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Correio Braziliense

Concurso para o Ministério da Justiça: 30 mil têm provas anuladas

Dia da seleção foi marcado por irregularidades. Funrio suspende testes. Novo exame será em 19 de setembro


postado em 07/09/2009 08:57 / atualizado em 07/09/2009 09:06

Candidatos às vagas para o Ministério da Justiça se revoltaram com tantos problemas nos locais de testes(foto: Carlos Silva/Esp.CB/D.A Press)
Candidatos às vagas para o Ministério da Justiça se revoltaram com tantos problemas nos locais de testes (foto: Carlos Silva/Esp.CB/D.A Press)
Foi um festival de irregularidades. O concurso do Ministério da Justiça para a seleção de 450 novos servidores, a cargo da Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Assistência (Funrio), virou um caso de polícia. O nome dos candidatos não estava na listagem da entidade, muito menos nas salas onde deveriam ser realizadas as provas. Exames que deveriam ter sido entregues aos candidatos lacrados estavam violados. Houve denúncia de entrega de prova, pela manhã, da avaliação que seria feita à tarde. Conclusão: nem precisou que os candidatos que ameaçaram recorrer à Justiça para suspender a seleção tomassem a iniciativa. A Funrio informou que cancelou os dois exames realizados pela manhã, em que participaram cerca de 30 mil pessoas. A fundação informou que o exame foi remarcado para 19 de setembro. Os testes da tarde foram validados, segundo a Funrio, apesar de todo o tumulto.

A confusão começou cedo na Unip e na UDF. O portão que deveria ter sido fechado às 8 horas permaneceu aberto por mais alguns minutos, o que acabou beneficiando candidatos que chegaram atrasados por causa da chuva. Não houve a distribuição de máscaras aos concurseiros por causa da gripe H1N1, mas os responsáveis pela realização do concurso garantiram que os artefatos estavam disponíveis caso alguém solicitasse. Os organizadores também garantiram que os candidatos com necessidades especiais, assim como as grávidas, tinham sido colocados em salas diferentes. No Uniceub, a situação foi de tranquilidade nas provas realizadas pela manhã.

Na Unip, um grupo de cerca de 100 candidatos se enfureceu e chamou a Polícia Federal e a Polícia Militar. Eles saíram sem fazer as provas, denunciando uma série de problemas. “Nossos nomes não estão em lugar algum. Nas salas, não existia listagem. Ficamos sendo encaminhados de um lugar para outro e para a coordenação, sem solução”, disse o candidato Cláudio Moreira dos Santos.

Ele denunciou que as provas foram entregues sem identificação e que muitas estavam violadas, com os pacotes abertos pelo chão. Também ocorreu de não ter lugar para os candidatos se sentarem para fazer as provas. Júlio César Carvalho da Rocha e Giovana Tenório reclamaram muito da falta de organização. Eles fizeram uma lista com os nomes dos candidatos que se sentiram prejudicados para recorrer à Justiça. “Estamos listando todas as irregularidades. Isso não vai ficar assim”, afirmou Giovana.

Ana Vívian de Andrade Santos fez a prova com seu bebê de colo. “Estou correndo o maior risco. Fiquei no meio de todo mundo, sem nenhuma proteção adicional”, reclamou.

Baderna
Diferentemente de todas essas denúncias, Marcelo Campos, que faria a prova no período da tarde no Colégio Objetivo da Asa Sul, acredita que os próprios concurseiros tem culpa na história. “À tarde, não tinha luz no prédio por causa da chuva e, em vez de as pessoas terem um pouco de paciência e educação, já começaram logo a fazer baderna”, contou. Ele reconheceu que a Funrio não tem estrutura para um concurso desse tamanho. “Eram poucos fiscais e eles ficaram intimidados pelas pessoas, que saíram das salas com as provas escondidas.

O concurso do Ministério da Justiça foi bastante concorrido. Cerca de 59 mil candidatos se inscreveram para o preenchimento das 450 vagas oferecidas para o nível médio e superior. Além de Brasília, as provas foram aplicadas em Salvador, Goiânia, Curitiba, Manaus, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Belém, São Paulo, Fortaleza, Recife e Porto Alegre.

A indignação dos candidatos inscritos no concurso para o Ministério da Justiça e que disseram ter sido lesados pela organização das provas resultou em um boletim de ocorrências conjunto que, até as 18h de ontem, contava com mais de 100 assinaturas. Esse é o número de pedidos protocolados apenas na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), que ainda não abriu investigação para apurar o caso.

