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Crônica

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 31/01/2020 04:17
Recados na parede

Quem entra no boteco e acredita no quadrinho pendurado na parede onde está escrito que o freguês tem sempre razão não sabe nada. Essa história de lei do consumidor não pegou na maioria dos estabelecimentos congêneres do país; no boteco raiz a lei é marcial, não tem para mais ninguém além do proprietário, que muda os artigos e alíneas a seu bel-prazer.

a máxima do freguês é um clássico, mas varia de acordo com a simpatia do taberneiro que, como todo frequentador sabe, é quase nenhuma, se é que existe. Não sei bem porquê, mas faz parte da filosofia de todo bom boteco pé-sujo o maltrato ao cliente, especialmente ao mais frequente. E começa com a cara feia.

Pode ser um jeito que o camarada que fica atrás do balcão descobriu para combater o excesso de intimidade, que leva ao fiado e a outras coisas ainda mais desagradáveis para eles. Se funciona nos barcos do São Francisco ; especialmente depois que o escultor Bitinho, de Petrolina, criou a assustadora figura inspirada num filme de monstro japonês ; pode ser que espantem os pinguços de espírito ruim também no bar.

Parte do problema é que o boteco é o fundão da vida. Como na sala de aula, é ali que o pessoal da bagunça se confraterniza folgadamente, o que piora em tempos como este, quando até a cervejinha está sob suspensão. Aprendemos a desconfiar da pinga misturada com etanol, do uísque from Paraguai e até do brandy com gosto de gengibre, mas birra mortal é novidade.

O certo é que, de alguma forma, o bodegueiro prefere deixar o sujeito constrangido, quase se desculpando por estar ali consumindo, deixando seu suado dinheirinho, sustentando não apenas o negócio, mas ele próprio, o dono.

Até pouco tempo, os quadrinhos de boteco só traziam avisos mal-humorados, cheios de não: ;não jogue papel na privada;, ;não jogue bituca no chão; (este do tempo que podia fumar dentro do bar), ;ambiente familiar, não fale palavrão; (do tempo que palavrão era nome feio), ;não cante;, ;quem demora no bar é vagabundo;. E o pior de todos: ;Fechamos às 23 horas. Não insista;.

Mas de uns tempos para cá, com a chegada desses bares moderninhos, cheios de petiscos leves ; ;torresmo não tem, mas temos espeto de legumes; ; e cerveja artesanal, a coisa mudou. Os recadinhos são engraçadinhos, polidos e educados; alguns exploram trocadilho ; ;minha vida é um litro aberto; ;, outros são piadinhas ; ;depois que li que beber faz mal, parei de ler;, ;aqui bêbado não entra; só sai;. E há os infames: ;não quero ser chato, só quer cer... veja;.

Alguns até conservam o espírito original do bom boteco de se manter como um refúgio, como o que ensina o que dizer se a namorada ou ; pior ; esposa de algum conhecido ligar: ;Ele não está, nunca vi por aqui, ele não tem vindo mais;; ou a definitiva: ;a namorada não deixa mais que ele fique com os amigos;.

Dos antigos, o único quadrinho que ficou é o que diz: ;Fiado, só amanhã;.

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