a inveja ensandecida e a violência bestial, de tal modo que em tempos de ignorância e de brutalidade surge a superação. Tudo é superação.

Na mítica judaico-cristã, os verdadeiros decaídos das esferas celestiais, no futuro próximo, arderão nos apriscos dantescos, com o tempo eterno para pensar nas baixezas, no desastre e ruínas provocados, nos desenganos (hoje, fake news) e nos ardis engendrados entre os humanos nos momentos de absoluta sonolência e desrazão bruta e ignorante, por exemplo: feminicídio, atrocidades contra pobres, negros, índios e homossexuais, acintes contra artistas e reais intelectuais, afora o aviltamento de outros direitos fundamentais.

Contra valores cristalizados e superstições sociais (sociedade, ordem, justiça, religião, pátria e família), Artaud clama pela totalidade que pede a decifração como ação revolucionária da sensibilidade e do sentimento vital, por meio de bens maiores: vida, educação e amor ao próximo. Isso acena para filosofia poética artaudiana com a natureza, no sentido cósmico que busca o perdido e ocultado na trajetória humana.

Similar a Arthur Rimbaud, Artaud provoca o desregramento dos sentidos e demonstra que je est un autre (eu é um outro). Parece-me que adentrar a galáxia artaudiana é viver a “ossatura da alma” na volta em espiral, sem formação de círculo, sempre um ponto acima e novo, ecoando um grito profundo, ancestral, ensurdecedor e humano, na vida que pulsa e se refaz.

Roberto Medina é poeta e professor de literatura

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