Jornal Correio Braziliense

Economia

Índice de pobreza mundial dispara em nações ricas como os Estados Unidos

A gradual substituição de locomotivas do mundo ; dos países ricos para os emergentes ; desenha o seu retrato mais surpreendente nos índices nacionais de pobreza. A mobilidade social conquistada na década passada pela China e América Latina, levando milhões de pessoas à classe média, contrasta-se com filas de desempregados na Europa e acampamentos de sem-teto em várias partes dos Estados Unidos.

A maior economia do planeta vem ampliando a parcela mais pobre de sua população, atingindo cerca de 44 milhões de pessoas, um recorde em 16 anos. A concentração de renda também subiu, com um quarto da riqueza nas mãos de apenas 1% dos norte-americanos. Tais números já desafiam a rede pública de proteção social. O total de cidadãos com seguro-saúde caiu pela primeira vez em 2009, para 253,6 milhões. O contingente sem cobertura chegou a 50,7 milhões, incluindo 10% das crianças do país.

Com grave reflexo no setor habitacional, só em 2010, os bancos despejaram 2,87 milhões de famílias ; quase 30 vezes mais do que o verificado em 2005 ; em razão da crise hipotecária aberta dois anos antes. Foi a primeira vez que a tomada de moradias passou de 1 milhão em um ano. As execuções de contratos no ano passado correspondeu a 2,23% das residências dos EUA. Mas em estados como os de Nevada, onde 9% das famílias ficaram sem os seus imóveis; no Arizona, com a
retomada de 5,7% dos lares; e, na Flórida, com 5,5%, o impacto da crise foiainda mais brutal. No total, um décimo das famílias dos EUA já perderam as suas casas por incapacidade de honrar os financiamentos bancários.

Na avaliação dos especialistas, esse quadro dramático está diretamente ligado ao desempenho do mercado formal de trabalho. A estagnação econômica explica a alta na taxa de pobreza nos EUA de 13,2% para 14,3% nos últimos dois anos ; o pior nível desde 1994. Segundo o Escritório do Censo norte-americano, um em cada sete cidadãos está na miséria.

O Brasil, por sua vez, comemora a retirada de 28 milhões da linha da pobreza nos últimos oito anos. Outros 36 milhões engrossaram a classe média no período. Pelas contas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Argentina, Brasil, Bolívia e Venezuela foram os países da região que mais reduziram a pobreza nos últimos dez anos.

;Os números negativos dos EUA e positivos do Brasil estão intimamente associados ao desemprego;, atesta o economista Cláudio Considera, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e consultor do Instituto Millenium. Ele explica que uma eventual recuperação da economia norte-americana não mudará de imediato a tendência de avanço da pobreza.

Na Europa e nos EUA, o desemprego persiste elevado, na casa dos 10%, ante 6% do Brasil ou 8% da Argentina. O nível elevado de desocupação nos EUA só parou de crescer graças à desistência de desempregados em buscar trabalho, situação chamada pelos estatísticos de desalento, velho conhecido dos brasileiros em outros tempos. A taxa de desemprego média subiu de 5,8% em 2008 para 9,4% em 2010, o maior salto desde 1947.
Cláudio Considera afirma que a redução do desemprego do Brasil e a elevação da renda melhoraram os indicadores de pobreza. ;Nesse sentido, a recuperação do valor do salário mínimo teve impacto maior do que os programas de transferência de renda;, sublinha, lembrando que a pobreza chegou a avançar no país em 2003, ano em que houve recessão. O Ministério do Trabalho estima um resultado histórico na geração de empregos formais em 2010, acima de 2,55 milhões.

Dois pesos

Roberto Macedo, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, reconhece os movimentos invertidos no quadro social de Brasil e emergentes e de Estados Unidos e Europa, mas ressalva de que é preciso qualificar a pobreza. ;As condições dos pobres em cada país não são comparáveis, se considerar os parâmetros adotados nos respectivos institutos de pesquisa e a infraestrutura e os serviços públicos oferecidos;, sublinha.

