Diversão e Arte

Projeto 'iRaridades' reúne registro de bandas brasilienses dos anos 1980

Álbum triplo reúne, 37 anos depois, registros restaurados e remixados de Banda 69, Tonton Macoute e Fama Volat

Em 15 de abril de 1983, subia ao palco da Associação Brasileira de Odontologia, para abrir a Temporada de Rock, a Banda 69, formada por Marcelo Carvalho (baixo e voz), Murilo Carvalho (guitarra e voz), Rodrigo Lopes (piano, sintetizador e voz) e Militão Ricardo (bateria e voz). Os quatro, que se conheceram no Colégio Dom Bosco, tinham os Beatles como referência, mas, nos três shows apresentados naquele fim de semana, mostraram músicas autorais.

Duas delas, Doido varrido e Maria Gasolina, incluídas no repertório do show, 37 anos depois, podem ser ouvidas em iRaridades, com a participação também da Tonton Macoute e da Fama Volat — todas com o primeiro registro em disco. O álbum triplo — cada um com oito faixas — resultou do projeto da preservação e resgate da música de Brasília, idealizado e materializado pela GRV Mídia, Música e Entretenimento, disponibilizado nas plataformas digitais e lançado no formato físico.

“As 24 músicas do iRaridades, registradas originalmente em fitas cassetes, Dat e Adat, foram restauradas, remixadas e remasterizadas”, destaca o produtor Gustavo Vasconcellos. “O encarte traz fotos e textos sobre a trajetória das bandas, concepção de capa e ilustração iconográfica da Cascielli Design; e, na realização do projeto, contamos com o Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Economia Criativa e Cultura”, acrescenta. As mil cópias prensadas serão distribuídas entre as bandas e o FAC-DF.
 

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Chamada, à época, por Herbert Vianna de “os Beatles de Brasília”, a Banda 69, formada no final de 1980, fugia do rótulo de punk rock. Rodrigo Lopes tinha formação clássica. Ele e Militão Ricardo cantavam no Coral da Universidade de Brasília (UnB), do qual levavam para o grupo as técnicas de harmonia e canto. Marcelo Carvalho se aprofundou no quesito harmonização e tornou-se o principal compositor; enquanto Murilo Carvalho se dedicava à guitarra. “Ao nos ouvir no show de estreia, Renato Russo se entusiasmou e comentou: ‘Eles cantam a quatro vozes e tem teclado!’”, lembra Militão. Além das duas músicas citadas, o CD da Banda 69 traz Disputa sobre rodas, O policial e a manifestante, Brasília by night, Negação, Clotilde no banho e 434.


Proposta


Perseguir uma estética dirigida a estabelecer conexão com o belo e com a emoção, ou seja, com o eterno, era essa a proposta da Tonton Macoute, banda surgida em 1986. Do trabalho realizado por João MacDowell e Cláudio Otero, com textos e sonoridades incomuns — mistura de elementos acústicos e experimentais — que sugeriam inúmeras possibilidades. O grupo se apresentou ao público com o show Parece que existe, do qual faziam parte músicas que estavam nas primeiras gravações, em que davam ênfase às programações rítmicas-mecânicas, vocais declamados e teclados minimalistas. Havia ainda o acréscimo do trompete de Flamaion Mosri e do contrabaixo de Maurício Lagos e Dedé Zema, da percussão de Tida Couto e do baterista Leander Motta.

“Duas das músicas que gravamos, A pele e Eletric light, tiveram boa execução na Rádio Fluminense, que se tornou conhecida como a Maldita, por tocar composições de bandas pouco ou nada conhecidas”, recorda-se Cláudia Otero. “O Renato Russo quis produzir nosso trabalho, mas nenhuma gravadora nos contratou”, acrescenta. Ela explicou que a banda se desfez depois de que ela se casou com o diplomata Sérgio Couto e foram morar em Varsóvia, Polônia. As outras faixas registradas no iRaridades são A Bruxinha, O circo, Mr. Dejonette, Dois amantes, Ruas e Animais.

Ao contrário da Banda 69 e da Tonton Macoute, a Fama Volat tinha como principal influência a sonoridade do punk rock. A ideia de criar uma banda começou a ser germinada em 1980, em São José do Rio Preto, São Paulo, por dois colegas de colégio, Mário Salimon e Edmilson Ferrari. Na prática, isso viria a ocorrer quatro anos depois, quando os dois e mais Flávio De Matteis, Juno e Neno formaram o Fome de Viver. Esse grupo foi a gênese do Fama. “Em 1993, vim morar em Brasília para fazer jornalismo na UnB. Aqui, me deparei com uma cena musical muito intensa e forte; busquei me inserir nela”, lembra. “Conheci vários personagens dessa cena, entre eles Paulo César Cascão (Detrito Federal), que, insistentemente, me sugeriu convencer Edmilson a se mudar para a capital. Ele veio e, em 1987, criamos o Fama Volat”, complementa.

Salimon e Edmilson, então, convidaram o baixista Dedé — inicialmente tocando bateria eletrônica — para se juntar a eles. Com essa formação, cumpriram temporada no porão do Bar do Divino, na 209 Norte. Logo depois, fundariam o Fama, que passou a contar também com o percussionista Hélio Franco e com o baterista Gustavo Vasconcellos. Com um trabalho que chamou a atenção por mesclar som dançante com letras de abordagem política, a banda fez muitas apresentações na cidade e também em Belo Horizonte e São Paulo.

Na trajetória, que prosseguiu até 1989, a Fama não chegou a fazer registro de composições do vocalista Mário Salimon e parceiros. Isso se tornou viável agora, três décadas depois, no projeto iRaridades. São músicas criadas em diferentes períodos: Cadernos do 3º mundo, Dance floor, Curva 88, Fome de viver, Bate pau, Dos quadros, além de Decisão funk (que abre o repertório) e Ben funk — as únicas que não têm a assinatura de Salimon.

iRaridades
Álbum triplo com a Banda 69, Tonton Macoute e Fama Volat, lançamento do selo GRV Disco, disponível nas plataformas digitais e no formato físico.