Diversão e Arte

Filme sobre moldes escravocratas contemporâneos ocupa grade do Canal Curta!

Documentário Sobre sonhos e liberdade, exibido na tevê, trata do recorrente modelo de escravização dos negros brasileiros

Ricardo Daehn
postado em 25/07/2020 09:12

Cartaz do filme exibido no Curta

Uma questão persegue a diretora de cinema Marcia Paraíso, que, ao lado do colega Francisco Colombo, dirigiu o documentário Sobre sonhos e liberdade: "Em um país com maioria populacional negra, por que, até hoje, os brancos não se deram conta de que não há como avançarmos, democraticamente, sem o combate sistemático ao racismo?". Segmentos de respostas habitam o longa-metragem incluído na grade do Canal Curta! (hoje, sábado, 25/07, a ser exibido às 15h; amanhã, domingo, às 22h30 e ainda com sessões segunda e terça). Francisco Colombo se adianta em comparar racismo nacional ao dos Estados Unidos. "Lá houve (e há), ainda hoje, fortes embates em função da forma como as pessoas foram (e são) segregadas. Aqui, decorrente da miscigenação, forjamos uma falsa cordialidade, que no fundo nada mais é do que o racismo

velado, apaziguador em certa medida, capaz de evitar choques".

Francisco Colombo, codiretor do longa que analisa a situação das vidas pretas no Brasil

Processos de violência psicológica e física, e o progressivo aniquilamento "do diferente" inflamam a reflexão do cineasta. "O Brasil vive um momento singular, estimulado por boa parte dos ocupantes dos cargos de poder. O cinismo, que sempre serviu como verniz nas relações, cedeu espaço para o descaramento, a grosseria evidente", aponta. Piadas descabidas reeditadas seriam dos menores males. Infelizmente, pesa a atualidade impressa no longa, como demarca a fala citada por Walter Fraga, acerca do "padrão senhoral" da famosa expressão "Sabe com quem você está falando?" (volta e meia, ouvida nos noticiários).

Dados da "persistência do negro no lugar de escravidão" povoam a fita que tem entre os entrevistados o brincante e mestre cênico Monilson dos Santos Pinto, que propaga a experiência do Nego Fugido, um auto encenado por populares. O filme exibido no Canal Curta! mostra o cotidiano de mulheres chefes de famílias, na organização quilombola, as cobranças de saneamento, moradia e assistência médica que brotam de requerentes como o pescador

Arnaldo Ramos, enquanto o ativismo negro, já no século 17, é reclamado por figuras como Mateus Aleluia. Mestres da capoeira dão as caras, a fim de registrar preconceitos nos diferenciaias entre "doutores e pilatras". Limitações dos trânsitos sociais entre negros e brancos são apontadas por autoridades como Walter Fraga e Wlamyra Albuquerque.

Junto com a falsa harmonia deflagrada no "mito da democracia racial", os "lugares distintos para negros e para brancos" e a revelação dos incômodos e tensões que imantam conquistas sociais de negros, tudo destacado por Marcia Paraíso, habitam

o filme. Sujeita à repressão policial (e distante do "alcance de políticas públicas", na conjuntura exemplificada por Francisco Colombo), a massa liberta, e "invisível", é seregada na estrutura de gueto.

Marcia Paraíso está no comando do longa Sobre sonhos e liberdade

Entrevista // Marcia Paraíso e Francisco Colombo

O que aprendeu, ao fazer o filme?


Marcia: O fio condutor e narrativo do filme era inicialmente dar visibilidade à luta e organização dos negros como protagonistas na abolição da escravatura, junto aos sonhos de liberdade - acesso à terra, aos direitos civis, a educação, ao trabalho. Essa pressão que vinha das cidades, dos quilombos, jamais foi estudada por nós nas escolas, aprendemos que a abolição foi frutode articulações de abolicionistas brancos, com a canetada de uma princesa. Em paralelo ao registro de historiadores e intelectuais que abordam o protagonismo negro na luta abolicionista, pretendíamos registrar a força do legado de raiz africana que se mantém vivo e pulsante no Recôncavo Baiano, pra nós uma das maiores riquezas culturais do Brasil - a cultura afro brasileira, junto com indígena. Afinal, quando pensamos na cultura brasileira, acho difícil pensarmos ou remetermos à culinária portuguesa ou europeia. Já o acarajé, as "comidas de santo", o açai ou o tacacá, são referências que singularizam nossa riqueza cultural. Durante o processo de filmagem, ao filmarmos com Mateus Aleluia, Nego Fugido e outros

mestres e mestras, seja do samba chula ou do toque do timbal, percebemos que existia ali, em cada qual, uma igualdade de vozes e, para tanto, que cada um deveria ter um momento de protagonismo dentro da narrativa.

