
O fundo do poço da pior crise econômica do Brasil ficou mais distante. Previsões de especialistas já dão conta de que a recessão vai contaminar 2017 e a inflação só alcançará o centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,5%, em 2019. De nada adiantou a autoridade monetária sinalizar que a taxa Selic deve subir na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana. Sozinha, a política monetária, com elevação de juros para conter a carestia, não tem conseguido ancorar as expectativas, que continuam em deterioração.
No primeiro Boletim Focus do ano, divulgado ontem, com as projeções das 100 maiores instituições financeiras do país, a estimativa para a inflação em 2016 subiu de 6,87% para 6,93%. A velocidade da alta de preços em 2015, a inércia inflacionária e a previsão de novos reajustes de preços administrados, como transportes e energia, já fizeram o BC rever a estratégia e empurrar para 2017 o objetivo de trazer o custo devida para a meta. Os especialistas, no entanto, não acreditam que isso vá ocorrer no ano que vem se o Ministério da Fazenda não fizer um ajuste fiscal consistente, deixando o BC como único responsável pela tarefa de segurar o custo de vida.
Juros mais altos têm efeito recessivo, pois encarecem o crédito e inibem os investimentos. Por isso, o mercado, acredita também, que o recuo do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano será maior que o esperado, atingindo 2,99%, ante uma previsão de 2,67% há um mês. Para 2017, a projeção de expansão da economia se mantém, mas caiu de 1% para 0,86%, reforçando a expectativa de que, a continuar nesse ritmo, a recessão pode avançar também pelo ano que vem.
No entender de Adriano Gomes, sócio-diretor da Méthode Consultoria, o único instrumento que sobrou para controlar a inflação foi a taxa de juros. ;Não existe mais o tripé de políticas fiscal, monetária e cambial. A fiscal já está desacreditada. A cambial se esgotou. Sobrou a taxa de juros. Mas, com o BC trabalhando sozinho, é difícil acreditar em melhora;, explicou.
Tanto é assim que nem mesmo a sinalização de que o Comitê de Política Monetária (Copom) está disposto a elevar a Selic em 0,50 ponto percentual, dos atuais 14,25% para 14,75% ao ano, na próxima semana, melhorou as expectativas. Para Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a inflação só vai convergir para o centro da meta em 2019. ;Este ano está perdido, vai fechar acima do teto;, previu.
As previsões do mercado vão de mal a pior porque o governo está perdido. Apesar de afirmar que prioriza o ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa prepara um pacote de expansão do crédito para estimular a economia. ;É um contrassenso. De um lado, o BC tenta tirar moeda do mercado. De outro, a Fazenda sinaliza com aumento do crédito. Como estratégia, é muito ruim. É um sinal de desorientação;, avaliou José Kobori, professor de Finanças do Ibmec/DF. ;Para complicar, enquanto permanecer a indefinição política, a economia vai continua em deterioração. Se a paralisia na agenda perdurar, teremos PIB negativo também em 2017.;
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