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Correio Braziliense

Jovens levam pais para o SPC

Bancos oferecem contas com limite de cheque especial e cartão de crédito a universitários. Sem controle, eles abusam nos gastos e a fatura acaba com familiares


postado em 12/07/2010 07:44

Os jovens se tornaram o novo foco dos bancos no Brasil. Com a maior parte dos trabalhadores já bancarizada, as instituições viram nos adolescente e universitários um mercado rentável para fidelizar e ampliar a carteira de clientes. O problema é que a maioria dessas pessoas, mesmo sem renda, estão recebendo cartões de crédito e cheque especial com limites consideráveis. Como nunca aprenderam sobre fluxo de caixa, vêm transformando o crédito fácil em extensão da mesada dada pelos pais. Resultado: estão se enrolando com os juros cobradas nas linhas de financiamento mais caras do mercado. E, pior, a conta está caindo no colo de familiares. Atualmente, de todos os inadimplentes do país, quase 14% são de jovens entre 18 e 24 anos. Um número que só cresce.

As regras definidas pelos bancos são claras: quando o jovem não têm renda, os pais são os fiadores, passando, em última instância, a serem os responsáveis por todas as transações dos filhos. De início, a relação entre as instituições e novos clientes é excelente. Mas, à medida que o descontrole financeiro da rapaziada vai se evidenciando, a relação se inverte. Os bancos passam a jogar pesado e intimam os pais a arcarem com débitos pesadíssimos. Há casos em que, mesmo liquidando as dívidas, os responsáveis têm os nomes encaminhados para as listas de maus pagadores do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e da Serasa.

“Como os jovens não tem nenhum tipo de receita, os pais acabam entrando no próprio orçamento e tendo de arcar com despesas não previstas. A consequência disso é aumento da dificuldade das famílias”, explica o educador financeiro Reinaldo Domingos.

Medo
Com tantas letrinhas pequenas nos contratos das contas universitárias, e depois de ouvir diversas histórias de amigos que ficaram com o nome “sujo” por abusarem do limite do cheque especial e do cartão de crédito, a estudante Karoline Thaís da Silva, 19 anos, adotou uma estratégia diferente com o banco. Semelhante aos avós, que há meio século ainda guardavam dinheiro no colchão, sempre que sai o salário do estágio, ela retira quase todo o valor da conta-corrente. “Só deixo R$ 10 para o banco cobrar as taxas”, garante Karoline. “Guardo tudo em uma gaveta”, acrescenta.

A estudante diz que já viu amigos se enrolarem e os pais deles terem de pagar a conta. “Se eu tivesse problemas com o banco, meus pais me ajudariam. Mas não abuso. Como essa é a minha primeira conta, tenho medo de usar os créditos que não tenho como pagar. Enquanto puder, vou evitar”, afirma Karoline, que há dois meses é cliente do Banco do Brasil.

Para consultor Reinaldo Domingos, Karoline é um caso raro. “Estamos em uma situação que vem de gerações, de desconhecimento do mercado financeiro, agora agravada pela facilidade cada vez maior de crédito”, diz. Segundo ele, quando o jovem consegue o primeiro emprego, ganha um limite no cheque especial e acaba usando esse crédito como complemento da renda. “Facilidades como essas estão levando nossa juventude ao endividamento pleno”, alerta.

Imaturidade
Quase todo brasileiro maior de 18 anos tem uma conta-corrente ou poupança. Para os que ainda não são clientes de uma instituição financeira, a tentação é grande: existem hoje no Brasil 63,9 mil agências, postos de atendimento e correspondentes bancários. São cerca de 13 pontos de atendimento para cada um dos 5 mil municípios brasileiros. Diante de tanta oferta, há no Brasil mais cartão de débito do que brasileiros: são 240,9 milhões para 193 milhões de pessoas. Muitos desses cartões estão em poder de jovens que nunca tiveram nem mesmo um cofrinho de moedas. “Com toda essa bancarização, o sistema financeiro vem apostando naqueles que ainda não alcança: as classes emergentes e os jovens”, afirma Fernando Sasso, economista do SPC.

O especialista alerta que tanto os jovens quanto os trabalhadores das classes C, D e E ainda não são consumidores maduros o suficiente para usar o crédito de forma saudável. Situação que foi percebida pelo governo. Tanto que o Banco Central e o Ministério da Justiça decidiram reforçar a proteção aos consumidores, a começar pelos usuários de cartões de crédito, que cobram mais de 50 tarifas e juros de até 16% ao mês. Em um ponto já houve avanço, as tarifas serão reduzidas a no máximo 15. Mas muito mais está por vir. Com uma regulação mais forte, o governo quer evitar que os brasileiros fiquem altamente endividados e possam comprometer a saúde do sistema financeiro nacional.

O número
14%

Total de pessoas entre 18 e 24 anos incluídas na lista de maus pagadores


Educação financeira faz a diferença

Com o propósito de diminuir o endividamento dos jovens, a maioria dos bancos que oferecem contas para esse público está desenvolvendo programas de educação financeira. Por ser uma população adepta das novas tecnologias, as instituições os incentivam a gerenciar suas contas pela internet. Nos sites, é possível encontrar sistemas que administram o fluxo de caixa dos clientes e soluções para a poupança e outros investimentos. Tudo é claro, para não cativar a rapaziada.

O Banco Real, hoje controlado pelo Santander, foi o primeiro a criar a conta universitária no Brasil. Atualmente, tem parceria com 500 instituições de ensino superior no país e com mais de 800 no mundo. A receita foi seguida à risca pelos bancos públicos. O Banco do Brasil, por exemplo, tem a Conta Jovem, que deu lugar ao antigo BBTeen, na qual os clientes, de 12 a16 anos, têm atendimento diferenciado, com acesso a internet e jogos.

“Nesse caso, o cliente deve ser representado pelos pais. Esse produto não tem limite de cheque especial nem de cartão de crédito. Só cartão de débito”, explica o diretor de Varejo do BB, Jânio Macedo. Segundo ele, se bem utilizada pelos pais, essa conta ajuda na educação financeira das crianças. “Os pais depositam a mesada e podem dar as primeiras noções de fluxo de caixa e de controle do orçamento para os filhos. A conta auxilia para que, no futuro, os jovens saibam fazer uma melhor gestão do seu patrimônio”, justifica o executivo.

Outro produto oferecido pelo BB é a conta pré-universitária, para consumidores de 16 a 18 anos, pessoas que, normalmente, conseguiram o primeiro estágio ainda no ensino médio ou trabalham como aprendiz. O pai, neste caso, funciona como fiador. Se o filho não paga a conta, a família arca com a dívida. “Nesse segmento a inadimplência é nula, já que o cliente é assistido pelo pai”, assegura Macedo.

A despeito do bom negócio para o banco, os pais não acham a situação tão boa assim. As queixas são inúmeras aos órgãos de defesa do consumidor. Mas os Procons, na maioria dos casos, estão de mãos atadas, pois todo o crédito fácil, normalmente, é autorizado pelos responsáveis dos jovens. “Não se faz educação financeira sem mudar os hábitos. Nossas crianças e jovens têm de aprender a poupar, a estabelecer suas prioridades e saber quanto custa cada coisa e quanto vai essa coisa vai pesar no orçamento. Mas tudo com muito critério”, conclui o educador financeiro Reinaldo Domingos.

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