Jornal Correio Braziliense

Economia

Mercado 'compra' Dilma

Ao defender o Banco Central, prometer a continuidade da política econômica e lutar pelo aumento do consumo interno, a pré-candidata petista à Presidência se torna a "queridinha" do sistema financeiro

A defesa que a pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, fez anteontem da autonomia do Banco Central (BC) contribuiu para torná-la a ;queridinha; do mercado financeiro. Relatórios de bancos começaram a circular tratando a pretendente ao Palácio do Planalto como a preferida dos investidores por encarnar a continuidade da política econômica e a garantia de aumento do consumo doméstico. Em contraposição, as declarações do ex-governador de São Paulo José Serra advogando a intervenção do governo nas decisões da autoridade monetária, que foram o estopim para o contra-ataque da petista, aumentaram ainda mais a desconfiança dos operadores contra ele.

Muitos analistas já ;compraram; a vitória de Dilma. O argumento que circula entre eles, reforçado por políticos e acadêmicos, é que a agenda da campanha será dominada por dois temas, especialmente para o contingente de 26,9 milhões de brasileiros que passaram a integrar a classe média: a continuidade do governo Lula e o mercado de consumo. Nesse cenário, somente uma crise econômica muito grave poderia ameaçar a vitória da candidata escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As críticas de José Serra ao BC foram recebidas como um discurso ;fortemente oposicionista;, que provocou barulho desnecessário num tema em que os principais pretendentes à Presidência têm posições convergentes: os fundamentos da política macroeconômica (veja quadro). ;O mercado comprou a vitória de Dilma Rousseff;, afirmou a economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif. Ela lamentou que a agenda política esteja se concentrando no aumento do consumo, tanto das famílias como do governo. ;Isso ocorre justamente no momento em que precisamos consumir menos e poupar mais, quando precisamos fazer a reforma da Previdência para investir mais.;

Para Zeina, neste momento, a bandeira da austeridade fiscal, com a qual Serra é mais identificado, pode pegar mal eleitoralmente ; Dilma é vista como defensora do aumento dos gastos públicos. O economista Kleber Hollinger, da XP Investimento, acredita que o oposicionista voltou a assustar com um discurso intervencionista e centralizador. ;Serra deu uma canelada. Está de volta com o jeito contestador;, disse.

O economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, não viu no discurso de Serra nada que sugira alteração na política econômica. ;Ele apenas deixou claro que vai fazer o que o atual presidente faz e o anterior fazia, que é opinar sobre os juros;, afirmou.

Semelhanças sem meras coincidências

Os três principais pretendentes à Presidência da República convergem nos conteúdos e divergem na forma quando se trata de temas econômicos

BANCO CENTRAL

Serra
;O Banco Central deve ter autonomia para o seu trabalho, dentro de certos parâmetros que são os interesses da estabilidade de preços e o desenvolvimento da economia nacional. Pode não ter ficado claro, mas é isso;

Dilma
;O Banco Central, como está conformado, fez um ótimo trabalho. Não vejo porque mudar isso;

Marina
;A experiência brasileira mostra que foi acertada a autonomia do Banco Central. É uma autonomia não institucionalizada. E a não institucionalização é boa para evitar o que ocorreu recentemente na Argentina;

POLÍTICA MACROECONÔMICA

Serra
;A questão do tripé econômico, câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e metas de inflação está aí e veio para ficar;

Dilma
;Vamos manter o equilíbrio fiscal, a política de inflação e de câmbio e seguiremos dando transparência ao gasto público;

Marina
;Foram exatamente esses instrumentos de política econômica(superavit primário, câmbio flutuante, metas de controle de inflação e autonomia do BC) que fizeram a gente sobreviver durante a crise. A inflação não é boa para ninguém, principalmente para os mais pobres;

SELIC

Serra
;O Brasil foi o último país do mundo a baixar, em um contexto que não tinha inflação, foi simplesmente um erro. Mesmo as pessoas que têm um conhecimento melhor, mesmo no mercado financeiro, sabem disso;

Dilma
;Achei prudente da parte do Banco Central fazer isso (elevar a taxa para 9,50%). Mais do que prudente. Demos outro sinal ao mercado. Mostramos para o mercado que a gente não faz manipulação da realidade para ganhar eleição;

Marina
;A elevação da taxa Selic é correta para fazer o esforço de controle da inflação. Agora, precisamos olhar atentamente para os juros, porque nós precisamos ter mais recursos para os investimentos no setor produtivo;

NOVO MINISTÉRIO

Serra
;O Ministério da Segurança é uma coisa indispensável no Brasil, o consumo de drogas e o tráfico de armas é alimentado no exterior. O governo federal tem que jogar, não pode se esquivar mais;

Dilma
;O Brasil vai ter uma oportunidade única no empreendedorismo, na quantidade de brasileiros e brasileiras que vão ter suas empresas pequenas e médias. Se tem um único ministério que eu acredito que é importante, era um ministério para os pequenos e médios empresários industriais e de serviços;

Marina
;Se a gente não pensar em reforma do sistema, criar mais ministérios é ir empilhando cada vez mais estruturas sem o cuidado em relação à visão e à gestão;