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Correio Braziliense

Fazenda é alvo de disputa

Presidentes do BC e do BNDES travam confronto público. Por trás, está o comando da economia em um eventual governo de Dilma Rousseff


postado em 04/08/2010 08:45

Uma briga antes velada e restrita aos bastidores do governo ganhou as ruas nos últimos dias. De um lado, está o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. De outro, o comandante do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. E, no centro da disputa, a vaga de ministro da Fazenda em um eventual governo da petista Dilma Rousseff, a partir de 2011. Nas últimas semanas, os dois decidiram deixar explícitas as diferenças, apesar das negativas, em uma clara tentativa de se gabaritarem para o cargo de substituto de Guido Mantega.

Luciano Coutinho é considerado pelo mercado como um economista desenvolvimentista, ...(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press )
Luciano Coutinho é considerado pelo mercado como um economista desenvolvimentista, ... (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press )
Meirelles vem atribuindo ao BNDES boa parte da culpa do aumento da taxa básica de juros (Selic) promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) desde abril. Alega que, por oferecer crédito subsidiado pelo Tesouro Nacional ao setor produtivo, o banco de desenvolvimento mina os efeitos do arrocho monetário, dificultando o controle da inflação. O presidente do BC vem difundindo ainda os riscos da supercapitalização do BNDES feita pelo governo, operação que resultou em aumento de quase R$ 200 bilhões da dívida bruta do país.

De início, Coutinho optou pelo silêncio público, apesar de, no interior do governo, criticar Meirelles. Nos últimos dias, porém, diante da intensificação dos ataques patrocinados por economistas ligados ao presidente do BC, o chefe do BNDES decidiu botar a cara para fora. E assegurou que, nas suas contas, “os repasses de títulos do Tesouro ao banco responderam apenas por um terço do crescimento da dívida pública bruta”. Os dois terços restantes, segundo ele, foram responsabilidade do BC, ao retirar de circulação os reais injetados na economia por meio da compra de dólares que estão engordando as reservas(1) internacionais. O enxugamento dos recursos é feito pela venda de títulos públicos no mercado, que totalizou, em junho, R$ 351 bilhões.

Briga antiga
As divergências entre Meirelles e o presidente do BNDES não vêm de hoje. Enquanto alimentou o desejo de ser vice na chapa presidencial liderada por Dilma, o presidente do BC estimulou, entre os agentes de mercado, o temor de um economista desenvolvimentista, como Coutinho, assumir o comando da política monetária. Por diversas vezes em que essa possibilidade foi ressaltada, as bolsas caíram e o dólar subiu. O “risco-Coutinho”, como se acostumou a falar nos corredores do BC, foi inflado, principalmente, às vésperas de Meirelles decidir se ficaria ou não no cargo.

... enquanto Henrique Meirelles, na condução da política monetária, mostrou ser conservador(foto: BRENDAN MCDERMID )
... enquanto Henrique Meirelles, na condução da política monetária, mostrou ser conservador (foto: BRENDAN MCDERMID )
Nos momentos em que o tiroteio foi mais intenso, Coutinho reclamou ao presidente Lula da “queimação”. E, aos mais próximos, assegurou que jamais pensou em trocar o BNDES pelo BC. Quanto à hipótese de liderar a Fazenda a partir do ano que vem, nunca desmentiu. Recentemente, inclusive, sentiu-se muito lisonjeado ao ser chamado de “ministro” em um evento no exterior. Procurados pelo Correio, nem Meirelles nem Coutinho se manifestaram até o fechamento desta edição.

Para economistas ouvidos pelo Correio, ambos possuem currículo para o cargo, uma vez que são extremamente capacitados. Fontes próximas à chapa de Dilma dizem que, nesse páreo, quem tem a vantagem é Coutinho, pois ele é bem mais próximo da ex-ministra do que Meirelles.

1 - Poupança em dólar
As reservas em moeda estrangeira do Banco Central, hoje em cerca de US$ 260 bilhões, são importantes para dar liquidez ao país em momentos de crise. Graças a elas, em 2008, o Brasil conseguiu sair rapidamente da crise do mercado imobiliário que afetou todo o mundo e desencadeou a desaceleração na economia global. Com isso, o Brasil deixou de ser devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para se tornar credor naquela época em que a crise estava mais acentuada e vários países europeus acabaram pedindo ajuda ao FMI.

Desconforto eleitoral

As disputas públicas entre o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, têm causado desconforto dentro do governo e do PT, pois tendem a alimentar a oposição. O argumento é que a campanha eleitoral mal começou. Portanto, não é hora de inflar desejos que ainda estão longe de serem realizados.

Entre os economistas, o discurso é que, ao trocarem acusações, Meirelles e Coutinho estão assumindo a culpa pelo aumento da dívida pública bruta. “Na discussão, os dois estão certos, pois as duas medidas (a capitalização do BNDES e a compra de dólares pelo BC) impactam diretamente o endividamento do governo”, afirmou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal. “O BC é muito mais claro sobre qual é o real custo de suas operações. No caso do

BNDES, não existe a mesma transparência”, acrescentou. Para ele, cada um cumpre o seu papel no equilíbrio da economia.

