Jornal Correio Braziliense

Economia

Ricos culpam emergentes por inflação

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Os bancos centrais dos EUA e da Europa aumentaram a pressão contra as autoridades monetárias de países emergentes para que tomem medidas para conter a escalada da inflação mundial. O assunto foi o mais debatido neste domingo (29/06) pelos cerca de cem presidentes de bancos centrais que participam da reunião anual do BIS (Banco de Compensações Financeiras), o BC dos BCs, na Basiléia, Suíça. Pelo tom dos debates, o tema motivou uma queda-de-braço entre países desenvolvidos e emergentes. Os países industrializados alegam que sua campanha para conter os preços está sendo dinamitada pelos emergentes, que vêm apresentando ritmo de crescimento de dois dígitos, algo que está jogando para cima o preço das commodities, como petróleo, alimentos e energia. "É preciso haver ações para conter a inflação, controlando a demanda agregada nesses países", disse Donald Kohn, vice-presidente do Fed [BC dos EUA]. "Isso contribuiria para a estabilização dos preços." Economistas do Morgan Stanley afirmam que pelo menos um quarto dos países apresenta crescimento econômico de dois dígitos e quase todos são nações em desenvolvimento. Os preços no Vietnã, por exemplo, subiram 26,8% em junho, o maior aumento desde 1992. Para conter o crescimento, a receita é elevar as taxas de juros. A medida já foi adotada por Brasil, Romênia, Rússia, Egito, México, Chile, Taiwan e Filipinas em junho. Com a alta dos juros, os financiamentos e o crédito em geral tendem a ficar mais caros e o consumo pode sofrer uma desaceleração. Os juros maiores secam os investimentos e fazem as pessoas pensarem duas vezes antes de ir às compras. A retração nos gastos ajuda os preços a recuarem. Questão social>/b> Do outro lado da discussão estão os países emergentes. Para eles, o controle da inflação deixou de ser apenas um problema resolvido pela política monetária, por meio de aumento de juros, e virou também uma questão social. Isso porque, nos países em desenvolvimento, a maior parte das pessoas gasta o salário com a própria subsistência, pagando por alimentos e energia. "Precisamos conciliar as políticas monetárias com as considerações sociais", diz Daouda Bangoura, diretor do Banco Central da Guiné. "Em muitos países vemos tensões." A alta dos alimentos vem provocando conflitos em países na África, na Ásia e na América Latina. Na Tailândia, maior exportador mundial de arroz, a venda do produto nos supermercados está sendo racionada. Nos últimos meses, protestos pelo difícil acesso aos alimentos foram registrados em El Salvador, Indonésia, Senegal e diversos outros países. Também os bancos centrais de países desenvolvidos planejam elevar os juros para tentar conter a pressão inflacionária. O Banco Central Europeu indicou uma alta de 4% para 4,25% dos juros na próxima reunião, marcada para quinta-feira. O Fed já pôs fim à série de sete cortes sucessivos nos juros e sinaliza uma nova alta com o banco central inglês.