Publicidade

Correio Braziliense

Três bons motivos para ler no isolamento

Autores tratam de universos mágicos, cenários realistas, de música e do fazer literário


postado em 31/03/2020 04:06 / atualizado em 03/04/2020 10:56

Alejandro Chacoff, autor de Apátridas(foto: Companhia das Letras / Divulgação)
Alejandro Chacoff, autor de Apátridas (foto: Companhia das Letras / Divulgação)




Uma das maravilhas da leitura é o fato de ela despertar a empatia e a humanidade, dois elementos que serão necessários mais do que nunca diante de uma epidemia que se alastra velozmente. Ler é, também, uma forma de viajar sem sair do lugar, flanar por outros tempos e outros cenários, aprender sobre culturas e levar a reflexão para além do óbvio e superficial. Outro recurso necessário para manter a mente sã em período de confinamento. E para isso, a produção literária brasileira contemporânea é repleta de excelentes narradores e pensadores e, apesar do coronavírus, editores seguem a tarefa de levar essa produção aos leitores. O Correio fez uma lista de alguns títulos lançados recentemente e outros que já entraram para os catálogos há alguns meses: é uma sugestão para o leitor que quiser mergulhar na boa produção contemporânea brasileira. E todos estão disponíveis em formatos digitais, nos sites das editoras.
 
 
 
Para entender de música

Há 12 anos, o pianista e maestro Leandro Oliveira está à frente do projeto Falando de música, uma série de encontros que ocorrem antes das apresentações da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e se debruçam sobre explicações referentes ao universo da música clássica. Diante de uma lista de dúvidas que se repetem ano após ano, Leandro decidiu escrever o livro Falando de música, recém-lançado pela Todavia.

Cada um dos oito textos inéditos publicados no livro traz uma das perguntas frequentes durante os encontros. “Não passo três semanas sem que os membros da plateia me façam perguntas sobre se é sinfônica ou filarmônica, por que não se aplaude, o que tenho que ouvir quando chego em casa, devo tocar um instrumento ou ouvir música, o que é música clássica?”, conta o autor, que também é crítico de música e especialista em filmagem de apresentações ao vivo de orquestras. “Existem outras, mas esses oito ensaios são um convite bem humanístico. A ideia não é ser um livro técnico ou um almanaque, mas uma conversa que o sujeito que tem curiosidade pode, de algum modo, abrir o quadro de referências e se estimular pelas questões.”

“Até uma coisa interessante, nesse momento de crise todo esse trabalho de transmissão de concertos e eventos intensificou muito, grandes instituições estão disponibilizando acervos pra assistir na internet esses concertos. Alguns estão muito estimulantes cujo acesso foi liberado. E uma boa oportunidade de imersão na grande música”, por Leandro Oliveira

Um Brasil delicado

Bibiana e Belonísia são duas irmãs unidas por muito mais que o laço sanguíneo. Filhas de trabalhadores rurais que tocam uma fazenda da qual não são donos, elas sofrem um acidente que limita a fala de uma delas. Precisam, então, aprender a compreender, por meio do olhar e dos gestos, o que cada uma pensa. Belonísia e Bibiana são também mulheres imersas num universo cruel, de desigualdade social, de luta pela terra e de uma violência histórica que nega, até hoje, o impacto da herança escravocrata na sociedade brasileira.
 
O romance Torto arado, de Itamar Vieira Jr., tem as irmã à frente de um texto que já nasce clássico, com raízes profundamente brasileiras e um olhar duro para um país que não consegue se desvencilhar da pior parte de sua história. O romance ganhou o prêmio Leya de 2018 e foi publicado em Portugal. No ano passado, chegou ao Brasil pela editora Todavia.

Formado em geografia e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Vieira Jr. é também um conhecedor da situação dos trabalhadores do campo no Brasil. “Desde a concepção da história, 20 anos atrás, as irmãs são as protagonistas. Depois, eu fui trabalhar no campo, com trabalhadores rurais, e fui mais uma vez tocado pelo poder que a mulher exerce em determinados grupos, apesar de vivermos em um país extremamente patriarcal. Foram essas mulheres — da família e do campo — que me permitiram construir todo o universo ficcional de Torto arado”, conta Vieira Jr, que foi criado por uma família encabeçada por mulheres.

“A ficção é uma forma de comunicação e reflexão ancestral, e a capacidade de elaborá-la é o que nos distingue, até onde sabemos, das demais espécies. Desde que nos postamos de pé e passamos a pensar, fazemos ficção. A ficção literária por sua vez é uma expressão da arte que nos permite viver a vida do outro. Como a leitura é solitária, e a realizamos na intimidade, ela nos permite a troca de vidas com as personagens sem que soframos a censura dos que estão à volta. A literatura é fonte de empatia e humanidade, nos permite expandir nossos horizontes e viver vidas que nunca viveríamos. Leiam para que possamos compreender o mundo à volta e a nós mesmos”, por Itamar Vieira Jr.

Fronteiras reais e imaginárias

Filho de uma brasileira com um chileno, Alejandro Chacoff nasceu em Cuiabá e se mudou para os Estados Unidos aos 2 anos de idade. Morou em vários países, foi analista político em Londres aos 23 e, um dia, cansou da linguagem dura e presunçosa dos relatórios e se rendeu à literatura. Sempre foi leitor voraz mas, em determinado momento, sentiu necessidade de ir além e escrever. Assim nasceu Apátridas, romance sobre um menino filho de um chileno com uma brasileira cuja trajetória passeia por questionamentos de identidade e de fronteiras, físicas ou não, que moldam a personalidade e a compreensão do mundo. “Não sei dizer o que me moveu a escrever Apátridas, da mesma forma que não sei dizer o que move qualquer pessoa a escrever. Suponho que tenha algo a ver com a sensação de deslocamento, essa sensação perpétua de flutuar na beira de algo coletivo (uma família, uma nação, um império) e nunca se sentir completamente parte do todo”, conta o autor.

O livro lida com essas questões de forma bem literal. O narrador é um menino que volta ao Brasil com a mãe e a irmã depois de uma temporada nos Estados Unidos. O pai, um chileno ausente, é uma presença incômoda que paira no ar, mas nunca aparece. E o garoto se sente eternamente deslocado dentro de uma rica família do interior do Mato Grosso. “É literal seja na movimentação geográfica dos personagens, seja na posição social estranha do narrador — um quase-agregado, pois nem na condição de agregado ‘clássico’ ele se encaixa — mas essa é também uma condição que me parece universal. E pode até soar como uma condição romântica, de certo élan exclusivo; mas ela é também enlouquecedora e cruel, porque tudo mundo às vezes sente o desejo, fugaz ou não, de pertencer a algo maior, explica Chacoff.

“A pandemia é uma tragédia que vem num momento em que muitos governantes se negam a entender a natureza transnacional de desafios ao bem público. E há duas opções de como reagir a ela: enclausurando-se cada vez mais na xenofobia, ou retomando alguma ideia mínima de cooperação. Sinceramente, não sei que rumo será escolhido. Ficar em casa é obviamente necessário nesse momento, pelo zelo à saúde pública. Em um momento de xenofobia exacerbada, talvez de uma forma muito branda o vírus possa dar alguma ideia da violência envolvida numa proibição de movimento”, por Alejandro Chacoff.

Falando de música
De Leandro Oliveira. Todavia, 128 páginas. R$ 44,90

Torto arado
De Itamar Vieira Jr. Todavia, 262 páginas. R$ 54,90

Apátridas
De Alejandro Chacoff. Companhia das Letras, 192 páginas. R$ 49,90
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade