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Correio Braziliense

Sonhos dos consumidores vêm a prestação


postado em 01/01/2010 08:35 / atualizado em 01/01/2010 10:48

Dois anos separaram o servidor público Luís Fernando de Araújo Vieira do carro novo. Graças às economias que fez, à renda extra de fim de ano e ao plano especial oferecido pela concessionária, o utilitário top de linha vai direto para a garagem da família. "Preferia pagar à vista, sem os juros, mas como não dá, vamos fazer um esforço para quitar as prestações em 24 meses e não em 48", diz.

O servidor público Luis Fernando Vieira e a família decidiram financiar um utilitário em 48 meses:
O servidor público Luis Fernando Vieira e a família decidiram financiar um utilitário em 48 meses: "Preferia pagar à vista" (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press )
O sonho de ter um carrão dificilmente se realizaria não fosse o crédito. Assim como Vieira, milhões de brasileiros se renderam ao financiamento para comprar automóveis, apartamentos, renovar o guarda-roupas ou os eletrodomésticos da casa e até mesmo viajar. Mola propulsora do mercado interno, especialmente durante a crise econômica mundial, o dinheiro emprestado não mete mais medo como antigamente. "A gente só fez a dívida porque sabemos que conseguiremos pagar", garante a esposa, Simone Keller, enquanto apresenta à filha Danielle os detalhes de um modelo semelhante ao adquirido em exposição na loja. Manter o crédito em expansão, estimular o crescimento do país em 2010, reduzir os juros e evitar que tudo isso estimule a inflação parecem coisas incompatíveis. E, de fato, são. Para manter firmes alguns dos pilares que sustentam a política econômica, o governo terá de fazer escolhas."Se o PIB avançar 4,5% ou 5%, haverá inflação. O atual patamar de juros básicos (8,75% ao ano) terá de subir", prevê José Matias-Pereira, professor-pesquisador associado do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Brasília (UnB). No ranking global de juros reais, o Brasil é vice-líder. Com 4,2% de taxa, tem apenas a China à frente (5,8%). Outros emergentes estão logo atrás, o que nivela a competição entre esses países na busca pelo investimento estrangeiro. Especificamente em relação ao caso brasileiro, além de atrair recursos externos, garantir o crescimento sustentável sem sustos macroeconômicos ou rupturas na economia real significa reduzir o custo dos recursos captados por bancos e repassados por eles ao consumidor final. Para muitos especialistas, "civilizar" o spread bancário é o grande desafio de 2010 e dos anos a seguir. Resistência O Banco Central monitora de perto a diferença entre o que os bancos pagam pelo que captam no mercado e o que cobram das empresas e das pessoas ao emprestar. A taxa de momento beira os 40%. Na composição final do spread, as fatias mais generosas ficam com as próprias instituições financeiras na forma de lucro ou ajudam a cobrir buracos provocados pela inadimplência das pessoas físicas e jurídicas. Apesar de todos os esforços do governo em estimular a competição bancária, o setor resiste a dar o primeiro passo. O Congresso Nacional discute a aprovação do cadastro positivo - a lista limpa dos bons pagadores no Brasil. As estimativas mais conservadoras indicam que, se já estivesse valendo, a medida poderia fazer cair em até 30% os juros cobrados pelos bancos. A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) adverte que a ferramenta é utilizada em cerca de 20 países e que não há motivos para não vingar. Para a entidade, o mercado de crédito nacional só teria a ganhar e os bons consumidores deixariam de pagar pelos maus. "Com o cadastro, os bancos não vão ter como manter o status quo. Não terão condição moral ou técnica para manter as atuais taxas", completa Matias-Pereira. Pressão oficial A prioridade do governo é "normalizar" as taxas do spread bancário no Brasil. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, chegou a conversar com parlamentares da base aliada para tentar agilizar a aprovação do projeto do cadastro positivo em 2009. Por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Meirelles também abriu caminho para a adoção de medidas que estimulam a competição entre bancos públicos e privados. Sistema requer proteção urgente A confiança do consumidor está em alta, a inadimplência, em baixa e os setores que mais dependem do crédito no país, animados com a possibilidade de bater recordes de vendas. Crescer com inflação é a perspectiva mais realista do momento. O diagnóstico, embora preocupante, não é um mal em si mesmo. A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) projeta para os próximos cinco ou 10 anos financiamentos na casa dos 75% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional - hoje a relação é de 46%. Levando-se em conta que o crédito da pessoa física avança a dois dígitos desde 2003 - em 2010 a taxa deverá chegar a 21% -, proteger o sistema é quase uma urgência. Nas palavras de Adalberto Savioli, presidente da Acrefi, no entanto, não há o que temer. "Esse crescimento é saudável", resume. Ainda que os juros básicos (taxa Selic) suba em 2010 e isso respingue no sistema de crédito, bancos e financeiras estão confiantes. "Não existe mais o vilão da inflação. Acho que o ajuste, se ocorrer, será pontual e passageiro", completa Savioli. Nas previsões da Acrefi, as estrelas do ano-novo serão o crédito consignado, os financiamentos imobiliários e o cartão de crédito, justamente os motores dos últimos dois trimestres de 2009. Empurrão José Luís Oreiro, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), diz que os níveis de crédito devem se manter independentemente do ritmo da Selic. Esse salto dos financiamentos, para ele, tende a empurrar para baixo o spread bancário. O efeito em cadeia se encarregará do restante. %u201CA inflação vai ficar comportada. O que o governo precisa prestar atenção é no câmbio%u201D, afirma. Com as receitas abaladas pela perda de fôlego das vendas externas, o perfil de uma parte importante do empresariado acostumado a investir na produção mudou. %u201CPara sustentar o crescimento, o governo vai ter de tratar da questão cambial. A desaceleração das exportações afeta o investimento%u201D, diz Oreiro. (LP)

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