Economia

Salário mínimo de R$ 465 injeta R$ 27 bi na economia

Renda gerada com reajuste vai fomentar negócios e aliviar a crise. O aumento de 12% não deve ser um fator a mais para demissões

postado em 31/01/2009 11:58
Um incremento de 12%, o maior dos últimos três anos, vai garantir um rendimento maior para mais de 40 milhões de pessoas que têm o vencimento atrelado ao salário mínimo. O valor pago a trabalhadores e aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vai passar de R$ 415 para R$ 465 a partir de amanhã. O acréscimo de R$ 50 não deve resultar em demissões, na opinião de especialistas, mesmo com o fantasma do desemprego rondando o país em função da turbulência internacional. Nos anos anteriores os reajustes não provocaram o fechamento de vagas. A expectativa é positiva. A estimativa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) é que R$ 27 bilhões sejam injetados na economia, ajudando a movimentar os negócios e aliviando os efeitos da crise econômica. Um dos motivos da correção acima da inflação é garantir renda ao trabalhador em tempos de desaceleração da economia. Por outro lado, o aumento, apesar de superar a inflação de 2008, de 5,9%, não consegue manter o poder de compra do trabalhador. Quando o valor passou para R$ 415, o salário mínimo valia US$ 247 e comprava exatamente duas cestas básicas, de acordo com os dados do Dieese. Neste ano, considerando o valor da cesta coletado pelo instituto em dezembro, o novo valor não cobre duas cestas. De acordo com a metodologia do Dieese, o mínimo deveria ser o suficiente para garantir a compra de 13 produtos considerados essenciais para abastecer uma família composta de dois adultos e duas crianças. A cesta básica ficou em R$ 236,15 no mês passado. Na moeda americana, o novo mínimo vai valer US$ 201, considerando a cotação do dólar de ontem ; R$ 2,31. Em todo o país, 17,4 milhões de trabalhadores e outros 17,8 milhões de beneficiários do INSS recebem até um salário mínimo. Quase 10 milhões de pessoas ganham mais, mas têm a renda balizada por esse importante preço da economia. O aumento, a ser recebido a partir de março, não deve ser usado como argumento para as demissões, afirma o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Cláudio Dedecca, especialista em mercado de trabalho. ;A experiência brasileira não prova que o aumento do mínimo comprometa o emprego. Ao contrário, a expectativa é de que tenha um papel importante para ativar a economia. O salário mínimo compromete mais as empresas com maior volume de mão-de-obra que, por outro lado, são as que mais devem ser beneficiadas pelo aumento do consumo, como os setores de alimentação e vestuário;, afirma. Domésticas No serviço doméstico, onde boa parte dos trabalhadores recebe salário mínimo, ou tem o rendimento atrelado a ele, a previsão também é positiva. ;Não acredito que vá ter demissões porque o aumento é irrisório. O que é R$ 50 para um patrão que, se mandar a empregada embora, terá que arcar com lavanderia ou comer em restaurantes, por exemplo?;, questiona o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do DF e das Cidades do Entorno, Antônio Ferreira Barros. Reajustes nos preços das passagens de ônibus podem ter impactos mais negativos para a classe do que o aumento salarial, de acordo com Barros (leia mais sobre os preços das passagens na página 25). As outras categorias profissionais devem se aproveitar do aumento de 12% para negociar reajustes parecidos em seus pisos salariais. ;Com a política de valorização do mínimo, muitas categorias colocaram os índices de reajuste como parâmetro para elevar o piso e os salários;, afirma o supervisor do Dieese no Distrito Federal, Clóvis Scherer. Assim como é difícil sobreviver com R$ 415, com R$ 465 também não será nada fácil, conta a funcionária de uma empresa de serviços gerais Maria de Fátima Santos, 34 anos, moradora do Novo Gama. Da renda mensal, R$ 150 vão para o pagamento da vizinha que se encarrega de cuidar de seus três filhos quando está no trabalho. Outros R$ 55 são consumidos com as contas de água e luz. Os gastos com alimentação giram em torno de R$ 150. Para fechar o orçamento, ela acaba se endividando. ;Todo mês acabo tendo que pedir dinheiro emprestado para fechar as contas. Não sei se vou conseguir não pegar mais. Acho que esses R$ 50 não vão dar para nada;, lamenta. No cardápio da família, a carne é um artigo raro. Aparece, no máximo, duas vezes por semana. Pelas contas do Dieese, R$ 50 dá para comprar 3,5 quilos de carne. Ou três quilos de arroz e três de feijão. O brasiliense pode, ainda, optar por adquirir seis quilos de pão e um quilo de manteiga com o dinheiro extra. Em função do valor baixo, mesmo desempregada e morando na casa da irmã, a doméstica Ilda Alves da Silva, de 49 anos, tem dispensado os empregos que surgiram. No seu último trabalho, ela ganhava R$ 700. Agora, recusa R$ 465. ;Esse mínimo não dá para nada. E os patrões só querem pagar isso. Mas não dá nem para sobreviver sozinha, imagina para quem tem filho em casa?;, reclama a morada de Ceilândia.

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