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Correio Braziliense

Emprego surpreende e sustenta consumo


postado em 06/09/2009 14:26

Quando a crise chegou ao Brasil com tudo, em setembro do ano passado, uma preocupação das mais prementes era se a “economia real”, mais precisamente o mercado de trabalho, seria atingida. O país vivia seu melhor momento em mais de 30 anos, com a demanda interna avançando 9,3%, um ritmo chinês, e o desemprego caminhando rapidamente para um patamar próximo de 6%. Mas o baque provocado pelas aventuras dos americanos no mercado imobiliário, com um endividamento monstruoso por meio dos então desconhecidos subprimes (créditos de péssima qualidade), fez com que, em apenas três meses — novembro e dezembro de 2008 e janeiro deste ano —, o Brasil perdesse mais de 800 mil empregos formais. Assustados, os economistas previram uma hecatombe: a taxa de desemprego superaria os 10% em questão de meses.

De início, tudo levava a crer que o caos estava instalado. Em março último, o índice de pessoas sem emprego bateu em 9% nas seis principais regiões metropolitanas do país — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre. Gigantes como a Vale e a Embraer anunciaram cortes expressivos no quadro de pessoal e reduziram a produção. Mas, para surpresa da maioria dos analistas, em vez de jogar contra, o mercado de trabalho se tornou a tábua de salvação da economia brasileira. “Se eu tiver que destacar um ponto que fez a diferença para que o Brasil saísse mais rápido da crise, não há dúvidas de que ele é o emprego. O país não só voltou a abrir vagas (foram mais de 400 mil neste ano) como a renda se acelerou”, afirma Jankiel Santos, economista-chefe do Banco BES Investimento.

Foi essa rápida virada do mercado de trabalho que deixou na advogada Ana Carolina Rocha Ramos, 32 anos, a percepção de que a crise ficou mais como uma ameaça do que um fato real. “O poder de compra da minha família continuou o mesmo. Houve todo aquele alarde, mas o impacto, pelo que observo, foi muito pequeno”, diz. Se houve alguma mudança com a crise, destaca, foi a decisão de cortar gastos desnecessários em casa e na empresa que administra, um instituto odontológico. “Com a economia que fizemos, conseguimos aumentar o quadro de funcionários da empresa. E o momento, agora, é de planejar e investir em projetos seguros que garantam um futuro tranquilo e estável para toda a família.”

Massa salarial

Jorge Abrahão, diretor de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), explica que a força demonstrada pelo emprego está associada, sobretudo, à resiliência do setor de serviços, o maior demandador de mão de obra, que praticamente não sentiu a crise. O grosso das demissões ocorreu na indústria, pressionada, principalmente, pela retração das exportações, já que o terremoto financeiro que varreu o mundo teve origem nas maiores economias do mundo, os grandes consumidores, Estados Unidos, Japão e Europa. Também o setor financeiro se ajustou e fechou postos, a despeito de, no Brasil, os bancos terem revelado uma solidez impressionante, graças à firme regulação imposta pelo Banco Central.

“Perderam-se, principalmente, empregos mais qualificados, de ponta, na indústria e no sistema financeiro. Mas a tendência é de essas vagas serem repostas ao longo do tempo, à medida que o crescimento econômico for se consolidando”, destaca o professor Estevão Garcia de Oliveira Alexandre, coordenador da Faculdade Veris IBTA. Não foi à toa, na visão de Carlos Alberto Ramos, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), que a massa salarial das pessoas ocupadas se manteve firme. Em junho deste ano, somou R$ 27,7 bilhões, superando em 3,31% o saldo computado no mesmo mês de 2008, quando a crise mundial ainda era uma miragem. A perspectiva é de que a taxa de desemprego feche este ano entre 7% e 8%, o que será uma vitória ante o quadro catastrofista pintado pelos especialistas.

O número
Diferencial
R$ 27,7 bilhões
Total dos rendimentos recebidos em junho pelos trabalhadores

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