O filme de vocês teria realização possível nos dias de hoje,

considerado o desamparo reservado ao audiovisual?

Marcia: O filme foi possível devido a dois movimentos: ganhamos um edital de coprodução entre Brasil Portugal, para realização de um curta-metragem. Não era nosso interesse fazer um curta, até porque sabíamos que o conteúdo não caberia no formato e, ao mesmo tempo, precisávamos captar mais recursos para sua viabilidade, pois precisávamos de tempo de pesquisa e um longo percurso de filmagem (foram dois anos de registros). A coprodução com o Canal Curta veio a consolidar viabilidade do projeto, através de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine, dinheiro esse que é do próprio setor do Audiovisual já que se origina da taxa do Condecine; logo, o setor se autoalimenta com a Contribuição para o Desenvolvimento da Industria Cinematográfica. Mas o FSA foi paralisado no governo Temer.


Consegue perceber alguma perspectiva para a produção de filmes nacionais?

Francisco: Não temos a menor perspectiva de retomarmos a

produção de conteúdo audiovisual brasileiro. Além da paralisação na Ancine ainda tivemos, no governo Bolsonaro, a volta da censura, com o bloqueio de editais que estavam em andamento, com perseguição a projetos que já estavam em fase de liberação de recursos, pois abordavam temáticas LGBT. Muitos países no mundo compreenderam a questão audiovisual como estratégica, tanto como geração de emprego (geramos 330 mil empregos e movimentamos R$ 25 bilhões, ao ano) como um registro de um tempo, de uma memória, de uma identidade. Demoramos muito para construir o setor, sermos autosustentáveis e formarmos profissionais e técnicos. Inacreditável sermos parados e silenciados em um momento de amplo crescimento.

Você aposta em que diálogo com o espectador de cinema?


Francisco: A realidade diante de todos nós requer uma postura de

luta. Ou de lutas. Cada um usando a arma disponível. Nós, do mundo do cinema, temos uma poderosa tribuna. Esse lugar é a nossa trincheira. Fazemos filmes porque amamos. Mas também porque precisamos fazer. A disputa será travada também na abordagem dos temas. Poesia, delicadeza, um pouco de bom humor, tudo isso pode potencializar a recepção às mensagens que muitos hoje consideram indigestas. Um dos desafios, refiro-me especificamente ao cinema, é o de naturalizar a discussão a respeito das múltiplas nuances dos direitos humanos.

Qual a mensagem que te marcou na realização do filme?

Francisco: Nasci e vivi quase a vida inteira no Maranhão. Digo isso não como estratégia para revelar algum sentimento nativista,

mas para dizer que convivo com a exuberância da cultura afro-brasileira. Estar na Bahia, principalmente na região do Recôncavo, para a realização de Sobre sonhos e liberdade, para além dos nossos propósitos estético-narrativos, foi também uma oportunidade de perceber mais profundamente tudo que nos liga, que nos une, que nos faz ser brasileiros. Porque a brasilidade é plural, é multicolorida. E é isso que nos faz especiais. Ao mesmo tempo, com o filme, pretendemos dar uma singela contribuição para que o racismo estrutural seja debatido, questionado, tirando da invisibilidade artistas populares, comunidades quilombolas ou intelectuais que, frequentemente, são desprezados não porque produzem conhecimentos irrelevantes, mas por causa da cor da pele.

No Nordeste, pesa o alijamento?


Francisco: No Maranhão, a meu ver um estado com forte "natureza escravocrata", foi e ainda é muito comum se ver famílias que trazem "meninas do interior" para serem "criadas" como "alguém da família". Estas jovens maltrapilhas podem vistas, por exemplo, em shopping centers, restaurantes, praças e parques, na função de babás, carregando filhos ou empurrando carrinhos, enquanto seus "senhores" podem desfrutar de lazer. Estas meninas, que às vezes não conseguem nem mesmo estudar sequer no período noturno, às vezes não recebem um centavo como remuneração. Recentemente vimos a revolta, nas classes dominantes, pela regulamentação do trabalho doméstico. Isso, pra mim, também é reflexo desse racismo que é praticado no Brasil.

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