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Correio Braziliense

Atividade não reage nos EUA

Pedidos de auxílio-desemprego atingem nível máximo em nove meses. País enfrenta risco de deflação, mas Fed tem meios para evitar o pior


postado em 20/08/2010 09:03

Washington — A economia dos Estados Unidos encontrou mais obstáculos para sua recuperação, com a quantia de pedidos de auxílio-desemprego subindo à máxima em nove meses na última semana e a atividade manufatureira na região do Meio-Atlântico do país encolhendo pela primeira vez em mais de um ano. Os dados anunciados ontem reforçam as previsões de que o crescimento do país diminuirá no terceiro trimestre.

“São notícias certamente desalentadoras sobre a economia”, disse David Resler, economista-chefe da Nomura Securities International em Nova York. “Não é uma evidência persuasiva de que nós caímos na recessão de novo, mas é certamente sugestivo de uma deterioração mais séria do que nós tínhamos considerado nas nossas previsões.”

O acréscimo na quantidade de pedidos de auxílio-desemprego foi de 12 mil, totalizando 500 mil com ajuste sazonal na semana terminada em 14 de agosto, informou o Departamento de Trabalho dos EUA. Foi o terceiro mês seguido de aumento, resultando no maior número de pedidos desde a metade de novembro. O mercado financeiro esperava uma queda para 476 mil.

O Federal Reserve de Filadélfia disse que o índice de atividade fabril na região central do país caiu para -7,7 em agosto, a menor leitura desde julho de 2009. As novas encomendas e embarques diminuíram, e a situação do mercado de trabalho piorou. Qualquer valor abaixo de zero indica contração no setor manufatureiro da região. A última vez em que índice ficou negativo foi em julho do ano passado, quando a atividade se recuperava da recessão de 2008 e 2009.

Alguns analistas também se preocupam que a desaceleração norte-americana, iniciada no segundo trimestre, leve a economia global a uma nova recessão. “Se a economia (dos EUA) piorar, não há formas de a Zona do Euro suportar a desaceleração”, disse Win Thin, estrategista de câmbio da Brown Brothers Harriman em Nova York. “É muito cedo para dizer que nós estamos fadados a um retorno à recessão, mas as coisas estão desacelerando.”

Risco novo
Mas, segundo a agência de risco Standard and Poor’s, os Estados Unidos podem evitar a deflação caso o Federal Reserve se mova rapidamente para aumentar a oferta de moeda. Em relatório sobre o risco de uma espiral deflacionária no país, a agência afirma que a probabilidade de um declínio prolongado nos preços ao consumidor é pequena, a menos que haja uma recaída na recessão.

“Quando a inflação no núcleo está abaixo de 1%, você não está a um longo caminho da deflação, e uma recaída na recessão poderia realmente nos colocar em deflação”, disse o economista-chefe da S&P, David Wyss. “Nossa expectativa é que os EUA vão rondar a deflação, mas que as baixas taxas de poupança no país, a população ainda crescente e uma rápida e decisiva ação do Federal Reserve para ampliar a oferta de dinheiro (1)podem evitar a armadilha”, disse o relatório. “Porém, há um risco de que o declínio nos preços dos imóveis, um fraco mercado de ações e a incapacidade de bancos de emprestar dinheiro ainda podem causar deflação.”

A S&P disse que a última leitura do índice de preços ao consumidor esboça um quadro de inflação muito baixa, mas não de uma verdadeira deflação, ainda. O indicador subiu apenas 0,1% em julho, excluindo alimentos e energia.


1 - Deficit fiscal mais baixo
O deficit orçamentário dos Estados Unidos atingirá US$ 1,342 trilhão neste ano, ou 9,1% do PIB, estimou a agência orçamentária do Congresso. A previsão é um pouco menor que o rombo nas contas públicas estimado em março, no valor de US$ 1,368 trilhão. A agência também prevê que as despesas superem as receitas em US$ 1,066 trilhão para o ano fiscal de 2011, que começa em 1º de outubro. No ano passado, o deficit orçamentário dos EUA foi de 9,9% do PIB.

Ajuda às pequenas

Washington —
O presidente norte-americano, Barack Obama, instou o Senado a aprovar um projeto de financiamento a pequenas empresas, que está paralisado na Casa. Obama afirmou que os fracos dados macroeconômicos das últimas semanas ressaltam ainda mais a necessidade da legislação. As pequenas empresas, que respondem por dois terços dos postos de trabalho nos EUA, têm sido duramente prejudicadas pela crise de crédito, dificultando que as companhias cresçam.

O presidente falou após novos relatórios mostrarem que os pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos inesperadamente subiram para a máxima em nove meses na semana passada, novo golpe na já frágil economia. “Esse é um projeto que faz sentido e normalmente esperaríamos que democratas e republicanos se unissem”, afirmou Obama. “Infelizmente, uma minoria partidária no Senado tem se recusado a permitir que o projeto de empregos seja votado.”

A proposta cria um fundo de US$ 30 bilhões para investimento em bancos comunitários a fim de impulsionar o empréstimo. A legislação também oferece créditos fiscais e uma isenção limitada em ganhos de capital.


Mergulho profundo

Londres —
Os sintomas da crise de dívida da Zona do Euro persistirão por pelo menos um ano, de acordo com uma pesquisa da Reuters com 60 economistas que veem dificuldades para os governos controlarem o enorme endividamento. Uma desaceleração dos Estados Unidos é a maior ameaça à recuperação sustentável da economia da região, mostrou a pesquisa. O aperto fiscal e a preocupação com a dívida também foram considerados riscos importantes ao crescimento.

A crise — definida na pesquisa como a situação em que os bônus de 10 anos de pelo menos dois países integrantes da Zona do Euro são negociados 100 pontos acima dos bônus alemães — deve durar pelo menos um ano mais, segundo 55 economistas que responderam à pergunta, dos quais 26 disseram acreditar em uma duração de pelo menos dois anos.

Na quarta-feira, os spreads dos bônus portugueses e irlandeses de 10 anos sobre os bônus equivalentes alemães se aproximaram da marca de 300 pontos-básicos, enquanto o spread grego era de cerca de 845 pontos-básicos.

Ainda que a área de 16 nações europeias tenha crescido 1% na comparação trimestral entre abril e junho, a atenção migrou da crise de dívida da Europa para o esfriamento da economia norte-americana. “Nos últimos 40 anos, uma recessão nos EUA sempre foi seguida de uma contração significativa na produção dos países desenvolvidos, e da Europa em particular”, disse Slavena Nazarova, do Crédit Agricole CIB.

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