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Correio Braziliense

Crise lá fora favorece comércio


postado em 29/08/2010 14:00 / atualizado em 30/08/2010 01:53

O aumento da renda, a melhor distribuição dela, o bom comportamento do emprego e a expansão do crédito criam as bases para que o Brasil sustente taxas robustas de crescimento nos próximos anos. E é a certeza em relação a esse movimento que tem atraído uma leva maior de investimentos para o setor produtivo. "O dinheiro vai para onde há crescimento econômico", diz o economista-chefe da Itaú Corretora, Guilherme da Nóbrega, em entrevista ao Correio. Para ele, nem mesmo o fato de o consumo interno estar pressionando as importações e aprofundando o rombo das contas externas — que triplicou este ano, atingindo US$ 28,2 bilhões — tira o sono dos dono do dinheiro.

A razão é simples. Com a crise concentrada nos países desenvolvidos, os investidores precisam diversificar os mercados em que atuam. "Se eles não têm como investir lá, investem aqui. O que vemos é o Brasil entrando firme na disputa global por recursos, e está competindo bem", afirma Nóbrega. Nas estimativas da corretora, o deficit nas transações correntes do país com o exterior crescerá nos próximos anos, chegando a US$ 95 bilhões em 2012 , o equivalente a 4% do Produto Interno Bruto (PIB), devido, principalmente, à demanda por importados.

Isso, no entanto, não é visto como um problema, porque, além do aumento das importações, haverá também elevação das exportações. "O país está virando uma economia cada vez mais integrada com o resto do mundo e a conta não é mais assim: só o dinheiro que vem. Agora, conseguimos mandar (dinheiro para fora) também. As restrições de financiamento (dos déficits) são lembranças de uma outra época", analisa o representante da Itaú. A seu ver, a redução da concentração de renda é um sinal muito positivo para os investidores. "Há 15 anos, as desigualdades estão diminuindo no Brasil, e caem por razões boas: a renda está melhorando, as pessoas estão com mais escolaridade, têm empregos melhores. Isso também ajuda, porque é um processo permanente de inclusão de gente no mercado de consumo."

Nóbrega afirma que essa é uma mudança que ocorre passo a passo. "O cara caminhava uma hora e meia todo o dia, de madrugada, para chegar ao trabalho. Depois, passou a pagar o ônibus. Foi o primeiro upgrade. O outro cara que comprava só leite passou a também a consumir iogurte", compara. Para o economista, a melhora da renda faz dos pobres, consumidores. Enquanto isso, o crédito aumenta o poder de compra dos mais ricos para produtos de maior valor unitário. "E no meio desse caminho tem o pessoal (uma nova classe média) que tá pegando um pouco da renda, um pouco do crédito", assinala. Não à toda, todos estão esperando o melhor Natal da história. Leia a seguir os principais trechos da entrevista com o economista-chefe da Itaú Corretora.


Que perspectivas o senhor vê para a economia brasileira nos próximos anos?
Tem uma história de investimento aí muito forte. Vejo três aspectos que são muito importantes. Um é meio óbvio, que é o juro em queda. Ele é hoje muito mais baixo do que era dez anos atrás. Passamos muito tempo com essa taxa real de 10%, 12% ao ano e hoje ele está na base de 5%, 6% ao ano. Pode até cair mais, pois ainda é muito superior ao de outros países que são comparados com o Brasil. Estamos nos afastando cada vez mais da época de máxima incerteza na macroeconomia, então o juro vai se acostumando a um patamar menor. O fenômeno viabiliza uma série de projetos de investimento. Se tem algo que o Brasil não fez nos últimos 25 anos foi resolver essas questões de longo prazo: infraestrutura, construção, casa própria, moradias. Todas as coisas que envolvem contratos mais longos eram difíceis de fazer. Então, o juro baixo tem esse primeiro impacto, ele é a expressão de um alongamento dos prazos. Você consegue organizar, pensar, fazer planos que demoram alguns anos para serem concretizados.

