Economia

Lula culpa questões de política interna dos EUA e da Índia por fracasso de Doha

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postado em 30/07/2008 16:46
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou o fracasso das negociações da Rodada Doha e atribuiu os resultados negativos às questões políticas internas da Índia e dos Estados Unidos. Lula disse que o governo brasileiro "fez o que pôde" em busca de acordos, mas que não houve contrapartida dos países ricos, como os europeus e norte-americanos. Porém, o presidente afirmou que ainda há esperança para um resultado positivo. No entanto, os esforços do governo serão nas negociações bilaterais. "Está claro que eles [os governos dos países ricos] não fizeram o que deveriam fazer porque se não nós teríamos feito acordo. Os EUA que hoje tem um subsídio de US$ 7 milhões querer diminuir para US$ 14 milhões, ou seja, a matemática é um pouco diferente do que pensam eles e do que pensamos nós. Eu pensei que iria reduzir para US$ 5 mi e US$ 6 mi, mas elevar para US$ 14 bi? Significa elevar e não diminuir", afirmou Lula após almoço no Itamaraty com o presidente de Costa Rica, Oscar Arias. Sem esconder a decepção com a falta de acordo, o presidente se disse "chateado" e "incomodado" com o fracasso das negociações em Genebra. "Eu estou incomodado e chateado. Mas ainda acho que poderemos fazer este acordo. A política evolui. Nós temos eleições em dois países importantes, depois das eleições nós sabemos o que pode acontecer. Nós achamos que ainda é possível continuar trabalhando este acordo", disse ele. Ao ser questionado sobre uma possível traição por parte do governo brasileiro durante as negociações, como foi divulgado hoje na imprensa argentina, o presidente reagiu. Segundo ele, é impossível falar de Estado para Estado em meio a especulações. "Você acha que eu posso falar de Estado para Estado porque alguém especulou alguma coisa? Cada Estado, seja a Costa Rica, o Brasil ou Argentina pode trabalhar o quanto for, mas nenhum abre mão de sua soberania nacional. Aí a Argentina tem interesse, os Estados Unidos têm interesse, o Brasil tem interesse e a Costa Rica tem interesse", afirmou Lula. Política Lula disse que as barreiras nas negociações em Doha foram mais políticas do que econômicas. O presidente ressaltou que na Índia e nos Estados Unidos serão realizadas eleições e que em decorrência disso os negociadores não poderiam assumir posições de divergências com alguns setores da economia interna de seus países. "Já faz um ano e meio que venho dizendo que menos do que econômico, nós tínhamos um problema político na OMC [Organização Mundial do Comércio]. Menos do que econômico, nós tínhamos um problema político. Você querer que um país do tamanho dos Estados Unidos, com eleição marcada para o final do ano, algum presidente se disponha divergências com produtores agrícolas é impensável. A China que tem 650 milhões de pequenos agricultores, era uma coisa realmente difícil", afirmou Lula. O presidente disse que os negociadores brasileiros se empenharam até o último momento, inclusive, aceitando a proposta européia. "Trabalhamos até o ultimo minuto concordamos até com a proposta da Europa de que era possível fazer o acordo, mas lamentavelmente no último segundo, possivelmente por problemas políticos, porque teremos eleições na Índia e nos Estados Unidos, houve um impasse entre as duas nações e, portanto, o acordo não saiu", disse ele. Lula disse que lamenta pela oportunidade perdida de se encontrar um consenso que poderia melhorar a qualidade de vida dos mais pobres. "O que eu acho é que os governantes perderam uma oportunidade extraordinária de apresentar ao mundo, sobretudo, a parte mais pobre do mundo. (Com o acordo) nós iríamos garantir que houvesse paz, democracia, que não houvesse tanta imigração, e garantindo que as pessoas tivessem oportunidade de trabalhar e ganhar um salário e de comer. Para isso os países ricos precisam flexibilizar para que os países pobres possam vender", disse ele. Exemplo O presidente afirmou ainda que concordava com o primeiro-ministro da Índia, Manmoham Sing, de que as negociações não fracassaram, apenas foram interrompidas para uma nova reflexão. "Eu prefiro acreditar no que diz o primeiro-ministro (Manmoham) Sing hoje de que ´não acabou a negociação, apenas é uma pausa para a reflexão´", disse ele. Segundo Lula, o bom senso deve predominar entre os presidentes e primeiros-ministros que comandam as negociações internacionais. O presidente disse que o governo brasileiro vai se empenhar nas negociações bilaterais em busca de acordos. "Cada país vai continuar fazendo o trabalho que vinha fazendo", disse ele.

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