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Correio Braziliense

A Redenção do Nordeste

Região flerta com a exuberância de um crescimento vertiginoso após amargar a rabeira do PIB por décadas


postado em 15/08/2010 10:16

Alvo de investimentos bilionários, dona de alguns dos melhores índices macroeconômicos da atualidade e única região do país a manter o ritmo de crescimento no segundo trimestre do ano, o Nordeste vai deixando para trás os tempos de vacas magras. Com a instalação de empresas brasileiras e estrangeiras, além de pesados aportes públicos e privados em grandes obras, quase todos os estados se beneficiam da onda de desenvolvimento que, ao que tudo indica, chegou para ficar. O avanço acelerado e contínuo muda a fisionomia daquela parte do Brasil, ainda que as mazelas sociais sejam gigantescas.

Desde 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) nordestino avança a passos largos(1). A soma das riquezas de Bahia, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe é tão expressiva que em muitos períodos supera até mesmo o desempenho nacional. Parte desse boom tem como pilares a injeção de recursos oficiais, a ampliação dos programas federais de transferência de renda e outros incentivos, mas se deve também ao incremento da produção e do consumo locais, indicando que modelos primitivos de organização já não combinam tanto com a economia nordestina como antigamente.

A cana-de-acúcar, o gado e o extrativismo rudimentar perderam terreno para a indústria de microcomponentes, estaleiros, refinarias, portos, processadoras de alimentos e usinas de energia. “Quem quer ganhar dinheiro está vindo para o Nordeste. E eu não tenho notícias de arrependimento dos que aqui estão”, diz Ricardo Essinger, presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe). O estado, que é uma das locomotivas da região, diversificou como poucos sua matriz econômica, o que abriu espaço para as mais complexas atividades. “Há 20 anos, a indústria sucroalcooleira era predominante. Hoje, a importância dela diminuiu e o setor químico avançou bastante”, completa.

Dois dos mais robustos empreendimentos realizados no Nordeste estão sendo erguidos em solo pernambucano. A expansão do complexo portuário de Suape e a refinaria Abreu e Lima, ambos em Ipojuca, ostentam vigor nas estatísticas e nas promessas. Como ímãs, esses investimentos têm puxado outros. O mesmo acontece na Bahia, no Ceará e no Maranhão, onde há a formação ou o amadurecimento de polos que, no futuro próximo, terão papel fundamental no xadrez das economias dos estados.

Novos ABCs
O modelo que começa a ganhar força entre os nordestinos é semelhante ao verificado em São Paulo, quando cidades inteiras do ABC — Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema — foram catapultadas para o topo da pirâmide da renda e do desenvolvimento social a partir da chegada de indústrias de ponta. Ao contrário do que ocorreu no estado mais rico do país, no Nordeste não há uma concentração tão acentuada: além das regiões metropolitanas das capitais, o interior está sendo beneficiado. Esse fenômeno se reflete nas vendas do comércio varejista, nas exportações, no mercado de trabalho e na arrecadação de tributos.

Motor da economia brasileira, o crédito também desempenha papel fundamental nos sucessivos saltos que o PIB da Região Nordeste tem experimentado. Roberto Smith, presidente do Banco do Nordeste (BNB), explica que praticamente todos os segmentos já bateram à porta da instituição em busca de apoio. “As coisas mudaram muito. No passado, o pessoal dizia que estava difícil aplicar os recursos do banco. Hoje, tem fila para tomar empréstimo”, reforça. Smith avalia que é possível crescer a taxas ainda mais significativas nos próximos anos e que quem olha para o atual momento como uma “bolha” ou um “surto” erra feio. “Vamos crescer a um ritmo bem mais forte do que esse que observamos. Pode apostar”, prevê o presidente do BNB.

1 - Pé no acelerador
No início deste mês, o Banco Central divulgou o Boletim Regional mostrando o desempenho econômico de todas as regiões do país. O relatório aponta que o Nordeste registrou “expansão vigorosa” no trimestre encerrado em maio, enquanto o restante do país amargou desaceleração. O levantamento cruza dados de consumo e produção, relaciona índices atualizados de inflação e exportações, além de informações mais completas sobre mercado de trabalho.

 

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