Na avaliação do diretor de crédito da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Fernando Blanco, os presidentes do BNDES e do BC não deveriam entrar em qualquer tipo de disputa, mas ela é inevitável, devido ao papel de cada instituição na economia. “Em um país sem tradição de financiamento de longo prazo, é importante ter um banco como o BNDES para estimular os investimentos necessários em infraestrutura, telecomunicações e energia”, disse.

Em concordância com Blanco, o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, destacou que nem todos os financiamentos dados pelo BNDES são subsidiados. Para ele, essa disputa entre Meirelles e Coutinho é totalmente fora de propósito. “Não consigo ver nenhum deles como ministro da Fazenda”, afirmou. (RH)


Produção industrial cai 2% no trimestre

A produção industrial brasileira recuou 1% em junho. Essa é a terceira vez consecutiva que o indicador medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra queda, acumulando uma perda de 2% no segundo trimestre do ano. O resultado ficou acima da previsão do mercado, que esperava uma variação nula ou queda de até 1,9%. Os setores de bens de consumo duráveis e de bens de capital foram os que tiveram as maiores retrações na comparação mês a mês: 3,2% e 2,1%, respectivamente.

No entanto, o economista André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE , analisa os dados com tranquilidade, ressaltando que o setor de bens de capital é um dos primeiros a sinalizar uma tendência de retração ou de aquecimento na economia. Segundo ele, essa queda de abril a junho, especialmente em bens de capital, ainda não pode ser considerada um prenúncio de uma desaceleração.

“A produção industrial vem crescendo em ritmo bastante forte nos últimos 14 meses. Acumula uma expansão de 11,1%, em comparação com junho de 2009, e alta de 16,2% no acumulado no ano”, explica Macedo. Dessa forma, analisa o economista, o crescimento ainda é muito forte e fatores pontuais acabaram contribuindo para essa leve queda, como a Copa do Mundo, quando três jogos da Seleção Brasileira ocorreram em junho durante a semana. Outro fator que impactou na produção também foi o fim do incentivo da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) em março para automóveis e linha branca.

Reação natural
Conforme dados da pesquisa, os bens de capital registraram uma alta de 26,8% no ano, bem acima da média industrial (11,1%), seguidos por bens intermediários (12,1%), item que também teve expansão na casa dos dois dígitos. As demais categorias de uso evoluíram abaixo do resultado global da indústria: bens de consumo duráveis (6,8%) e bens de consumo semi e não duráveis (6,2%).

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) considera essa retração na atividade industrial do segundo trimestre como uma acomodação da produção diante do forte crescimento do primeiro trimestre. Na opinião do diretor do departamento de economia da entidade patronal, Paulo Francini, o que ocorreu foi uma pequena ressaca na produção diante da perda de aproximadamente 1% em horas trabalhadas e das compras antecipadas em março, quando vigorava a redução do IPI.

“O segundo trimestre sofreu o efeito da antecipação das compras, portanto, não consideramos essa retração um retorno de uma desaceleração, tanto que esperamos uma retomada do crescimento no segundo semestre”, afirma. Em junho, o Indicador de Nível de Atividade (INA) medido pela Fiesp também recuou (-0,6%), informa Francini, mas a entidade mantém a previsão de crescimento de 11% no índice para 2010 diante da queda de 8,5% registrada em 2009.

Taxa de juros
O presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, engrossa o coro dos pacíficos e informa, por meio de um comunicado, que há sinais de acomodação na produção industrial brasileira. “Se esse quadro se confirmar, é um elemento importante para repensar o aperto na política monetária daqui por diante”, disse. Para ele, o comportamento recente da inflação já demonstra que as causas que resultaram numa alta de preços no início do ano já foram dissipadas.

O relatório dos economistas do Banco Bradesco liderados por Octavio de Barros informa que a queda na produção registrada em junho ficou próxima da estimativa do banco e ela foi marginal, não devendo se manter nos próximos meses. Já a previsão do Banco Itaú Unibanco era mais otimista — de queda de 0,5% na comparação mês a mês e de alta de 12% na anual. No entanto, o levantamento assinado pelo economista Antonio Bicalho espera volta do crescimento na produção a partir de agosto, fazendo com que o Produto Interno Bruto (PIB) volte a crescer em patamares pré-crise. (RH)

EMPRESAS ESTATAIS INVESTEM MAIS
» Os investimentos realizados pelas empresas estatais federais no primeiro semestre deste ano foram 27% superiores ao volume registrado em igual período do ano passado, alcançando R$ 37,9 bilhões. A informação é do Departamento de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Dest) do Ministério do Planejamento. Esse volume de recursos corresponde a 40% do orçamento de todo o ano, no valor de R$ 94,4 bilhões. A maior parte do dinheiro investido foi oriundo da Petrobras, que executou R$ 34,8 bilhões, dos quais R$ 16,8 bilhões foram destinados ao programa de ampliação da oferta de petróleo e gás natural e R$ 8,6 bilhões, aos investimentos na área de refino de petróleo.

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