Publicidade

Correio Braziliense

Consumo resiste a juros altos

Vendas do comércio batem recorde no primeiro semestre e dados de julho e agosto indicam que as famílias se sentem confortáveis para gastar


postado em 12/08/2010 07:10 / atualizado em 12/08/2010 08:15

Apesar do arrocho monetário promovido desde abril, o Banco Central ainda não conseguiu frear o consumo das famílias, que têm se consolidado como a principal alavanca da economia brasileira. As vendas do comércio continuam em expansão e registraram recorde histórico no primeiro semestre ao dar um salto de 11,5% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em junho, o varejo avançou 1% ante maio e 11,3% se comparado ao mesmo mês de 2009. O resultado confirma, segundo a instituição, que a queda pontual observada em abril foi superada e indicadores antecedentes do setor varejista apontam que os meses de julho e agosto seguiram a mesma trajetória.

Todo este vigor deve impulsionar o crescimento do país, segundo avaliação de Reinaldo Pereira, economista do IBGE. “Em abril, achávamos que a queda do comércio era um movimento pontual, o que veio a se confirmar agora. Se a expectativa é de que o país cresça no mínimo 6% neste ano, as vendas do varejo vão acompanhar esse movimento”, afirmou. Também os analistas de mercado, surpreendidos pelo avanço em junho, avaliam os dados atuais da economia como indícios de que o desempenho do setor deve se estender para o segundo semestre.

(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
Segundo o economista Alexandre Andrade, da Consultoria Tendências, os dados do IBGE mostram que a demanda doméstica deve voltar a exibir uma trajetória de crescimento consistente nos próximos meses. “Não há por que esperar arrefecimento desse consumo”, disse. Para ele, o incremento da renda e da massa salarial deverão sustentar o aquecimento da demanda.

Pelos cálculos do IBGE, o grupo hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo foi o principal responsável pelo crescimento do varejo, com avanço de 11,9% no semestre, sustentando metade da expansão do setor. “O resultado, acima da média, se justifica pelo aumento do poder de compra da população decorrente do crescimento da massa de rendimento real dos ocupados”, constatou Pereira. Com mais dinheiro no bolso, as classes de renda intermediária começam a comprar itens de maior valor agregado como iogurtes, produtos de beleza. De acordo com uma pesquisa do instituto Kantar World Panel, em 2002 as classes D e E tinham 21 categorias de produtos no carrinho do supermercado. Atualmente, são 37.

Crediário
A trajetória ascendente do comércio foi confirmada pelo indicador de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC-Brasil), também divulgado ontem pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). As consultas guardam relação próxima com o volume de vendas, uma vez que são feitas no momento da aprovação do crédito ao consumidor. Entre junho e julho, os acessos cresceram 4,26% e avançaram 9,05% quando comparados a julho de 2009. O resultado surpreendeu os varejistas, segundo o presidente da CNDL, Roque Pellizzaro Junior. Ele esperava que o consumo fosse afetado pelo aumento de juros. “O freio que o BC tem colocado na economia (por meio do aumento de juros) não está parando a demanda. Está, no máximo, desacelerando” comentou.

A despeito de não ter consolidado os dados de agosto, Pellizzaro acredita que as vendas devem continuar em alta, impulsionadas pelo Dia dos Pais. Em função da data, o comércio vendeu 11,73% mais do que em 2009. Para Alexandre Andrade, do IBGE, a força da renda é tanta que as compras não devem diminuir expressivamente nem mesmo quando o aperto monetário encarecer os financiamentos — efeito que deve ser observado nos próximos meses. “Tudo indica que, mesmo com o crédito se deteriorando um pouco, o consumo continuará forte em supermercados, por exemplo, em que os gastos são diretamente ligados ao maior poder de compra do trabalhador”, ponderou.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade