Publicidade

Correio Braziliense SISTEMA FINANCEIRO

Diretoria do BC prepara debandada

Mesquita, Vale e Torós podem deixar diretorias do Banco Central durante o período de substituição de Meirelles, presidente da instituição


postado em 29/09/2009 07:15 / atualizado em 29/09/2009 10:23

Mário Mesquita O diretor de Política Econômica do BC é apontado como linha dura. Defensor ferrenho do sistema de metas de inflação, tem encabeçado todos os movimentos de alta dos juros. Neste ano, porém, foi vencido duas vezes, ao defender cortes menores na taxa básica.
Mário Mesquita O diretor de Política Econômica do BC é apontado como linha dura. Defensor ferrenho do sistema de metas de inflação, tem encabeçado todos os movimentos de alta dos juros. Neste ano, porém, foi vencido duas vezes, ao defender cortes menores na taxa básica.
A saída de Henrique Meirelles da presidência do Banco Central para disputar as eleições em Goiás em 2010 abriu as portas para uma debandada no comando da instituição. Pelo menos três diretores já informaram que não devem virar este ano em seus cargos. O primeiro a deixar o BC tende a ser o diretor de Política Econômica, Mário Mesquita, maior defensor da política restritiva de juros para manter a inflação dentro das metas. Meirelles, inclusive, já teria sondado alguns nomes no mercado para a vaga. Estão na fila ainda o diretor de Política Monetária, Mário Torós, e o diretor de Liquidações, Gustavo Matos do Vale, esse, prestes a se aposentar.

A decisão de Mesquita de sair do BC causou frissom nos mercados. Há o temor de que o seu posto e o de Torós, vistos como os dois falcões da instituição, sejam ocupados por pessoas mais flexíveis no combate à inflação, o que seria conveniente para o governo, que teme um possível aumento dos juros em meio às eleições, um problema para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que disputará a sucessão do presidente Lula.

As substituições de Mesquita e Torós causam apreensão porque há uma aposta generalizada no mercado de alta dos juros em 2010 para que a inflação fique nas metas. Essa aposta, por sinal, consolidou-se na sexta-feira passada, quando o BC ampliou de 3,9% para 4,4% a estimativa de inflação para o próximo ano, devido ao forte aumento dos gastos públicos. Para 2011, o BC já vê inflação de 4,6%, acima do centro da meta definida pelo Conselho Monetário (CMN), de 4,5%.

Ruídos
As mudanças no BC entraram na ordem do dia dos analistas. Com Henrique Meirelles praticamente filiado ao PMDB para concorrer ao Senado ou ao governo de Goiás, especula-se quem será seu sucessor. “O ideal é que o governo não cause ruído ao optar por alguém sem o perfil para o cargo e sem conhecimento técnico de política monetária”, disse Zeina Latif, economista-chefe do Banco ING. “Tudo o que não precisamos é adicionar mais estresse ao mercado em um ano bastante complicado, de eleições, de incertezas quanto à recuperação da economia mundial”, acrescentou.

Dentro do governo, há quem defenda para a sucessão de Meirelles uma pessoa com perfil mais desenvolvimentista, como Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. O presidente do BC, que, mesmo filiado ao PMDB, permanecerá no posto até o início de abril de 2010, está negociando com Lula para que a sua substituição seja técnica, por alguém que já está no banco. Sua lista é encabeçada por Alexandre Tombini, diretor de Organização e Normas, nome que o mercado vê com tranquilidade.

No BC, oficialmente, ninguém fala sobre as trocas. Mas, nos bastidores, o processo é visto como natural. “O compromisso do BC com o controle da inflação está acima de uma ou outra pessoa. É um compromisso institucional”, afirmou Mário Mesquita, na última sexta-feira.
Luciano Coutinho O presidente do BNDES tem trânsito livre nos gabinetes do presidente Lula e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Há uma ala do governo que vê seu nome como ideal para ocupar a presidência do BC. Mas o mercado rechaça tal possibilidade.
Luciano Coutinho O presidente do BNDES tem trânsito livre nos gabinetes do presidente Lula e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Há uma ala do governo que vê seu nome como ideal para ocupar a presidência do BC. Mas o mercado rechaça tal possibilidade.


Já com um pé fora do BC, o diretor de Política Econômica, ao detalhar o relatório trimestral de inflação, afirmou que o maior culpado pelas novas previsões altistas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) são os gastos públicos, especialmente os de difícil reversão, como o aumento dos servidores. As declarações de Mesquita incomodaram o Ministério da Fazenda. Para desfazer o mal-estar, Meirelles mostrou a cara e disse ontem que, apesar da elevação dos gastos, a inflação de 2010 e de 2011 ficará dentro das metas.

Suspense na filiação
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, bem que tentou um espaço na agenda de ontem do presidente Lula, para lhe pedir a benção à sua candidatura ao Senado ou ao governo de Goiás em 2010, mas não teve sucesso. Com isso, só aumentaram o suspense no BC e a ansiedade do mercado em torno da filiação de Meirelles ao PMDB.

A expectativa é de que ele, que está em São Paulo, retorne ainda hoje a Brasília para falar com o chefe. “Sem essa conversa, não há a possibilidade de Meirelles anunciar a filiação. Se os dois se encontrarem apenas em Copenhague (Dinamarca), para onde embarcam na quarta-feira, só lá será revelada a decisão do presidente do BC”, disse um dos envolvidos nas negociações com o PMDB.

Independentemente da data do anúncio da filiação, o presidente licenciado do PMDB e presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, garantiu que o acordo com Meirelles está selado. E tudo foi costurado de forma a não melindrar o PMDB de Goiás. O prefeito de Goiânia, Íris Rezende, candidato ao governo do estado, avalizou o acordo. Mas, para ele, Meirelles disputará uma das vagas ao Senado.

Meirelles tem ainda convites do presidente do PTB, Roberto Jefferson, e do governador de Goiás, Alcides Rodrigues, do PP, para concorrer à Presidência da República pelos respectivos partidos. Mas, depois de avaliar com seus aliados, constatou que a melhor forma de voltar à política — ele renunciou ao mandato de deputado federal em 2002 para assumir o BC de Lula — é pelo PMDB, partido do qual deverá sair o candidato a vice-presidente na chapa da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. (VN e VC)


Alívio para pequenos
O Banco Central promoveu ontem a primeira mudança nas medidas baixadas em setembro do ano passado, auge da crise mundial. A instituição retirou dos bancos de médio porte, com patrimônio entre R$ 2,5 bilhões e R$ 7 bilhões, a autorização para abater as compras de carteiras de crédito dos depósitos compulsórios. Esse benefício, estendido do fim deste mês para 31 de março de 2010, ficou restrito aos bancos de pequeno porte, que ainda enfrentam problemas de liquidez, ou seja, têm dificuldades para fechar o caixa.

Mas, para não retirar dinheiro do mercado, que ainda não voltou por completo aos níveis pré-crise e precisa de alívio, o BC fez um rearranjo e reduziu as alíquotas dos depósitos a prazo (certificados de depósito bancário, CDBs, por exemplo) que o sistema financeiro tem que, obrigatoriamente, recolher a seus cofres. A alíquota caiu de 15% para 13,5%. Quer dizer: para cada R$ 100 aplicados em CDBs, R$ 13,5 terão de ir compulsoriamente para o caixa do BC em vez de R$ 15. Os bancos também poderão recolher uma parte maior desses recursos em títulos públicos (a parcela foi elevada de 40% para 45%), o que facilitará o financiamento da dívida pública.

O BC garantiu que os R$ 100 bilhões liberados dos compulsórios no ano passado, sendo pouco mais de R$ 40 bilhões para os bancos de médio e pequeno portes, continuarão no mercado, apesar da paulatina melhora da economia. A instituição ressaltou ainda que o estoque de carteiras de crédito compradas pelos bancos médios que ainda não venceram, cerca de R$ 7,5 bilhões, continuará sendo abatido dos compulsórios. Outra decisão do BC foi a ampliação do prazo mínimo, de seis para 12 meses, dos depósitos a prazo garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 20 milhões. (VN e VC)


O número
CDB
13,5%
Alíquota reduzida dos depósitos a prazo que os bancos têm que recolher a seus cofres. Antes, o percentual era 15%.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade