Jornal Correio Braziliense

Economia

Carteira de trabalho recheada de empregadores é sinal de infidelidade

Há pessoas que parecem ter data e hora marcadas para abandonar um emprego: algumas ficam seis meses; outras, um ano. E nem se trata de contratos temporários. São profissionais que não se adaptam à rotina das empresas e preferem procurar logo outro caminho. Muitos recebem propostas melhores ou simplesmente querem, com alguma frequência, variar as experiências profissionais. Independentemente do motivo, o comportamento fica estampado no currículo e na Carteira de Trabalho e, dependendo do empregador, pode significar duas coisas: ou o candidato tem bastante experiência ou não possui o perfil de quem veste a camisa da empresa.

Formado em 2005, o publicitário Vitor Sá, 27 anos, passou por seis agências na área. Trabalhou durante um tempo com direção de arte e, atualmente, dá aulas de fotografia. ;Acho que publicidade é um meio muito dinâmico. Era difícil ficar no mesmo lugar quando via que não terminaria o ano ganhando o que planejava. Eu costumava enviar o currículo para outros lugares, pulando de agência em agência em busca de oportunidades melhores;, relata o brasiliense. Vitor conta que tomou o cuidado de ser discreto nas redes sociais. Ele não adicionou patrões como contatos, podendo assim anunciar a procura de emprego para amigos e conhecidos no Twitter e no Facebook sem causar constrangimentos no ambiente de trabalho.

No caso da profissão de Vitor, geralmente a inconstância nas empresas não significa que o candidato seja um funcionário ruim, mas alguém que conta com uma experiência vasta no ramo. ;Currículo não faz tanta diferença na área publicitária, só serve para ver o nível de experiência. O que importa mesmo é o portfólio. Mudar de agência leva a clientes novos, e isso conta na diversidade dos trabalhos apresentados;, opina. Segundo ele, o importante para quem quer mudar de emprego é não ter medo de fazê-lo. ;Essa postura garante o profissional no mercado;, defende.

De acordo com Fernando Guedes, sócio-gerente regional da Asap, empresa de consultoria e seleção de funcionários, o histórico de Vitor é exceção à regra: ;Nesse caso, a variedade de projetos que ele desenvolve se torna mais relevante que as passagens por diversos empregos. Publicidade e tecnologia da informação são áreas que estabelecem vínculos diferentes com o empregador. Para esses profissionais, a dinâmica pode funcionar, mas eles não são a maioria no mercado;, pondera. Guedes diz ainda que as empresas costumam procurar trabalhadores para investir neles por pelo menos dois anos e depois receber um retorno do desenvolvimento. ;(A inconstância) não é razão para descartar uma entrevista de emprego, mas salta aos olhos como algo a ser investigado. Se a pessoa diz que em um ano se cansa da função, provavelmente não atenderá à necessidade da empresa;, explica o especialista.

Quem passou por dificuldades por causa do currículo recheado foi o administrador Renato Cavalcante, 26 anos. Ele esteve em nove empregos em oito anos, sendo que a maior permanência em um mesmo local de trabalho foi de um ano e três meses; e a menor, de 22 dias. Quando o rapaz via que não tinha muito espaço para crescer em determinada empresa, partia para outro lugar. Até que Renato chegou a um ponto em que os entrevistadores começaram a ficar desconfiados. ;É preciso colocar no currículo a data de entrada e de saída dos empregos. Caso contrário, as pessoas vão te perguntar. Aí, querem saber por que você saiu. Essa é uma pergunta reincidente quando olham meu histórico. Já me perguntaram se eu vestiria a camisa e continuaria na empresa se eu percebesse boas oportunidades ali, e a minha resposta é sempre sim;, afirma.

Descartados
Vitor e Renato têm no currículo, em média, uma empresa por ano. Para Fernando Mantovani, diretor de Operações da empresa de recrutamento Robert Half, o perfil dos dois não é bem-visto no momento da seleção para entrevistas. ;Quem muda de emprego sistematicamente de dois em dois anos tem uma imagem ruim. A maioria das empresas é restritiva com esse tipo de currículo, do chamado profissional pula-pula. Em casos extremos, quando a pessoa pega um trabalho por ano, nem avaliamos a possibilidade de entrevista;, explica.

Para as empresas, a desvantagem de perder um funcionário recém-contratado vai além do problema de ter que preencher a vaga com outra pessoa e treiná-la para o ofício, segundo Mantovani. Incomoda bastante o fato de que o investimento no profissional durante o treinamento poderá ser usado nas organizações concorrentes. ;Não vejo nada de positivo no profissional com currículo cheio. São várias experiências, mas isso serviu à empresa ou a ele? Vale a pena investir em alguém para que essa pessoa use o conhecimento adquirido em outro lugar?;, questiona o especialista.

Foi o que aconteceu em duas ocasiões com Cristina Calegaro, proprietária de uma academia de ginástica. Ela contratou funcionários, ensinou o método diferenciado de trabalho do estabelecimento e, depois de no máximo um ano, eles se demitiram e montaram empreendimentos semelhantes. ;Agora, tenho mais experiência. Pelo currículo, vejo que a pessoa está procurando uma área parecida com a que trabalhamos aqui, e eu mesma faço as entrevistas;, afirma. Ela também tem o cuidado de manter os funcionários estimulados a continuarem na empresa, com políticas de bonificação por tempo de serviço e rendimento anual.

Alternativa
Ao perceber os problemas que tem com rotina, o administrador Renato Cavalcante encontrou no próprio ritmo uma forma de evitar a mudança frequente de emprego. Para continuar atuando na área de que gosta e transformar as constantes alterações de clientes em algo bom, ele resolveu trabalhar com consultoria em administração. ;Para mim, foi a solução. Não tinha paciência de ficar nos empregos com horário e salário fixos. Consultor não tem rotina, o ganho depende da dedicação. Cada empresa que eu passo me dá uma experiência nova, e mais gente pode me indicar para novos trabalhos;, anima-se.

De acordo com o consultor Fernando Guedes, a ideia de Renato é interessante para quem tem o perfil como o dele. ;O profissional com dificuldades para se adaptar a certas empresas pode ser alguém desalinhado com o mundo corporativo. Então, ele tem a opção de aplicar o que sabe de forma autônoma como consultor, ou fazer um negócio próprio onde vai implementar valores e práticas de acordo com o que acredita;, opina.

Jovens e inquietos

; Entre os profissionais com dificuldades em se manter no emprego por mais de um ano, destaca-se a geração Y: nascidos nas décadas de 1980 e 1990, os jovens que têm entre 20 e 30 anos de idade veem o trabalho como forma de alcançar a qualidade de vida rapidamente. Essa é a opinião da coach Ana Luísa Pliopas. Ela recebe diversas reclamações de patrões de gerações anteriores de que os jovens pediam demissão porque achavam que o emprego não os desafiava o suficiente.
;É claro que a empresa e os gestores têm o papel de saber a que seus funcionários aspiram, mas acredito que a geração Y também pode se beneficiar ao expressar o que deseja, sempre de maneira construtiva;, pondera.

Palavra de especialista
Plano de carreira


Mudança de emprego por oferta melhor é um perfil comum entre os pula-pula. É importante dizer que esse comportamento é mais evidente quando o mercado está aquecido. Se temos no Brasil uma situação de escassez de profissionais bem qualificados e existe uma busca intensa, a pessoa acaba sendo muito assediada, recebe várias propostas. As empresas procuram características como engajamento e resiliência para levar alguém a postos mais altos. Então, pensando em longo prazo, não é interessante trocar de trabalho, embora as propostas sejam tentadoras. É melhor dar grandes saltos no mesmo ambiente a cada quatro ou cinco anos do que dar pequenos saltos a cada um ou dois anos. Essas mudanças maiores são preferíveis, porque são sempre mais consistentes e requerem mais tempo na empresa. O desenvolvimento é um pouco mais lento, mas o salto é maior. São os profissionais mais bem-vistos.

Bernardo Entschev,
presidente da De Bernt Human Capital, empresa de consultoria em recursos humanos