Publicidade

Correio Braziliense

'Eu quis contar a minha história', diz Djonga sobre o mais novo trabalho

Inspirado pelas vivências da Zona Leste de Belo Horizonte, Djonga lança o álbum 'Histórias da minha área'


postado em 26/03/2020 09:45 / atualizado em 26/03/2020 09:47

(foto: Daniel Assis/Divulgação )
(foto: Daniel Assis/Divulgação )

Cinco jovens encarando os próprios cadáveres no chão foi a imagem escolhida para ilustrar a capa do novo álbum do rapper Djonga, Histórias da minha área. A escolha critica a violência cotidiana e contrapõe as estatísticas, combinando com o trabalho, que narra as histórias da quebrada em que o cantor nasceu. Com Daniel Assis assinando a fotografia da capa, produzido por Coyote Beatz, mixado por Arthur Lima e Djonga supervisionando tudo, o disco foi lançado em 13 de março, após um ano do último lançamento.

Com Histórias da minha área, o artista escolheu um assunto que fala com propriedade para se inspirar: a própria vida. Djonga transmite pela música as vivências divididas entre o cotidiano da Zona Leste de Belo Horizonte, o relacionamento com a família e os amigos, além do sucesso como rapper. “Eu quis contar para as pessoas a minha história e fazê-las lembrarem das delas e porque é tão importante a criação que você teve, os amigos de quem você foi e esquecer, inclusive, todos os poréns, essas coisas tão pequenas que muitas vezes criam um trauma na gente. Então, eu quis contar a minha história e fazer as pessoas lembrarem das delas, porque todas as áreas do Brasil se parecem demais. Às vezes, quando estou conversando com os caras, eles me contam sobre as histórias deles, das áreas deles, e é praticamente a mesma coisa”, conta Djonga.

Neste álbum, fica marcada a relação intimista e familiar de Djonga, que corroboram com a realidade de muitas famílias. Áudios dos amigos e uma música para filha, Iolanda, foram algumas das escolhas do disco. Quebrando o estereótipo dos rappers serem fortes e durões, ele mostra mais uma vez o lado paternal e sentimental na canção Procuro alguém. “A força vem da fraqueza e a fraqueza vem da força, um não vive sem o outro. O bom de falar sobre paternidade é que dá para tentar colocar alguma coisa na cabeça dos moleques que estão tendo filho agora. Eu espero que, se Deus quiser, vamos ter uma geração bem diferente desses pais que abandonaram os filhos, sabe? Tomara mesmo que seja uma geração mais responsável e se eu contribuir para isso, se eu mudar uma pessoa, sei que mudarei várias”, reflete.

Djonga segue apostando a multiplicidade sonora e as composições. Em meio as rimas em boombap, acústico, funk e trap, ele explora os extremos e as letras para enfatizar as emoções dele e as do outro lado da linha: as do ouvinte. Composto por 10 faixas, todas de autoria do cantor, o álbum também ganhou contribuições de Don Juan, FBC, Bia Nogueira, NGC Borges e Cristal. “Sempre componho todas. Eu e as pessoas que participaram, então a parte da Bia ela compôs, do Don Juan, do FBC, cada um que participou fez sua parte. Mas tudo que cantei ali fui eu que escrevi. É um processo árduo porque, ao mesmo tempo em que você está fazendo um disco, está vivendo o universo do outro em shows”, conta.

“É um disco que o título dele veio depois, normalmente penso antes o título, a ideia e o conceito, e, depois, começo a fazê-lo. Dessa vez, foi o contrário, o conceito foi surgindo, o título veio surgindo do meio para o fim. Fui descobrir exatamente sobre o que tava falando. Percebi que estava contando sobre as histórias da minha área ali. Eu tinha colocado um outro nome no começo, eu achava que falaria da parada, mas no meio do caminho percebi que estava contando muito as histórias da minha área e o quanto que aquilo era importante para mim naquele momento”, completa.


Repercussão


Em poucos dias de lançamento, as músicas que integram o trabalho tem ótima repercussão em reproduções no YouTube e plays no Spotify. A faixa O cara de óculos, feat com Bia Nogueira, alcançou mais de 3 milhões de views na plataforma. “Está maravilhoso, não tenho do que reclamar. A gente está batendo visualizações muito boas, os comentários são muito positivos, o carinho que as pessoas dão, estão gostando mesmo do trampo e divulgando. Não é tão de cara que a gente pode falar mesmo de resultado, acho que no resto do ano vamos ver melhor o que alcançamos e o que o disco vai significar para minha carreira. Mas até o momento posso dizer que estou feliz demais”, afirma o rapper.