Um agente de plantão na delegacia explicou que a tendência é de que o tumulto no concurso passe a ser acompanhado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que investiga ações coletivas. “As fraudes que eles (candidatos) disseram ter existido ainda não foram comprovadas, o que inviabiliza a apuração da Polícia Civil do DF”, contou o agente, que preferiu não informar o nome.

Ele explicou que a orientação passada pelo delegado de plantão era a de registrar todas as denúncias, independentemente de a delegacia dar sequência ou não às investigações. “Como o pessoal precisava de uma resposta de antemão, nós registramos. Mas foi só”, revelou o policial. Mais pessoas procuraram a Polícia Federal e o MPDFT ainda na tarde de ontem. E a tendência é de que outras façam ocorrências também hoje e na terça-feira, quando uma investigação deve ser aberta.

A advogada Vanda De Cistia, que organizou o protesto dos concurseiros, informou que o grupo estuda entrar com um mandato de segurança contra a Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Assistência (Funrio), responsável pelas provas. “Ainda não sabemos em qual esfera poderíamos fazer isso, se na Justiça Federal, se na Polícia Federal ou na local, se Ministério Público”, ressaltou.

Assim como ela, cerca de 50 pessoas procuraram a delegacia para oficializar queixa somente no fim da tarde do domingo. A maior parte delas trazia consigo anotações do número da cadeira, da sala e do bloco onde deveriam ter feito o exame. “Foi um absurdo, nem minha identificação tinha na prova que me entregaram. Estava tudo em branco”, reclamou Sirlan Rodrigues, grávida de seis meses, que, acompanhada do marido, Egberto Lima, usava máscara para se proteger da gripe suína. (DB)


Prédio fica sem luz
Não bastasse o festival de confusões que marcou as provas da manhã, até luz faltou no prédio da Unip, onde foram realizadas provas para o Ministério da Justiça. “Ninguém sabia bem o que estava acontecendo. Até os fiscais não souberam explicar o motivo da falta de luz. E a gente ficou mais perdido ainda”, contou a revisora Marluce Moreira Salgado, 46 anos.

O apagão que inviabilizou as provas na Unip teve início pouco antes das 15h, quando os candidatos já se preparavam para fazer as provas. A assessoria de imprensa do Ministério da Justiça informou que a luz foi restabelecida às 15h25, sem prejuízo para os candidatos. “Houve prejuízo sim”, rebateu a nutricionista Rayssa Oliveira, 28. “Ainda tinha muita gente do lado de fora da sala quando faltou a luz. Quem estava dentro não pôde fazer a prova. Um fiscal informou que o concurso ia ser cancelado, pediu que nós assinássemos a lista de presença e nos liberou para ir embora. Só depois fiquei sabendo que teve gente que fez a prova”, contou.

A estudante Patrícia Cavalcante, 25, também não pôde fazer o exame. “Só vi a prova quando saí da sala, na mão de um rapaz que estava em outro bloco”, afirmou. Segundo ela, nenhum candidato inscrito no bloco 4 da Unip fez a prova. “Na minha sala, na 473, teve gente que nem assinou a lista”, disse. “Não pude fazer a prova e nem assinar a lista. Agora, não sei se vou poder de novo, caso a prova seja anulada”, revoltou-se a assessora jurídica Martha Matos de Araújo, 33. O fisioterapeuta Fabrício Garcia, 30, frisou que, quando pediu para levar sua prova, lhe entregaram a de outra pessoa, que nem sabia quem era.

 

 

Problemas, segundo os concurseiros
Nomes de candidatos não constavam na listagem da Funrio, assim como nos locais de provas;

Fiscais teriam falado ao celular durante a realização dos exames;

Faltaram recipientes para guardar os pertences pessoais
dos candidatos, como telefone celular;

Muitas provas foram entregues violadas, sem lacre;

Provas com o nome de um candidato foram entregues a outro;

Candidatos foram deslocados para salas já cheias, sem
lugar para realizar os exames;

Provas sem qualquer identificação foram entregues a candidatos;

Faltou luz por 25 minutos, impedindo que candidatos fizessem as provas;

Nas salas em que não faltou luz, provas ocorriam normalmente, prejudicando candidatos que foram impossibilitados de realizar os testes no mesmo horário;

Fiscais avisaram que o concurso havia sido cancelado e liberaram a saída dos candidatos, mesmo que, em outras salas, as provas continuassem sendo realizadas

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