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Correio Braziliense

Fartura dos ricos continua

Os mais endinheirados se queixam da alta de preços, mas tiveram que mudar muito pouco seus costumes


postado em 24/06/2010 07:14

A população de alta renda passou praticamente incólume pelas crises que sacudiram os menos abastados. O bolso apenas balançou com a recessão global de 2008. Os mais ricos identificaram uma incômoda elevação das despesas, mas mudaram muito pouco seus hábitos. Apenas readequaram as formas de lazer e entretenimento, passando a receber mais os amigos na própria casa e evitando idas constantes a restaurantes caros. Para a maioria, o que mais pesou foi o custo da mão de obra. Os salários de babás, jardineiros, marceneiros e faxineiras dobraram em menos de um ano. Segundo os números da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), 2,9 milhões de famílias brasileiras estão no topo do consumo.

O engenheiro Vinicius Silvestre, dono da construtora Domínio Engenharia, ficou mais caseiro. Só faz viagens internacionais uma vez por ano. Ele percebeu uma alta de 20% no cardápio dos restaurantes. “Deixei de ir. Aqui somos quatro pessoas. Qualquer saída representa mais de R$ 400”, disse. Segundo ele, 80% do orçamento doméstico são gastos com supermercados, empregados, cursos de pós-graduação para os filhos, academias de ginástica, restaurantes e viagens.

Quando se mudou para Brasília, há mais de 30 anos, Silvestre não confiava nos índices divulgados pelos institutos de pesquisa. Resolveu fazer um cálculo particular da inflação pessoal. Selecionou 20 diferentes produtos e criou uma cesta básica com insumos do seu interesse como cimento, ferro, pão, arroz, ovo, automóvel, TV de 20 polegadas, entre outros. “Cheguei à conclusão que o IGP-DI da FGV era o que mais se aproximava da verdade. O Dieese mostrava uma inflação sempre acima e o IBGE, sempre abaixo”, atestou.

Vida social
A professora de História Danúzia Vilalva Mestrinho parou de trabalhar, mas se recusa a ser chamada de “do lar”. Diz que é “do dólar” ou “do lazer”. A renda que sustenta a casa é de seu marido, médico-militar, que gira em torno de R$ 22 mil. “Somos extremamente animados e temos vida social bem intensa. Não temos vocação para a poupança. Queremos viver”, orgulha-se, ao destacar que não fazem menos de três viagens internacionais por ano.

Para bancar esse luxo, Danúzia é econômica. “Sei o preço de absolutamente tudo no supermercado”, confirmou. Aos poucos, adquiriu hábitos mais acessíveis. Deixou de frequentar restaurantes caros e passou a comprar em lojas de departamento. Seus filhos já estão adultos, mas aprenderam desde cedo que não podem esbanjar. “Sou neurótica com o gasto indevido de água. Só molho as plantas duas vezes por semana, não admito televisão ligada fora de hora.”

A prioridade da empresária Helen Szervinsk, 35 anos, é a folha de pagamento de sua empresa. Como trabalha muito, depende de alguém para tomar conta do filho, um menino de 2 anos. “Aqui em Brasília, quase ninguém recebe salário mínimo. As babás cobram por região. Na Asa Sul, o preço depende se a patroa mora na parte de baixo ou na parte de cima. Um negócio de louco”, disse. A babá mais recente, cujo salário mensal era de R$ 700,00 pediu dispensa. Agora, Helen torce para conseguir outra a quem possa pagar pelo menos R$ 1.000,00.

Só com o filho, investe cerca de R$ 3 mil por mês, entre colégio, cursos de inglês e judô. Guarda um pouco para uma poupança em nome dele. Em apenas um ano, a mensalidade da escola do garoto subiu de R$ 750 para R$ 850. Apesar disso, ela não reduziu o padrão de vida e frequenta os mesmos lugares. Helen também dedica 10% dos ganhos para filantropia: duas entidades que cuidam de crianças necessitadas.

Dona de uma casa de festas de alto nível no Setor de Mansões do Lago Sul, Helen afirmou que a empolgação dos clientes teve apenas um pequeno revés no início do ano, quando estourou o escândalo da Caixa de Pandora. Mas logo se recuperou. Há dois anos, uma recepção (casamento, aniversário, batizado), custava em torno de R$ 4 mil. Hoje, não sai por menos de R$ 9 mil.


POBREZA DIMINUI NO MUNDO
Como no Brasil, a pobreza extrema também encolheu no mundo. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os progressos feitos para cumprir as Metas do Milênio, a proporção de pessoas nos países em desenvolvimento que sobrevivem com menos de US$ 1,25 por dia passou de 46% em 1990 para 27% em 2005. Os efeitos da melhora foram percebidos especialmente na China, no sul da Ásia e no leste da Ásia. De acordo com as projeções, o percentual deve cair para 15% em cinco anos. Na região da América Latina e Caribe, a cifra caiu de 11% em 1990 para até 8% em 2005. Para a ONU, a crise econômica que teve início em 2008 diminuiu o crescimento nas nações em desenvolvimento, mas não o suficiente para impedir a redução da pobreza. Apesar do avanço, metade da população desses países ainda não tem acesso a banheiros e latrinas.

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