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Correio Braziliense

Bombeiro gato da Netflix, JP Gadêlha faz sucesso como nova voz da esquerda

Finalista do reality show 'The Circle', militar dialoga com anônimos e famosos enquanto "milita" e faz graça nas redes


postado em 28/05/2020 15:26 / atualizado em 28/05/2020 15:28

JP Gadelha vem fazendo sucesso nas redes e destila críticas ao governo federal(foto: Instagram/reprodução)
JP Gadelha vem fazendo sucesso nas redes e destila críticas ao governo federal (foto: Instagram/reprodução)
Entre sacadas engraçadas, provocações a famosos e críticas constantes ao governo Bolsonaro, JP Gadêlha vai ganhando seguidores, fama e uma certa dor de cabeça. Participante dos mais emblemáticos do primeiro reality show da Netflix, o The Circle, o bombeiro militar passa na vida (quase) real das redes sociais questionamentos semelhantes ao que passou no programa, em que seus posicionamentos, modo de falar e inteligência eram apontados como incompatíveis com o visual de beleza clássica do estudante de direito de 31 anos.
 
O The Circle confina participantes que, sem se ver, interagem online e se julgam o tempo inteiro para definir o popular que leva uma bolada em dinheiro. Finalista, Gadêlha colhe agora os frutos da exposição, com mais de 1 milhão de seguidores e um assédio internacional que virou rotina bem-vinda ao solteirão convicto. 
 
Mas se no Instagram, são as fotografias de carão e pele à mostra que fazem sucesso, no Twitter, é a rede progressista que o abraça. "Flávio Bolsonaro votar contra o adiamento do ENEM foi a segunda vitória dos estudante: se a família Bolsonaro está de um lado, precisamos sempre estar do outro", declarou, na semana passada, antes de ver a frase ser replicada centenas de vezes, provocar Manuela D’Ávila e até Maísa, sempre com bom humor. Com o jeitão “sem aperreios”, vê os números de sua influência multiplicarem e conta com isso para seus planos de futuro. Ao Correio, JP Gadêlha fala sobre eles e sobre a vida após a exposição para mais de 200 países. Confira:
 
Ver galeria . 8 Fotos JP Gadelha, o bombeiro gato do The Circle
JP Gadelha, o bombeiro gato do The Circle (foto: )
 

Você participou de uma das grandes apostas da Netflix antes da pandemia da covid-19, o The Circle, com versões em alguns países. O que mudou na sua vida após o fim do programa?

Foi muito prazeroso, uma experiência única e surreal participar do reality show e ter uma projeção mundial. Isso teve um efeito muito positivo. E, ao mesmo tempo que a gente se alça ao patamar desse nível, isso também traz uma responsabilidade grande com o que você vai falar, com seus posicionamentos, porque várias pessoas estão te observando; muita gente está esperando que você tropece, também; então o cuidado é fundamental. Nunca esperei que fosse viver nada parecido e foi vantajoso no final.

Acusado de ser um fake no reality The Circle por seu jeito “erudito e quadrado” de falar, você passou a ser visto como personagem pouco real também depois do programa, nas redes. Afinal, quanto dessa imagem pública corresponde à realidade e quanto é a persona editada que mostramos nas redes?

É bem complexo falar sobre isso porque as pessoas, naturalmente, tendem a julgar o outro pela aparência, por estereótipos; inclusive, dentro de programas, de reality shows, eles buscam categorizar as pessoas por padrões, de nichos. Pra mim, dentro de um programa de entretenimento, ok, mas acho que na nossa vida, isso acaba se tornando negativo porque as pessoas são diversas, são plurais, cada um tem seu jeito e não é o físico que determina se a pessoa se posiciona politicamente ou não, se tem boas ideias ou não… 

É natural que as pessoas busquem colocar as outras numa caixinha e você tem sempre a inteligência questionada; quanto isso incomoda ou está naturalizado no teu cotidiano?

Inicialmente, isso me incomodava bastante. Eu buscava fugir dela; me posicionava e as pessoas começavam a julgar; aquela coisa de colocar o cara numa caixa. Eu, como vim do exército, aprendi responsabilidade muito cedo, tive que amadurecer muito novo, virei oficial com 19 anos e isso me trouxe uma experiência de vida relevante pra que hoje eu possa construir meus pensamentos, fazer comentários; e, muitas vezes, as pessoas negam, né? Tendem a rechaçar isso. Hoje eu encaro com mais tranquilidade por saber de onde eu vim; sou de uma família com trajetória política, mas as pessoas buscam descredibilizar a opinião de alguém que atende aos requisitos estéticos que são exigidos pela própria sociedade, né? Meu bisavô era prefeito, bem como meu tio-avô, minha avó foi uma das primeiras vereadoras do Brasil, Ivete Gadêlha, de extrema importância no direito das mulheres, contra desigualdades... Tive uma convivência muito próxima com ela e isso forjou minha personalidade e meus princípios. Então eu sei quem eu sou e a tendência é que eu despreze quem pense diferente disso e prefiram colocar apenas em relação a um padrão.

Seu Gadêlha tem relação com o deputado federal Túlio Gadelha (PDT)?

Tem, tem sim. A família Gadêlha, em Pernambuco, é praticamente uma só, mas já pedi para me explicarem a relação e não conseguiram; acho que meu pai é primo do pai dele, algo assim, mas a gente nunca conviveu; é um parentesco mais distante.

Você mostra que sabe ter uma beleza clássica, mas reage a críticas em outros âmbitos; o recurso da beleza, afinal, torna mais difícil ser levado a sério ou te abre mais portas? Pro The Circle, por exemplo, acredita que suas ideias foram levadas em consideração?