Daqui a alguns anos vai ficar mais fácil para o brasileiro ter a casa própria?
Já está ficando. Você tem um mercado que não existia, que surgiu, está no meio de uma euforia há uns 3 ou 4 anos. Mas tem muito chão pela frente ainda, tem muito potencial. Era muito limitado, até porque a capacidade de financiamento era bem menor.

Mas o custo da construção está subindo...
Sim, mas é porque estamos no meio de um crescimento forte. É natural, quando o patamar muda dessa forma, ter esse impacto mesmo. Como a gente desenvolveu pouco a construção no Brasil, temos uma forma de produção ainda muito pouco mecanizada, muito intensiva em mão de obra. Até o jeito de fazer casa vai mudar no Brasil. Eu converso com incorporadores e um deles me falou uma vez que, antigamente, num condomínio, cada um comprava o seu terreno e fazia a sua casa. Na verdade, o que faz mais sentido é pegar um terreno e construir 1.200 casas de uma vez. São 1.200 fundações, 1.200 encanamentos. O custo despenca. Além de mudar o custo, você tem que mudar o jeito que constrói também, a tecnologia de construção. Isso tudo demora a acontecer e, enquanto não acontece, tem uma pressão mesmo. A taxa de desemprego está baixa e está mais baixa ainda na construção.

O setor diz que falta mão de obra.
É, falta mão de obra.

Isso não será um problema no futuro?
Essa discussão tem duas dimensões. Uma é o quanto a gente está avançando agora, em relação ao nosso potencial de crescimento. Acho que estamos crescendo acima do que podemos. Por isso apostamos em inflação entre 5% e 6% para este ano e entre 5% e 7% para o ano que vem. Por isso, os juros andaram subindo e esperamos que vão subir mais no futuro. Está faltando mão de obra qualificada e não qualificada. A outra dimensão é a seguinte: estamos formando mão de obra em um ritmo adequado? Eu acho que sim, que estamos formando e aumentando a nossa capacidade de crescer. Antigamente, conseguíamos crescer 2,5%, 3% ao ano sem fazer inflação. Hoje, talvez a gente consiga crescer 5%. Só que a gente está crescendo ao ritmo de 7%. Então, estamos misturando os dois problemas. Podemos crescer mais rápido, mas não tão mais rápido. Então, essa pressão de custo tem um caráter um pouco transitório também. Vai faltar mão de obra? Vai, mas vamos continuar encontrando a mão de obra. Mostramos nos últimos 15 anos que temos capacidade de aumentar a escolaridade. É muito difícil que você encontre hoje no Brasil um emprego que exija menos do que 8 ou 10 anos de escolaridade. Além disso, o juro cria todo esse movimento no mercado de crédito. Porque quando ele cai, viabiliza que um tomador de crédito de mais baixo risco pegue dinheiro emprestado. Por quê? Porque se você tem um juro muito alto, muito alto mesmo, só quem vai tomar dinheiro emprestado é o cara que precisa muito dele. Então, quando o juro é muito alto, há uma tendência de prejudicar o bom tomador.

