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Correio Braziliense

Billie Holiday eternizou a violência racial em 'Strange fruit' há 81 anos

Escrita por um professor judeu, a canção fala sobre o linchamento de dois homens negros em Indiana em 1930


postado em 02/06/2020 18:25 / atualizado em 02/06/2020 18:25

Billie Holiday é um dos principais nomes do jazz (foto: Instagram/Reprodução)
Billie Holiday é um dos principais nomes do jazz (foto: Instagram/Reprodução)
No dia marcado pelo movimento Blackout Tuesday, plataformas digitais musicais, como Spotify e Deezer, também se mobilizaram em apoio à bandeira antirracista. O Spotify, por exemplo, além de trocar as capas das principais playlists da plataforma para versões feitas apenas em preto e tons de cinza escuro e fazer uma pausa de 8 minutos e 46 segundos nas transmissões musicais, em referência ao tempo que o policial norte-americano ficou ajoelhado no pescoço de George Floyd, também lançou uma playlist chamada Black Lives Matter com artistas e músicas importantes para o movimento negro. 

Não é de hoje que a música expressa questões políticas, sociais e, sobretudo, raciais. No entanto, foi em 1939, durante uma apresentação no Café Society, único lugar em Nova York com uma política de integração, que a cantora de jazz Billie Holiday deu voz e alma à canção Strange fruit. Mais do que uma música de protesto, era a primeira vez que uma canção levava uma mensagem política explícita tão forte para o ambiente do entretenimento e de maneira tão artística. 
 
 

Escrita a partir de imagens de linchamentos de afro-americanos no sul dos Estados Unidos, a letra representa até hoje as cenas da violência racial. Além de um dos maiores sucessos de Billie Holiday, Strange fruit levou o título, em dezembro de 1999, de canção do século pela revista Time; entrou para o Hall da Fama do Grammy em 1978; e foi incluída na lista de canções do século da National Recording Registry e da National Endowment for the Arts.

História

Como um poema, a música foi escrita pelo professor judeu Abel Meeropol sob o pseudônimo de Lewis Allan sobre o linchamento de dois homens negros. Tudo indica que Meeropol, professor de um colégio no Bronx, nunca testemunhou um episódio de linchamento, mas compôs com base na fotografia de Lawrence Beitler do ocorrido com Thomas Shipp e Abram Smith em uma cidade de Indiana em 1930.
 
(foto: Lawrence Beitler)
(foto: Lawrence Beitler)
 
 
Pouco tempo depois, Meeropol musicou o poema, que chegou a ser cantado em reuniões de sindicatos e até mesmo na Madison Square Garden, onde, dizem, ter chamado a atenção do gerente do Café Society. Para a cantora Billie Holiday, Strange fruit lembrava-na a injustiça racial sofrida pelo pai, Clarence, que não conseguiu obter tratamento em um hospital do Texas. 

A canção passou a integrar o repertório de Billie, mas foi recebida de diferentes maneiras pelo público. Alguns espectadores iam às lágrimas com a maneira imponente com que a cantora entoava cada letra e outros deixavam a sala. Donos de algumas casas de show tentavam convencê-la de não cantar a música com medo de afastar a plateia. Emissoras de rádio nos Estados Unidos e no exterior baniram a música e própria gravadora de Billie, Columbia Records, recusou-se a gravá-la. No entanto, a artista conseguiu com Milt Gabler, da Commodore Records, eternizar a faixa. 

Strange fruit também ajudou a consolidar movimentos em defesa dos negros nos Estados Unidos, e muitos músicos reinterpretaram a canção, sendo a mais famosa versão gravada por Nina Simone em 1965.
 

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