Diversão e Arte

Cineasta Anna Muylaert, de Que horas ela volta?, lança livro de contos

Os contos inéditos foram escritos há 25 anos e inéditos. Na obra, ela fala do feminino e constrói narrativas que dialogam com o universo cinematográfico

A diretora Anna Muylaert tinha acabado de ter o primeiro filho quando o longa Carlota Joaquina, de Carla Camuratti, deu início à retomada do cinema nacional em 1995. Formada pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Anna vinha trabalhando como podia em uma área devastada pela política pública da era Collor. Fez crítica de cinema, poesia, videoclipes, curtas-metragens e foi repórter-abelha no extinto TV Mix, programa da TV Gazeta. Também começou a escrever roteiros de ficção para programas infantis da TV Cultura, inclusive o Castelo Rá Tim Bum. Com a retomada, decidiu que se dedicaria ao cinema e faria um filme. Mas quando se deparou com a pergunta “que filme?”, se deu conta de que não sabia escrever roteiros de cinema. Para treinar, começou a escrever contos. São esses textos que hoje chegam às mãos dos leitores em Quando o sangue sobe à cabeça, que a editora Lote 42 lança este mês.

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Anna conta que, na época, até mandou os textos para algumas editoras. Recebeu de volta cartas encorajadoras, porém ninguém quis publicar o material. “A gente até olhou umas cartas de algumas editoras que eu nem lembrava mais e os pareceres eram bons, não eram ruins, mas ninguém me conhecia”, conta a autora, que está ansiosa com a recepção do livro. “Fui reler morrendo de medo e optei por não mudar quase nada, porque 25 anos depois, se mexesse, ia acabar não saindo esse livro. A gente muda tanto! E isso é um registro de uma época.”

No total, a diretora escolheu seis contos cujas estruturas ela reconhece serem bastante cinematográficas. “Achei que tem uma dinâmica que já aponta para meu estilo narrativo, é muito visual, tem um recorte cinematográfico, muito diálogo”, repara. Escrever, para ela, se tornou um exercício que a levou aos roteiros. O longa Durval discos, por exemplo, teve origem no último conto de Quando o sangue sobe à cabeça. Padecendo no paraíso narra o passo a passo de um parto e Anna entende que o filme, de certa forma, é sobre a separação entre Durval e a mãe controladora. Que horas ela volta? teve origem na escrita do romance Porta da cozinha, que não chegou a ser publicado. Muita coisa mudou entre o livro e o longa que acabou por ganhar 19 prêmios, inclusive nos festivais de Sundance e Berlim. “Quando o romance ficou pronto, virou um roteiro. Na época, achei que era difícil dirigir, tinha uns elementos de realismo fantástico, era bem diferente”, garante Anna.

Em Quando o sangue sobe à cabeça, as protagonistas dos contos são sempre personagens femininas. Algumas histórias, Anna trouxe da própria família, mas também de uma época, já que os contos foram escritos nos anos 1990. “Uma das coisas que me motivou foi uma vontade de entrar nessa zona do feminino. Decidi que ia fazer um livro sobre mulheres”, conta. “Naquela época, era completamente diferente de agora. Na minha memória, eu escolhi aleatoriamente, mas não foi. Eu tinha acabado de ter filho, passava o dia inteiro com o bebê, estava no auge da descoberta do feminino. Não foi uma escolha política de jeito nenhum, foi um pouco o que eu estava vivendo e achava que sabia.”

A consciência política diante das questões de gênero e do feminismo só veio bem mais tarde, quando Que horas ela volta? começou a fazer sucesso e a cineasta passou a se dar conta das diferenças de tratamento durante eventos da indústria do cinema. No próximo filme, Clube das mulheres de negócios, a diretora vai tratar da questão de gênero de maneira explícita. Com Bruno Mazzeo no papel principal, o longa vai falar de um mundo dominado por mulheres. “Ainda estou mexendo no roteiro, mas é um mundo onde a relação de gênero é invertida, onde o homem é a parte mais fraca e a mulher, a mais forte”, avisa.

Em entrevista, Anna Muylaert fala sobre ser feminista, sobre o papel da escrita em sua vida e sobre as dificuldades de fazer cinema em um meio ainda comandado por homens.
 

» Entrevista  / Anna Muylaert 
 
O que muda na tua visão do feminismo da época em que escreveu os contos para hoje?

Hoje tenho uma visão mais política da questão da mulher. Na época, era mais o feminino. Houve 25 anos de carreira no cinema aí no meio, ali eu era um pouco virgem em termos de dinâmica de mulher no campo profissional. Ao longo dos 25 anos, entendi que a questão da mulher não é só uma pauta. Hoje entendo mais a mulher como agente político, entendo que tenho que falar sobre questões que nos impedem de ter uma vida mais fluida dentro da organização social. Acho que eu era mais ingênua. Eu tinha 30 anos.

E a literatura, você continua escrevendo?

