Economia

Planalto resiste, mas BC aponta para alta dos juros em 2010

postado em 05/02/2010 08:15

O mercado financeiro reforçou as apostas de alta na taxa básica de juros (Selic), mas ficou evidente a sua divisão quanto à data em que o arrocho monetário começará. Se analistas e operadores arrumaram argumentos de sobra na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta-feira, para justificar uma ação ;enérgica; por parte do BC para manter a inflação no centro da meta fixada pelo governo, de 4,5%, também reconheceram que a instituição, mesmo com o discurso mais duro, não se comprometeu com prazos. Até porque, a despeito de todos os alertas sobre os riscos que rondam o país, as expectativas estão sob controle.[SAIBAMAIS]

;Havia uma expectativa de que o BC divulgasse uma ata ;sangrenta;, indicando que a alta dos juros é iminente. Mas não foi o que aconteceu. Ainda que o Copom tenha usado palavras mais duras do que no documento referente à reunião de dezembro passado, não se viu um compromisso explícito sobre quando a Selic começará a subir;, disse o economista-chefe do Banco BES Investimento, Jankiel Santos. Para ele, mesmo tendo aumentado a chance de os juros subirem no encontro do Copom de 16 e 17 de março, o mais provável é que o BC espere um pouco mais para avaliar melhor o que está acontecendo com a inflação. ;Por isso, continuo acreditando em alta a partir de abril;, frisou.

A economista Luíza Rodrigues, do Banco Santander, está mais pessimista. ;Todos os sinais emitidos pela ata do Copom (referente à reunião da semana passada, quando a Selic foi mantida em 8,75% ao ano) são de que a elevação da Selic virá no próximo mês, porque as pressões inflacionárias são reais;, afirmou. ;O dólar está em alta, reflexo da maior aversão ao risco. O uso da capacidade instalada da indústria está quase no limite, reflexo da demanda forte. O crédito voltou tanto para as pessoas físicas quanto para as empresas. Há ainda os efeitos defasados das políticas fiscais e a ameaça de alta das commodities (mercadorias com cotação internacional;, emendou. ;Ou seja, são muitos os riscos e as incertezas. As pressões sobre a inflação estarão generalizadas.;

Diante desse quadro, a economista destacou que o Santander não só antecipou de abril para março a aposta de alta na Selic, como elevou a projeção para a taxa de 11,25% para 12% ao ano. Quer dizer: o arrocho monetário começará mais cedo e será mais forte do que o imaginado. Luíza acredita que, com a visível deterioração das expectativas inflacionárias dos agentes econômico, que levou o Copom a trocar a palavra ;cautela; para ;vigilante; ao se referir ao tema, os juros subirão independentemente de quem estiver no comando do BC ; o presidente da instituição, Henrique Meirelles, pode se candidatar a um cargo político ; e do desejo do presidente Lula de fazer da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a sua sucessora.

Contaminação

Para o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, realmente, os números atuais da inflação incomodam, por estarem nos maiores níveis desde o início de 2003, quando começou o governo Lula. Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve divulgar alta próxima de 0,70% em janeiro para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Anualizada, a taxa oficial de inflação apontará para quase 9%, número muito distante do teto da meta (6,5%). ;Os números do início de ano estão um pouco acima da sazonalidade do período. E o BC teme que eles contaminem as expectativas e elas saiam do controle;, explicou.

Apesar desse quadro, Thadeu crê que o Copom empurrará para abril ou junho o aumento dos juros. Ele lembrou que, na ata, o BC chamou a atenção para o fato de alguns países que se recuperaram mais rápido da crise mundial terem subido os juros para conter as pressões inflacionárias decorrentes do excesso de crescimento. ;A Austrália fez isso, mas já parou de aumentar as taxas, pois os riscos de uma nova crise nas economias desenvolvidas voltaram a assustar;, disse. ;O Copom elevou o tom, mas também dispersou as apostas dos que acreditavam em aumento da Selic já. Tanto que as taxas de juros no mercado futuro recuaram;, emendou.

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