Essa questão é bem controversa, meio que um paradigma; seria hipócrita de dizer que a beleza não abre portas, abre sim. No mundo artístico, por exemplo, se preza muito pelo estereótipo físico. Ainda que no momento atual, percebo que há uma desconstrução do galã e da mocinha; está se buscando pessoas mais próximas da realidade e há uma revolução nesse sentido. Antes a Globo, as novelas, em si, só se buscava isso. Inclusive negros e nordestinos eram sempre empregadas, como funcionários, nesse patamar. Está havendo uma mudança. A tendência universal é que essa questão caia. No The Circle, acho que chamou a atenção o fato de eu ser bombeiro militar e, com o presidente que temos, ter um militar dentro do jogo causaria interesse. Tanto que surgiu tanta desconfiança por parte dos outros jogadores, né? Era fácil me colocar como o branco, de direita, militar, bolsominion e preconceituoso e, de cara, fui julgado dessa forma. Ao longo do jogo tive a oportunidade de desconstruir isso, o que me deixa feliz.

Você associou a palavra Nordeste a uma necessidade de posicionamento. Sendo até arriscado emitir opiniões para públicos tão distintos, com um milhão de seguidores, por que o muro não é uma opção? Por que se envolver politicamente e entrar num debate que figuras públicas evitam? 

Eu sempre digo que ser nordestino é um estado de espírito e que a gente ainda vai dominar o mundo. Acho que atualmente não cabe mais opção. Você calar com medo de cancelamento não é aceitável. As pessoas que se posicionam são encaradas como sensatas e validam ali seu pensamento. E a gente está vivendo um período de ataques à democracia, à imprensa e às instituições muito severos, então, como influenciador, com público grande, é preciso mostrar a que veio e alertar dos riscos de uma política desastrosa. É tanta fake, tanta coisa abominável e absurda, então se posicionar é fundamental.

Isso parece um sinal de quem busca um mandato, uma candidatura…

Não descarto a possibilidade, sem dúvidas. Mas seria algo para pensar mais pra frente. Por enquanto, continuo na minha carreira de militar, mas, no futuro, penso sim. Tenho até no meu DNA, que eu carrego, né? Só não agora.

Com formação militar, apontado como tendo “jeito quadrado” de se colocar, defende a disciplina, mas se diz progressista. Como é ter (esse) governo militar nesse momento?

Olha, Bolsonaro representa uma parcela; não posso dizer que ele representa todos os militares. Posso te dizer que nossa categoria é repleta de militares plenamente competentes; existem muitos que pensam de forma progressista, que zelam pelo país, por coisas positivas. Mas tem a parcela também que é tóxica, que é equivocada. A gente não pode confundir maus exemplos com verdades absolutas. Bolsonaro representa um pensamento arcaico, ultrapassado, meio que parou no tempo, ainda é muito conservador; a meu ver, ele não é um bom governante. Ele, na verdade, nem é mais militar; é aposentado; acho que a população tem que saber diferenciar, ele é mais político que militar.

Na corporação, não sofreu nenhuma resistência, bullying, inveja ao sair do programa? 

De absolutamente ninguém. Fui muito bem acolhido. Apareceram em peso para o primeiro episódio. Nunca vi nada. Pelo menos, não na minha frente.

Quais os planos fora da carreira militar?

Por enquanto, eu não pretendo abrir mão da minha carreira militar pelo meio artístico, porque é um concurso público, que me dá estabilidade, com plano de carreira, mais pra frente podendo me aposentar; já estou no militarismo há 10 anos, então seria muito arriscado trocar tudo isso. Mas eu pretendo ir conciliando. Tenho uma veia artística muito pulsante em mim, desde criança. Gosto de interpretar, de atuar; não tive oportunidade de desenvolver muito esse lado. Se eu puder me aventurar, conciliando, ótimo.

Participaria de outro reality, como A Fazenda, De férias com o ex? 

Por enquanto, não toparia, porque não acho ser o momento. Tem a corporação, pegar uma licença, e não é minha vontade nesse momento, de entrar em outro confinamento.

Como tem lidado com o assédio após o programa?

Essa é a parte mais agradável, os frutos que a gente colhe dessa exposição. Recebo diariamente mensagens de gente, principalmente do Nordeste. Muita gente se disse representada por mim, fico muito feliz. Depois que eu passei a me posicionar mais, percebo que eles chegam de uma forma muito respeitosa; o pessoal que era mais agressivo, mais equivocado sumiu, ainda que tenham os haters, mas a maioria é de gente apoiando.

Quantos pedidos de casamento até agora?

Todo dia chega. E pedido para apagar o fogo. Eu acho uma resenha. Indecorosos não muito, tem pedido de namoro, cheiro no cangote, eu me divirto.

Toparia posar nu?

Jamais. Cada um é dono do seu corpo, administra como bem entender, mas eu, enquanto militar e considerando minha própria personalidade, acho que seria uma exposição muito grande, mostrar o corpo assim, não seria minha vontade. 

Com um milhão de seguidores, quantas pessoas te ajudam a administrar suas redes?

Ninguém. Faço tudo sozinho. Muita gente me procura pra fazer assessoria e tudo mais, mas por enquanto eu consigo conciliar. Às vezes é cansativo, me dividir com o trabalho, mas vou consumindo informação, notícia, memes, tenho ideia já ponho no bloco de notas pra não esquecer e depois vou lançando tweets, stories etc. Nem assessor, nem empresário. 

No estilo The Circle, é hora da avaliação. Como você rankearia as três contas que mais te influenciam ou você recomenda seguir hoje?

Gosto muito dos posicionamentos da Gabriela Prioli; gosto muito de Felipe Neto, ele cresceu, mudou muito seus posicionamentos e me inspiro muito nele; Quebrando o Tabu também é outro perfil que gosto, é interessante.

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