Não tenho nada engatilhado por dois motivos. Conforme fui estudando mais e mais dramaturgia, fui me especializando mais na construção da narrativa para cinema. Quando o filme fica pronto, o roteiro vai para o lixo. No cinema, a atenção está mais na construção da narrativa, enquanto na literatura, a palavra é o fim em si. Fui me especializando numa coisa que era diferente. Quando começou a Flip, comecei a ir e a assistir às mesas. E daí falei ‘mano, não sou da literatura, não sou rata de biblioteca, sou rata de cinemateca’. Isso não quer dizer que não posso voltar a escrever. É mais leve pra mim escrever porque é mais barato, mas de lá pra cá me envolvi mais com cinema e não tive mais tempo. A literatura exige mais silêncio.

E se o cinema arrefecer no Brasil, diante da política cultural do atual governo?

Pode ser que eu volte, mas como vim trabalhando loucamente no cinema, não tenho tempo. Agora, se você me perguntasse semana passada, era uma coisa. Essa pandemia está colocando tudo numa outra perspectiva. O que estava se encaminhando, eu acho, na política do Bolsonaro era uma coisa similar ao que o Collor fez e que já vivi e vi. Mas agora, com essa pandemia e as consequências socioeconômicas que vai ter, acho até que ele pode cair por conta do jeito que vem se comportando, porque ele vem sendo irresponsável.

Diante da realidade brasileira, você não tem vontade de escrever ou filmar distopia? 

Não, mas a gente nunca sabe. De alguma forma, meu próximo filme, Clube das mulheres de negócios, é praticamente ficção científica porque vai ser o homem no lugar da mulher e isso gera uma bagunça. Lembra a ficção científica porque te põe em espaços mentais inéditos. Quando você vê um homem fazendo protocolo de uma vida feminina, você vê muito melhor o quanto a gente carrega peso. Eu sou uma cineasta, cuido da minha carreira, tenho uma produtora, tive relacionamentos, fiz yoga. E quando você coloca isso num personagem masculino parece que ele é um coitado. O filme é uma discussão das estruturas de poder, é mais sobre a mulher no trabalho e sobre essa carga que a mulher leva, que é maior que a do homem no mundo contemporâneo.

Você acha que nesses 25 anos houve muita mudança nessa questão de gênero?

Tanto mudou muito quanto tem coisa que não muda de jeito nenhum. Mas vai mudar. A ONU fez um estudo dizendo que só muda em 200 anos. Nasci nos anos 1960, vivi o movimento feminista nos anos 1960 e 1970. Mas depois houve um hiato. Lembro que, na faculdade, a gente não tinha essa pauta. Acho que foi meio mundial, deu uma baixada de bola. A gente conseguiu grandes vitórias, ter direito ao sexo, a fazer carreiras mais importantes, mas, nos anos 1980, parece que ficamos mais alienadas.

No meio cinematográfico, essas diferenças ainda são gritantes? Você diz que se deu conta disso quando fez Que horas ela volta?. Por quê?

Na escola a gente não percebe, mas quando sai, começa a perceber que seu colega homem tem mais oportunidades, que a sua carreira em geral é ajudar o colega homem. Na época, eu entendia que o fato de ganhar menos era uma incapacidade pessoal minha de negociar cachê. Só fui entender que era uma questão de gênero mesmo em 2015 quando Que horas ela volta? fez sucesso. Aí percebi que o tratamento para comigo não era igual ao tratamento para com meus colegas com quem tinha trabalhado. A indústria do cinema está bem preparada para o sucesso de um homem, mas de uma mulher, não. O distribuidor não olha no seu olho, a pessoa que vai te passar o prêmio não consegue te passar o microfone. Comecei a ter muito constrangimento, pessoas me tratando como se fosse assistente. E isso começou a me doer. Ao entrar em contato com umas americanas, elas disseram que o que estava acontecendo comigo acontece com todas as diretoras mulheres do mundo, é uma invisibilidade que mesmo com o resultado não muda. E entendi que não era uma questão psicológica minha. Achava que eu era tímida, que não sabia falar.

E o que mudou pra você?

A partir de 2015, entendi que sei falar, mas as pessoas têm dificuldade de escutar. Enquanto você é assistente, tudo bem, mas quando vai pra um lugar de protagonismo, parece que os cérebros não entendem muito o que está acontecendo. Eu não tinha isso claro até 2015. E aí minha visão mudou. Hoje entendo as pautas femininas como exatamente discutir esses limites de poder. Quais mecanismos fazem eles acreditarem que têm mais poder que a gente e que fazem a gente manter isso? Meu próximo filme é um mergulho neste sentido. Quais são os dispositivos do machismo? O machismo é um sistema de poder que os dois praticam, porque na hora que a mulher deixa de aceitar, ele deixa de existir. Mas tem uns limites que a gente nem percebe. Tenho feito um trabalho grande de estudar isso tanto no cinema quanto na literatura, lendo livros teóricos para me preparar para esse projeto.