Os juros baixos melhoram o perfil do crédito?
Melhoram o perfil do crédito. Você começa a sair do cheque especial, que era uma modalidade muito mais presente na carteira dos bancos, passa para o consignado, que tem um risco mais baixo. De lá, vai para o crédito pessoal, aquisição de veículo. Isso já é um risco ainda menor, até chegar na casa própria. Nós estamos ainda caminhando na direção da melhoria do perfil da carteira de crédito dos bancos, com a queda do juro. Outro elemento importante para o Brasil, porque ocasiona um crescimento melhor, é a distribuição de renda. Há 15 anos, cai a concentração de renda no Brasil, por razões boas. Cai porque a renda está melhorando, as pessoas estão com mais escolaridade, porque têm empregos melhores. Isso também ajuda, porque você tem um processo permanente de inclusão de gente no mercado de consumo. No Brasil, tem gente que precisa ir a pé para o trabalho. O cara caminhava uma hora e meia todo o dia, de madrugada, para chegar ao trabalho. Agora consegue pagar o ônibus, é o primeiro upgrade. Um outro cidadão comprava só leite, agora compra leite e iogurte. Logo após a estabilização da economia, havia uns símbolos, como o frango. Agora há outros: no meio do caminho tem o plano de saúde, comprar uma moto, um carro, uma geladeira, um sofá, uma casa. A renda, que melhora mais para os mais pobres e os transforma em consumidores, e o crédito, que pega mais os mais ricos e os transforma em consumidores de produtos de maior valor unitário. No meio do caminho, tem o pessoal que está pegando um pouco da renda, um pouco do crédito. Há um terceiro elemento muito importante, que são as commodities, que sempre foram, só que há quem pense que o Brasil é só das commodities. Não é só delas, mas também é delas. Vai ser um grande produtor de petróleo, exportador de petróleo, é o maior exportador de diversas commodities, o mais diversificado do mundo, de agrícolas, metálicas. Então, se você pensar bem, essa história é muito legal. É uma história que está agarrada em muitas pontas. Diferentemente da história mexicana, por exemplo, que tem um único gancho, os Estados Unidos: os EUA crescem, o México cresce.

Se os Estados Unidos entram em crise, o México entra em crise.
Quando houve a crise, o México foi o país que mais sofreu. Agora está se recuperando, porque os Estados Unidos estão voltando também. Mas eles têm uma dependência muito grande dos EUA. Outros países dependem muito da exportação. O Brasil tem uma história muito diversificada. Por isso, acho que tem uma sustentação.


É possível prever quanto o Brasil vai receber em investimentos nos próximos anos?
O Brasil é um país que poupa pouco em relação à promessa que ele representa, cerca de 17% do PIB. É menos do que a gente investe. Estamos investindo hoje quase 20%. Se toda essa história for se concretizar, o investimento em relação ao PIB vai para 22%, 23%. Temos uma poupança de 17% e um investimento de 20%. Portanto, há um hiato a ser policiado. Este hiato é o nosso déficit em conta corrente. Vamos precisar de investimento externo. A pergunta é: esse investimento vai vir para o Brasil? Eu acho que vai. E vai vir no volume que for necessário. Esse dinheiro vem dos países desenvolvidos. Eles não têm como investir lá, investem aqui. O Brasil entra numa disputa global por recursos para investimentos. E o Brasil compete bem. O Brasil tem a parte de longo prazo, de consumo, de commodities e ainda por cima é uma democracia estabilizada. Não é pouco. Isso ajuda o Brasil a atrair investimento e a regra básica do investimento estrangeiro é que o dinheiro vai para onde está crescendo mais. Em 2012, teremos deficit de US$ 95 bilhões, equivalente a 4% do PIB. Mas nesse cálculo tem o volume que vai vir para o Brasil e o que vai sair do país, que está virando uma economia cada vez mais integrada com o resto do mundo. A conta não é mais composta só com o dinheiro que vem. Conseguimos mandar também. Essas restrições de financiamento são lembranças de outra época.

O senhor falou de juros em queda e da expansão dos financiamentos. O crédito do BNDES não pressiona a taxa de juros básica para cima?
Saímos de uma situação em que não havia financiamento de longo prazo. Você cria um sistema em que o investidor não quer poupar no longo prazo. Então, eu te dou um subsídio para você poupar: uma poupança que não paga juros. O banco não quer fazer empréstimo imobiliário: aí tem os compulsórios para empréstimo habitacional. Não existe financiamento de longo prazo, criamos o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), que vai gerar um funding para o banco estatal. O BNDES faz financiamento de longo prazo. Hoje a gente faz um pouco das duas coisas. O BNDES aumentou seu papel. Diz o governo que é temporário, mas tem a ver com a dificuldade de achar financiamentos de longo prazo. É a mistura de uma estratégia para reequilibrar o fato de ter havido uma interrupção nesses financiamentos em 2008 com a questão de o Brasil estar crescendo muito. O governo colocou mais pressão no BNDES para ele emprestar. Isso atrapalha o Banco Central? O que atrapalha o BC é o país crescer mais do que ele consegue.

Isso gera uma certa preocupação com a inflação?
Tudo o que é expansão de investimento, tudo o que é demanda causa inflação mesmo. Tem uma história antiga do Eugênio Gudin (Filho), grande economista que morreu em 1986 e escreveu durante 50 anos em jornal, que questionava: "Investimento causa inflação?” Causa, sim. Imagina uma vila rural em que no sábado as pessoas fazem a feira. Um comerciante chega com a cabra, outro chega com o queijo, outro com a goiabada, outro com o azeite. Cada um chega com algo para trocar. Todo mundo vai querer trocar pelo que não tem ou por comida, porque precisa comer. Um trouxe uma ponte quase pronta, pela metade, e disse ‘foi isso que eu fiz no último verão’. Mas ele precisa comer também. Enquanto o investimento não está pronto, é o esforço que foi colocado por alguém que precisa comer também. Então, vai ter pressão sobre a comida disponível enquanto não fica pronto. O investimento pressiona mesmo a inflação enquanto não amadurece. Depois, ele aumenta a capacidade de o país crescer.

Mas o papel do BC não fica prejudicado?
Faz parte do espírito do país querer melhorar, crescer. O que cabe ao Banco Central é ser o sujeito que ajuda a moderar, para o ritmo ser adequado. O Brasil era um país que crescia 3% ao ano e olhe lá. Agora melhorou? Melhorou. O simples fato de o crédito estar disponível, de as pessoas investirem em fundos aumenta a capacidade de o país crescer. Passou da possibilidade de crescer 3% para 5%. Só que, entre crescer 3% e 5%, tem hora que você dá uma arrancada um pouco mais forte, vai crescer 6%, e tem hora que o BC precisa subir os juros. O BC tem papel diferente. É o mais fundamental, porque tudo depende da estabilidade. Mas quem está fazendo o Brasil crescer ou não crescer somos nós, a sociedade.

Qual será a agenda econômica do próximo presidente da República?
A principal agenda nossa é a do investimento. Acho que isso está nos discursos dos candidatos. A gente já pensou mais em estabilização, inclusão social, e está pensando agora em investimento. O que é relevante é como vamos fazer reformas, como vamos nos preparar para crescer. Não é só os juros estarem baixos que vai nos fazer crescer para sempre. Uma hora vamos precisar pensar na questão fiscal, tributária, nos impostos, nas reformas específicas, reformas no mercado de trabalho, na Previdência. São os desafios de todo o mundo. Qual é o desafio do Chile hoje? Dos Estados Unidos? Da Europa? No fundo, estamos ficando um país cada vez mais normal, que precisa resolver os seus problemas para crescer melhor. E não é porque não resolve que explode, que dá tudo errado.

Para que áreas vamos atrair mais investimentos?
Vamos atrair investimentos para três conjuntos: infraestrutura, mercado de consumo e commodities. Estão misturados, mas são três histórias que vão andar. As áreas de infraestrutura e commodities são parecidas. A produção de grãos não tem como ficar mais barata. Tem como ficar mais rentável se as estradas e os portos melhorarem. Se você olha os dados de investimento estrangeiro no Brasil, encontra uma história muito variada. Nos anos 1990, dizíamos: "O Brasil cresceu porque investiu em telecomunicações". Hoje, o que chama a atenção é o fato de não ter nada que chame a atenção. É um investimento muito diversificado, o que é bom também, porque vamos parar de ficar vulneráveis. Acho que estabilidade é uma coisa muito legal.

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