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Correio Braziliense

Curador do Prêmio Jabuti se retrata após minimizar covid-19

Escritores assinaram manifesto contra o atual presidente do conselho curador. Câmara Brasileira do Livro (CBL) se pronunciou por meio de nota lamentando o fato: 'Foi um erro grave, reconhecido por ele, e objeto de retratação'


postado em 26/05/2020 10:18 / atualizado em 26/05/2020 10:37

Após manifestações de indignação da classe literário, o curador do festival Jabuti Pedro Almeida apagou o post e pediu desculpas, o que não convenceu os escritores (foto: Facebook/Divulgação)
Após manifestações de indignação da classe literário, o curador do festival Jabuti Pedro Almeida apagou o post e pediu desculpas, o que não convenceu os escritores (foto: Facebook/Divulgação)
Vários escritores brasileiros assinaram um manifesto contra o atual presidente do conselho curador do Prêmio Jabuti, o editor Pedro Almeida, da editora Faro, após uma publicação dele nas redes sociais questionando o número de mortes decorrentes do novo coronavírus e a necessidade do isolamento social. O documento, intitulado Manifesto contra o obscurantismo no Prêmio Jabuti, pede a retirada de Almeida do cargo.

Publicado no último domingo (24/5) no Facebook, o texto compartilhado pelo editor começava com a frase “Alguém está mentindo pra você” e trazia dados dos cartórios de registro civil comparando o número de mortes por doenças respiratórias em 2019 e 2020, e argumentava: "Estou negando a importância de cuidados com a saúde [...]? NÃO! Estou falando que não há um dado claro que indique a necessidade de parar com o país e ferrar a economia por uma mortandade de pessoas, porque não há aumento desses óbitos".

O curador bloqueou o texto após a repercussão negativa e a publicação da carta. Na segunda-feira (25), ele publicou uma retratação se desculpando pelo post e admitindo que se baseou em informações equivocadas e negando que tenha se oposto ao distanciamento social. “Fiz um post com dados incorretos; errei por acreditar que eram corretos. Assim que amigos me avisaram disso, apaguei o post. Não desejava colocar inverdades e, como jornalista, sempre confiro antes de divulgar. Mas apostei na fonte”, afirmou.

“Lamento profundamente todas as mortes por covid-19. Tenho amigos que perderam parentes por conta dessa pandemia, dei toda a minha solidariedade e afeto a todos eles na época em que essas perdas aconteceram. Uma amiga perdeu o pai e é muito próxima a mim. Ela sabe que nunca desprezei essas mortes e foi a primeira a me dar apoio quando as redes começaram a discutir meu post, pois sabia que o sentido que ele ganhou não foi o mesmo de quando o escrevi”, continua. No mesmo texto, ele atribui ao manifesto um sentido de censura e patrulhamento.


A retratação, no entanto, não convenceu os manifestantes, e o abaixo assinado virtual continua ativo. Até a noite de segunda-feira, o manifesto já contava com mais de 6.700 signatários. O curador e idealizador do festival Fliaraxá, Afonso Borges, que criou a petição no site Change.Org, comentou, em entrevista ao Correio: “A retratação dele é circunstancial, só por causa do impacto do post. Se não houvesse essa repercussão, esse post estaria lá no perfil dele da mesma forma até hoje. Ele pensa assim. Eu até o respeito, como respeito tantos que pensam diferente. Agora, só não posso considerar que uma pessoa que tenha esse sentimento na alma, esse pensamento, esteja avalizada para coordenar um prêmio desta magnitude”.

O escritor e jornalista brasiliense José Rezende Jr., vencedor do Prêmio Jabuti de 2010 pelo livro Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor), também assinou a carta e fez coro aos demais escritores. Questionado pelo Correio, disse: “A literatura, para mim, é sobretudo a arte de enxergar o outro. Se perdemos a capacidade de enxergar 22 mil mortos, e de nos indignarmos com o descaso do governo para com esses mortos, seus familiares e toda a população brasileira, é porque fracassamos não apenas como escritores, mas também como seres humanos.”

Procurado pela reportagem, o curador e editor Pedro Almeida informou que não daria outras declarações além das que foram divulgadas na carta de Retratação. "Eu decidi não dar entrevistas sobre o assunto. Era no meu post pessoal e mantive ali", disse ao Correio

A Câmara Brasileira do Livro (CBL), responsável pelo prêmio, se manifestou por meio de nota lamentando o ocorrido. Confira a íntegra da nota abaixo.

Confira nota da Câmara Brasileira do Livro

O país e o mundo vivem um momento de grandes dificuldades, de grave crise de saúde, com muitos infectados e óbitos, o que deve ser tratado com a maior seriedade e respeito às pessoas que perderam entes queridos. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) sempre atuou em defesa da democracia, liberdade de expressão, da cultura e da ciência e lamenta que comentários desprovidos de base científica ou sem argumentação sólida sejam divulgados em uma situação tão grave como a que vivemos.

Pedro Almeida, atual curador do Prêmio Jabuti, realizou um trabalho reconhecido por todos na última edição da premiação, mas seus recentes comentários em redes sociais sobre a Covid-19 provocaram indignação e protestos. Foi um erro grave, reconhecido por ele, e objeto de retratação.

A CBL mais uma vez lamenta ocorrido e reforça que nenhum colaborador está autorizado a falar em nome da Câmara. Opiniões manifestadas por colaboradores e parceiros em seus canais pessoais e redes sociais são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

A Câmara tem trabalhado para manter os serviços aos associados e garantir uma atuação com responsabilidade e foco nos desafios e dificuldades que ainda vem pela frente para o mercado editorial e para toda a sociedade.

*Estagiário sob supervisão de Adriana Izel

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