A euforia durou pouco. Depois de se empanturrarem de esperança com o socorro de 750 bilhões de euros (R$ 1,7 trilhão) à Zona do Euro anunciado pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), os investidores tomaram ontem um porre de realidade. Conscientes de que, mesmo gigante, a ajuda não será suficiente para reverter o caos fiscal instalado na região e que, a qualquer momento, pode resultar em uma onda sem precedentes de calotes, voltaram a empurrar as principais bolsas de valores do planeta ladeira abaixo.
Começa a se espalhar a visão de que, liderados pela Grécia, que está em situação calamitosa, os países mais problemáticos da Zona do Euro, como Espanha e Portugal, não conseguirão cortar drasticamente seus gastos, conforme exigem o FMI e a União Europeia. Esse pensamento ganhou força devido à necessidade imediata do governo grego de se apoderar de 20 bilhões de euros da primeira parte do auxílio emergencial liberado após muitas divergências e má vontade entre as nações mais ricas que integram o bloco econômico.
Desde o início do dia de ontem, os negócios foram marcados pela indefinição e pela cautela, cenário que se tornou transparente depois do fechamento dos mercados da Ásia. A Bolsa de Tóquio, que havia iniciado a sessão em forte alta, cravou perdas de 1,14%. Em Cingapura, a baixa ficou em 1,08%. Na Indonésia, houve prejuízo de 1,32% e, na Índia, de 1,11%. Na China, a Bolsa de Xangai recuou 0,27%.
O movimento contaminou o mercado europeu, que registrou perdas durante todo o dia. A exceção foi Frankfurt, na Alemanha, com ligeira valorização de 0,33%. Paris tombou 0,73%. Em Londres, houve queda de 0,99% e, em Milão, de 0,46%. A Bolsa de Madri, que, na véspera, havia registrado a excepcional alta de 14,4%, despencou 3,32%. Em Atenas, o recuo foi de 2,44%. Nos Estados Unidos, não foi diferente. Em meio à desconfiança, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, baixou 0,34%. Na Nasdaq, houve estabilidade.
Brasil cai 1,57%
No Brasil, o mercado acionário não fugiu à regra e também viveu um dia de ressaca e de indecisão. Na Bolsa de Valores de São Paulo (BM), o Ibovespa, principal índice de lucratividade do pregão paulista, oscilou como uma gangorra, acumulando ganhos e perdas durante toda a sessão. Ao fim do dia, registrou queda de 1,57%. A baixa teria sido maior não fosse o bom desempenho das empresas de telecomunicações. As ações da TIM chegaram a subir 8,06%. Os papéis da Vivo também tiveram boa aceitação, e variaram 5,05%. A maior procura por esses ativos refletiu o otimismo com a oferta feita pela Telefónica, de 5,7 bilhões de euros, para a compra de metade da participação da Portugal Telecom na Vivo. A empresa é sócia na holding Brasicel, que tem o controle da maior operadora brasileira de telefonia celular.
Entre os analistas, o sentimento é de apreensão. E como ninguém acredita em solução tão cedo para a crise na Europa, a recomendação é de cautela. Na opinião dos especialistas, os investidores, especialmente os que não têm amplo conhecimento do mercado acionário, devem ficar longe do pregão da BM. Entrar na bolsa neste momento, só se for muito bem assessorado. Qualquer deslize pode custar caro. Essa dica ganha relevância diante do que disse o economista Robson Gonçalves, da Fundação Getulio Vargas: ;Aqui, muita gente aproveitou o momento de incerteza e especulou. Depois da absurda alta do dia anterior, abriram-se grandes possibilidades para quem queria ganhar dinheiro. Só isso. Não teve nada a ver com a Grécia ou a China;, destacou.
Seguro reforçado
No mercado de câmbio, o dia foi de leve recuperação para o dólar ante o real, com a ajuda do Banco Central, que voltou a intervir nos negócios comprando o excesso de divisas. O dólar fechou a terça-feira cotado a R$ 1,785 para venda, com alta de 0,68%. As compras realizadas pelo BC, que deixaram clara a sua disposição de evitar o derretimento da moeda americana, levaram as reservas internacionais do país a superar a marca histórica de US$ 250 bilhões. Esse número só será divulgado oficialmente no fim desta semana.
