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Correio Braziliense

Encontros virtuais destacam discussões literárias

Iniciativa da editora Record traz autores discutindo na internet a atualidade dos temas gerados pela pandemia


postado em 26/03/2020 04:18 / atualizado em 26/03/2020 10:21

Regina Navarro Lins também participa da Quarentena Literária amanhã(foto: Andrea Le Leuxhe/Divulgação)
Regina Navarro Lins também participa da Quarentena Literária amanhã (foto: Andrea Le Leuxhe/Divulgação)


Quando se trata de literatura e isolamento, há uma infinidade de opções, mas algumas das iniciativas mais bacanas promovem o contato humano, ainda que digital. Pensando nisso, a editora Record criou a Quarentena Literária, uma série de encontros virtuais com escritores, pesquisadores e professores que falam sobre determinados temas ou livros. Os encontros ocorrem em horários variados e seguem até 31 de março.

Para participar, basta entrar no site www.quarentenaliteraria.com, escolher os autores, se inscrever e aguardar o convite. Hoje, quem comanda o barco são Marcia Tiburi, autora de Como conversar com um fascista e Delírio do poder — Psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação, e Fabrício Carpinejar, autor de Cuide dos pais antes que seja tarde. Marcia, que atualmente mora em Paris e é professora de filosofia na Universidade Paris 8, falará sobre o fascismo na atualidade, um dos temas que estuda e sobre o qual tem publicado artigos e livros nos últimos anos.
 

Amanhã é a vez do pesquisador Manuel da Costa Pinto, que escolheu o livro A peste, do francês Albert Camus, como ponto de partida. Segundo Manuel, o romance teve um aumento de 65% nas vendas. No livro, Camus transforma uma epidemia na cidade de Orã, na Argélia, em metáfora para falar do avanço do nazismo durante a Segunda Guerra. “Camus é um dos autores mais importantes da França no pós-guerra, só a coleção da Gallimard na edição de bolso Pholio vendeu 4,7 milhões”, diz o pesquisador, que também é tradutor de Camus e apresentador dos programas Arte 1 ComTexto e Dois Pontos, no canal Arte 1.

Se as distopias estão associadas à ascensão do autoritarismo em diferentes momentos do século 20, as epidemias como tema na literatura aparecem em contextos mais ligados a questões globais. “Os relatos sobre epidemia no século 20 pertencem a uma linhagem de livros que não têm homogeneidade entre si e que podem ser usados para abordar um fenômeno de contexto político”, explica o pesquisador. No caso de Camus, esse contexto foi a guerra que assolou a Europa entre 1939 e 1945.

Para Manuel, só existem dois livros no cânone literário que tratam diretamente das epidemias em si. Um deles é Os noivos, de Alessandro Manzoni, sobre a peste bubônica que matou 25% da população de Milão (Itália) entre 1629 e 1931. O outro é Um diário do ano da peste, no qual Daniel Dafoe descreve como a doença devastou Londres no verão de 1665, quando o autor era ainda uma criança. “É um livro meio híbrido, um romance, mas todo feito de dados estatísticos, apurados como a gente apura em jornalismo. Esse livro é muito importante, não é por acaso que o Daniel Dafoe é citado na epígrafe do livro do Camus”, avisa Manuel.

A psicanalista Regina Navarro Lins também participa da Quarentena Literária amanhã, com uma discussão sobre os relacionamentos em tempos de isolamento. “Eu acho que a gente está vivendo um grande desafio e esse desafio, os casais também vão viver, é uma mudança de vida grande. Então vou falar sobre as relações, o amor romântico, o fim do amor romântico, mas, principalmente, tratar dessa questão que está todo mundo vivendo”, avisa Regina.

Segundo ela, um dos cuidados que se deve ter durante a quarentena, quando todos estão confinados juntos, muitas vezes com filhos, é zelar pela individualidade e procurar ter momentos pessoais. “A individualidade é uma coisa importante de ser trabalhada nesse momento porque não sabemos quanto tempo vamos ficar trancados em casa. Se você não trabalhar sua individualidade, vai ficar insuportável, as pessoas vão ficar irritadas”, avisa. “Ficar confinado 24 horas com o parceiro é muito difícil.”

Ela também sugere que quem estiver trabalhando em casa tenha momentos de lazer e, sobretudo, um projeto. Regina recomenda ainda tranquilidade. “Fazer meditação é uma coisa muito boa, positiva. A outra é saber que, numa relação de casal, a tendência, quando você está muito irritado e frustrado, é jogar no outro. Então é muito importante se isolar um pouco, respirar fundo, deixar passar a irritação para não deixar passar questões que não são do outro”, diz a psicanalista.
 
 
 
 








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