Economia

Fracasso em exame do MPU mostra padrão rigoroso em itens discursivos

Mas correção não traz critério claro

postado em 24/10/2010 08:55
[SAIBAMAIS]Um dos concursos públicos mais esperados dos últimos anos figura também na lista dos mais questionados, tanto por candidatos como por especialistas. O problema começou no último dia 15, quando foram divulgadas as notas das provas para o Ministério Público da União (MPU). Rapidamente, o rebuliço formou-se em fóruns pela internet e nos cursinhos preparatórios, já que uma quantidade de pessoas muito acima do esperado foi desclassificada no exame discursivo - a redação. Considerando exclusivamente o resultado dos testes para analista, em alguns cargos, o índice de reprovados passa dos 70%. Inconformados, parte desse contingente acusa a banca de erro nas correções, mas há os que defendam que o processo seletivo foi simplesmente mais rigoroso. Marcus Vinicius, primeiro colocado para o cargo de analista administrativo, não passou na avaliação de texto: Eu me considero injustiçadoEntre os 30 primeiros colocados para o posto de analista administrativo, um dos cargos mais procurados, 20 pessoas foram reprovadas na redação. A estranheza é ainda maior ao observar as notas. Entre os detentores das melhores pontuações na prova objetiva, teoricamente os mais bem preparados, há notas de 0,33 e 0,77 em redações que valiam 10 pontos. O primeiro colocado para analista administrativo no Brasil, Marcus Vinicius Miranda Raimundo, com 131,6 pontos, curiosamente, foi reprovado, com mísero 1,1 ponto na redação. "Eu me considero injustiçado. Afinal, qual é o critério de correção?", questiona. Mistério A única coisa que se sabe sobre a correção é o que prevê o edital. O documento estabelece que a nota na prova discursiva será igual à nota de conteúdo menos duas vezes o resultado do total do número de erros cometidos, dividida ainda pelo total de linhas efetivamente escritas pelo candidato. Tais critérios, entretanto, são apontados como vagos e com margem para interpretações distintas na hora da contabilização dos erros. Outra questão que se coloca é a padronização das correções. Afinal, apesar de o conteúdo ser subjetivo, as redações precisam estar submetidas à mesma regra e às mesmas interpretações na hora da análise pelo organizador. Mas ninguém sabe como o Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe) fez isso. "São 54 temas diferentes para analistas, com conhecimentos específicos distintos. Não se sabe quantas pessoas trabalharam nisso nem se quem corrigiu era um professor de português, algum técnico com amplo conhecimento no conteúdo cobrado ou ambos. O fato é que robotizar algo dessa magnitude para 66 mil testes deve demandar uma logística fenomenal", comenta Antônio Geraldo, coordenador do IMP Cursos, instituição que contou cerca de 250 recursos conta o MPU. O organizador alega que informações sobre a composição da banca são sigilosas. "Buscamos sempre os melhores especialistas para elaborar e corrigir as provas, levando em consideração a competência, o nível acadêmico e o conhecimento do profissional na área", afirma o Cespe. Anulação O consultor e professor da Universidade de Navarra, Adriano Amaral, avalia que a maneira como o enunciado da redação foi elaborado pode ter dificultado inclusive o trabalho de correção. "Os temas sobre os quais se exige abordagem não são mutuamente excludentes, ou seja, não há uma definição clara de qual é a fronteira entre um e outro." Também há críticas em relação às provas para nível técnico. João Dino dos Santos, professor de redação do Instituto de Gestão Economia e Políticas Públicas (Igepp), defende a anulação dessas redações. "O edital prevê que o tema será, obrigatoriamente, sobre atualidades, mas foi cobrado conhecimento específico", argumenta.

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