FMI alerta para dívida explosiva
Marcone Gonçalves
O pesadelo econômico não deve acabar tão cedo para os países da Zona do Euro ameaçados pela desconfiança generalizada do mercado quanto à capacidade para honrar suas dívidas. Ontem, foi a vez do Fundo Monetário Internacional emitir um documento no qual informa que a dívida pública alcançou o nível de alerta na maioria dos países europeus. As observações da instituição aparecem três dias depois da aprovação de um empréstimo de US$ 40 bilhões, parte dos US$ 140 bilhões do pacote de ajuda exclusiva à Grécia. E apenas um dia depois dos ministros da Fazenda da região criarem o megassocorro de US$ 1 trilhão voltado para evitar calotes dos países e proteger o euro de ataques especulativos.
O relatório sobre as perspectivas econômicas do continente constata uma recuperação ;moderada e desigual da atividade econômica em toda a Europa;. De acordo com o Fundo, o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de toda riqueza produzida em um ano , dependerá do elevação do comércio mundial e ;das medidas de estímulo tomadas pelos poderes públicos;. O documento prevê uma taxa de crescimento de 1% do PIB neste ano, e de 1,5% do PIB em 2011, graças ao desempenho da França (1,8%) e da Alemanha (1,7%).
Assim como fazia no passado recente com as economias dos países em desenvolvimento, o FMI ditou, no relatório, lições para os europeus superarem a crise e propôs ;esforços vigorosos; para alcançar um equilíbrio a médio prazo, apesar da moderada e desigual recuperação no continente. Além das recomendações do documento, o próprio diretor-gerente da instituição, Dominique Strauss-Kahn, comentou a situação econômica da região. Ele disse que a Grécia poderá sair da atual crise econômica se aderir aos planos estabelecidos pelo governo e cumprir o programa de austeridade determinado pela entidade.
;O governo grego deu passos muito grandes;, disse Strauss-Kahn em entrevista em Zurique, na Suíça. Ele afirmou que as ;medidas dolorosas; serão mais sentidas no começo, quando os salários e as pensões terão de ser reduzidos, mas destacou que a Grécia vai resolver suas dificuldades.
Até as famosas delegações do Fundo, que animavam os discursos nacionalistas de ;Fora FMI; no passado recente do Brasil, começaram a ganhar destaque na Europa. Uma comitiva da instituição desembarcou ontem mesmo na Espanha, país que também sofreu com especulações por causa do endividamento elevado. A delegação foi avaliar justamente a política de redução do deficit público espanhol.
Os especialistas do FMI se reunirão com os principais departamentos do Ministério da Economia, em momento delicado para o governo de José Luis Rodríguez Zapatero. Hoje, o primeiro-ministro espanhol deve explicar ao Parlamento o que pretende fazer para reduzir o rombo nas contas públicas, conforme havia prometido aos demais países da Zona do Euro.
O número
EUROPA Fundo prevê crescimento de
1%
do PIB neste ano, puxado pela França e pela Alemanha
SEC ainda busca culpados
O principal órgão regulador do mercado norte-americano, a Securities and Exchange Commission (SEC), informou que não foi descoberto um evento único que explique a misteriosa queda do mercado na última quinta-feira. Mas acrescentou que o ocorrido é inaceitável e medidas adicionais serão tomadas.
A presidente da SEC, Mary Schapiro, disse que levará tempo para detectar a causa e reiterou um acordo com as principais bolsas para fortalecer as regras de negociação. Para ela, a teoria mais provável é a de uma confluência de eventos, mas não há uma conclusão ainda.
Em depoimento preparado para uma audiência no Congresso ontem, Schapiro disse que funcionários da SEC estão nos principais mercados para monitorar as operações.
Schapiro afirmou que os reguladores ainda estão vasculhando mais de 17 milhões de operações com ações listadas durante a hora iniciada às 15h (horário de Brasília) de 6 de maio. Ela citou que o aumento das operações em múltiplos mercados ao longo dos últimos anos torna a investigação complexa.