Diversão e Arte

Novo CD do Sepultura mantém o peso musical e a verve poética do grupo

Ao Correio, o guitarrista Andreas Kisser fala sobre o conceito do álbum 'Quadra', que trata da universalidade e do indivíduo inserido em sua sociedade

Devana Babu*
postado em 01/03/2020 06:00
Músico Andreas Kisser, do Sepultura
Sepultura é uma banda que personifica bem o conceito de aldeia global, e o álbum Quadra, lançado em 7 de fevereiro, explora essa temática ao máximo, mas sempre com recortes brasileiros. Fundada em Belo Horizonte, em 1984, a banda de heavy metal se mantém criativa, e é um dos mais importantes e influentes grupos do mundo. Até o momento, se apresentou em 80 países, e essa vivência cosmopolita influenciou fortemente as ideias do 15; disco cheio deles.

;Quadra é uma palavra em português que significa esse espaço delimitado, onde se tem um conjunto de regras e onde acontece o jogo. É uma analogia com a nossa própria vida, nosso país. O Brasil é uma quadra. Argentina é outra quadra. O Japão é outra. E cada um cresce com esse conjunto de regras que inclui educação, religião, política, tradição, família;, define Andreas Kisser, guitarrista e segundo integrante mais antigo da banda, atrás do baixista Paulo Jr., fundador do grupo.

O número quatro permeia todo o disco, desde a definição de ;quadra; até a divisão das faixas em quatro eixos, como um compacto duplo com três faixas de cada lado: O lado A reverencia o trash metal tradicional dos primórdios da banda. O lado B evidencia elementos percussivos e ritmos brasileiros. O lado C é mais instrumental e dominado pelo violão. E o lado D acentua o groove.

[SAIBAMAIS]Por volta de agosto de 2018, na reta final da turnê do disco Machine Messiah, começaram a fluir as ideias do álbum que seria o sucessor. Como de praxe, Andreas começou a pesquisar as ideias que norteariam a produção. Compositor compulsivo, ele sempre tem um punhado de riffs na manga, e um ou dois deles sempre começam ser trabalhados. Para isso, ele gosta de definir um eixo temático que norteia o processo de composição.

Partindo da ideia dos algorítimos que regem as redes sociais e aplicativos e, por extensão, a vida contemporânea, passou a estudar numerologia e chegou no livro Quadrivium, base da pedagogia da antiguidade clássica que versava sobre as quatro artes liberais. Deste ponto surgiu a ideia de quadra, expressa graficamente na capa do disco: uma moeda com uma caveira e um mapa-múndi, sendo que a moeda é o elemento de troca entre as diversas ;quadras;.

Para concretizar a ideia, gravaram as demos na própria ;quadra;, em São Paulo, e, depois, foram para Suécia finalizar o disco propriamente dito, com o produtor Jens Bogren, repetindo o processo do álbum anterior. Primeiro, gravaram a bateria em uma ampla sala em Estocolmo, e, depois, ficaram na casa do produtor, ao lado da qual um estúdio completo os aguardava para fazer todas as partes. ;A gente comia, dormia lá, foi um processo de imersão total no disco;, conta Andreas.

O toque final foi a inclusão das vozes da vocalista Emilly Barreto, vocalista da banda do Rio Grande do Norte Far From Alaska. A banda conheceu a vocalista pessoalmente depois de participar de um programa do Canal Multishow, apresentado por Jimmi London (Matanza), e a ideia da participação surgiu naturalmente. ;Fizemos uma versão de uma música do bob marley, que eles têm, depois improvisamos o Ratamahatta (música do Sepultura). Fiquei impressionadíssimo com a desenvoltura da banda, a criatividade, e a performance da Emmily, uma coisa sensacional. A gente tava no processo final da demo.

Depois de umas duas ou três semanas, a gente ja ia pra suecia pra gravar e tinha uma última música pra fechar. A Emmilly gravou os vocais dela no Brasil e enviou os arquivos, e o toque que ela trouxe era o que faltava para resolver a música.; explica Kisser.

Disco

O Sepultura se apresentou em 80 países, e essa vivência cosmopolita influenciou fortemente as ideias do 15º disco

O novo disco do Sepultura pode ser escutado nas principais plataformas de streaming ou adquirido em CD ou vinil, pelo site da Nucler Blast, que distribui o álbum. Lá, você encontra também camisetas e outros produtos relacionados ao lançamento e ao grupo, assim como no site da própria banda. Andreas Kisser concorda com o fato de que lançar um álbum completo, nos tempos atuais, quando os singles tem preferência, pode parecer meio antiquado, mas ele defende o formato.

;O metal é um universo paralelo nesse aspecto. Tem gente recebendo Quadra e dizendo: ;É a primeira vez, no Spotify, que eu escuto um disco inteiro;. A arte tem que ser real. Sepultura e metal não é single. É uma história, contada em disco. Você abre a capa, quer ver o encarte. O fã de heavy metal não compra pirata, compra o produto oficial. Ele é um exemplo para outros estilos e outros fãs de música. A grana vai para banda, pra gravadora, e mantém o estilo forte e ativo. Muitas bandas caem na estrada justamente se mantendo com merchandising, pagando contas, gasolina. Isso émuito real;, analisa o guitarrista.

Por fim, neste quesito, defende a autenticidade da banda. ;Ficar fazendo música pra rádio, ou pra internet? A gente nunca fez isso, porque vai fazer agora? A gente escutou isso e aquilo, mas, velho, é o oposto. Não é o publico que vai ditar o que a gente é. É a gente mesmo. É a arte que vai ditar. E o público, se gostar, beleza. Se não gostar também, beleza. Segue o jogo.;

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

Quadra
Novo álbum da banda Sepultura. Disponível nas principais plataformas digitais e em CD e Vinil, à venda pelo site da Nuclear Blast.

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