Ele lembra, por exemplo, que o governo norte-americano classifica famílias por classe social não só pelo nível de renda, mas também pela posse de casa e automóvel. Além disso, a precariedade de habitações no Brasil afeta a qualidade de vida. Macedo avalia, contudo, que existe um certo ;peso sociológico da conversão do sonho norte-americano em pesadelo;, com a piora dos padrões gerais da sociedade dos EUA. ;A descida do céu para o inferno é mais dolorosa do que a subida;, ilustra.

Nos países desenvolvidos em geral, a nomeclatura de pobreza define mais a desigualdade do que as carências materiais. Fixada em 1963, a linha da pobreza nos EUA leva em conta, por exemplo, um indicador mínimo de consumo familiar, multiplicado por três. Além disso, cerca de metade dos chamados pobres norte-americanos reside em casas com três quartos em média, 1,5 banheiro e garagem para o carro. ;É mesmo difícil comparar as residências de pobres, inclusive da população negra dos EUA, com nossas favelas;, diz Macedo, que não deixa de se assustar com os aglomerados de barracas nas periferias de grandes cidades norte-americanas.

2,87 milhões
Total de famílias norte-americanas que perderam as casas em 2010 por falta de pagamento dos financiamentos bancários

28 milhões

Total de brasileiros que deixaram a linha da pobreza nos últimos oito anos

>> entrevista Gustavo Franco

Riscos para Brasil

; ROSANA HESSEL

Mesmo sendo um dos países emergentes mais atraentes aos olhos dos investidores estrangeiros, o Brasil ainda ostenta fragilidades na economia, sobretudo com a forte valorização do real. Quem põe o dedo na ferida é o economista Gustavo Franco, ex-presidente (1997-1999) do Banco Central. Ele defende reformas para assegurar maior competitividade ao país e ignoradas nos últimos governos. Também alerta que várias nações emergentes se adiantaram e já fazem o dever de casa para assegurar crescimento sustentável nos próximos anos.

;Temos que pensar no muito que há para progredir e parar com o autoelogio que só eleva a propensão a achar que está tudo resolvido;, afirma. Franco considera mais difícil hoje conter a alta da divisa nacional, uma vez que ;economia forte tem moeda igualmente forte;. Veja os principais trechos da entrevista ao Correio.

O Brasil é um dos emergentes que mais atrai investimento externo. O que é preciso fazer para não
perder competitividade?

O interesse estrangeiro em investir no Brasil tem fundamento, mas não significa que podemos nos descuidar das fragilidades da economia, que sabemos bem onde estão. As reformas ficaram estacionadas por muito tempo, enquanto nossos rivais na competição pelo capital externo estão cuidando das suas respectivas estratégias de crescimento. É bom lembrar que o avanço sustentado do país ainda não chega à metade do que se observa na China. É ótimo que tenhamos a demanda doméstica como fonte de dinamismo, e ela ainda poderá ajudar bastante. Mas o crescimento ao longo do tempo não depende só de consumo, mas também da produção e de investimentos, entendidos como crescimento da capacidade de produzir ; que é a nossa fraqueza.

O senhor avalia que o Brasil já pode ser considerado uma potência?

Não sei bem o que é uma potência, acho perda de tempo especular sobre isso. A economia é grande mas não é tão forte porque o investimento é pequeno. Temos que pensar no muito que há para progredir e parar com o autoelogio, que só eleva a propensão a achar que está tudo resolvido. O equilíbrio entre desejos que se expressam em gasto público e a preservação da estabilidade é muito delicado.

Como conseguir equilibrar as contas públicas caso o crescimento econômico desacelere nos próximos anos?

Vai ser difícil e vai requerer muita convicção. Será um teste para o governo, pois alguns de seus membros, a começar pela presidente Dilma, não mostraram antes muito apreço pelo equilíbrio fiscal. O endividamento caiu bastante nos últimos anos, embora a trajetória virtuosa tenha se interrompido recentemente. Não é a taxa de juros que estragará as contas públicas, é a fisiologia populista, que precisa ser reprimida com vigor. A tolerância para com mais tributos está cada vez menor, embora a cada ano os gastos e os impostos aumentem, deixando o Estado maior e mais caro. A sociedade começará a reclamar mais claramente disso nos próximos anos.