Esse sucesso é tão notório na carreira do rapper que em Hoje não, uma das letras deste álbum, ele afirma: “171 pra mim não é mais crime, seu guarda/É o número em milhões de streams do meu Spotify”. Segundo Djonga, o número alto de pessoas acompanhando o trabalho dele sempre foi o objetivo. “Se não fosse, era melhor trabalhar em outra área. Tem hora que eu acordo sabendo que sou o Djonga, tem hora que sou só o Gustavo (nome de batismo). Acho que a fama é só mais uma coisa no meio de várias outras. Você escolhe quando você dá mais ou menos valor para ela, sabe? Estou conquistando ainda, sou muito novo, tenho apenas 25 anos, ainda não posso ter noção de nada. Está na hora de querer mais ainda, lutar com unhas e dentes por um lugar ao sol, porque é muita caminhada, tem muita gente que está caminhando há muito mais tempo, tem muita gente nova chegando”, diz.

Mesmo com pouca idade, o cantor é tem quatro álbuns: Heresia, O menino que queria ser Deus, Ladrão e Histórias da minha área. Em cada um desses trabalhos, a música “não perde a soltura“, como ele mesmo diz, é sempre composta de poesia e paixão, mas a diferença deles está no próprio compositor. “Me sinto um cara mais maduro, mais responsável, tanto artisticamente quanto como pessoa. Acho que hoje eu entendo muito mais o que significo e o que significa cada palavra que digo. Não que antes eu não entendesse, mas agora entendo muito mais e vejo que tenho que ser um cara muito mais responsável assim. Tenho dois filhos agora. É um processo intenso que não para. Ser pai ou mãe é um processo que dura pra sempre. Então assim, isso faz toda diferença, talvez hoje eu esteja um cara mais doce, mais emotivo, sacou? Isso muda dos outros discos, hoje sou mais preocupado’’, conta Djonga.

Representatividade 


Além do talento, Djonga ganha cada vez mais fãs por representar de forma positiva pessoas negras, da quebrada e que buscam ter grandes conquistas na vida. Na canção Oto patamá o cantor admite que fala a “língua dos manos” e que faz sua arte com foco no sorriso negro.

“Hoje, eu sei o peso que meu nome tem, não só para cena da música, para os pretos de modo geral, e isso vai além de música. Fora a sorte, que é algo que faz parte do processo, e o talento que conquistei com muito esforço, sempre treinando, isso é o resto (representatividade). Desde conseguir me comunicar com meus ancestrais, mãe, pai e avó, além de conseguir me comunicar com os brothers da minha rua, isso é tudo. Fora o talento e a sorte, isso é tudo (representatividade). Isso é o que faz tanta gente ouvir e se identificar”, completa o rapper.


Três perguntas / Djonga



O que as músicas de Histórias da minha área significam para você?

Acho que fazer arte é sempre uma conquista, no sentido de que você está se desenvolvendo, enquanto artista, como pessoa. Então, essas músicas, para mim, significam uma conquista muito forte de confiança, quanto artista. São 10 músicas que significam muito sentimento. É um disco que, talvez, não seja tão simples de entender para muitos, porque é um álbum feito para quem é de lá (da quebrada), então, para eles, é mais fácil de compreender, porque é um disco que leva a gente para um lugar muito forte. É um disco com uma carga sentimental muito grande e ao mesmo tempo significa evolução do meu trabalho, conquista e coragem.


Hoje não é a única faixa que tem clipe até agora. Qual a importância da mensagem dessa música para o álbum?

Para mim, como pessoa, essa música é muito importante porque consegui contar uma história do jeito que queria contar há um tempo, com a estética... Tinha muito tempo que eu buscava isso, uma música de storytelling do jeito que foi, de uma forma que não ficasse chata nem maçante e que não só as pessoas, mas eu também me identificasse. É uma música que me identifico muito. Acho que é uma das mais importantes nesse disco no quesito da minha evolução artística, de uma coisa que eu amo fazer. Fiquei muito feliz de conseguir fazer essa música. É importante para mim, não só como uma música do disco, mas como uma música do Djonga. Foi muito importante ter feito. É um passo na minha carreira. O clipe também consegui adotar uma estética muito importante para o momento que a gente vive.


O que ainda sente falta na sua carreira?

Estou sempre insatisfeito. Artista satisfeito é bom de parar, viu? É melhor ele procurar outra coisa, viajar, se divertir. Faço uma parada que nunca tem fim, o fim dela é o caixão. Então, o que falta para me sentir satisfeito é tudo, tudo que eu possa conquistar e não conquistei ainda. Tudo mesmo, eu quero tudo. Quero ir até onde o que me foi dado, até onde o universo permitir, quero ir.
 
*Estagiários sob supervisão de Igor Silveira 

(foto: Daniel Assis/Divulgação )
(foto: Daniel Assis/Divulgação )

Histórias da minha área
De Djonga. Pela Ceia, 10 faixas. Disponível em todas as plataformas digitais.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade