Economia

Governo, poupadores e bancos costuram acordo para repor perdas da poupança

Ressarcimento deve ter desconto de até 65%, mas permitirá injeção de R$ 12 bilhões na economia

Rodolfo Costa
postado em 25/08/2017 06:00

Infográfico sobre acordo para reaver perdas da poupançaO governo continua empenhado em injetar dinheiro na economia. Após a divulgação dos saques das contas inativas do PIS/Pasep, que prevê a liberação de R$ 15,9 bilhões para idosos, e do lançamento do programa BNDES Giro, que promete colocar R$ 20 bilhões à disposição de micro, pequenas e médias empresas, a União está intermediando um acordo entre poupadores e bancos que pode irrigar o mercado com uma quantia entre R$ 11 e R$ 12 bilhões.


Essa é a estimativa da indenização a ser paga a depositantes de cadernetas de poupança, no caso das ações judiciais que reivindicam a reposição das perdas sofridas durante planos econômicos das décadas de 1980 e 1990. A expectativa é de que sejam ressarcidos pelo menos 1,1 milhão de pessoas. No entanto, nem todos os autores das ações serão beneficiados. ;Muitos já morreram. Nesses casos, o dinheiro será destinado aos herdeiros;, afirmou uma pessoa ligada às negociações.

A intenção do governo é finalizar os termos do acordo o quanto antes. Na semana passada, foram realizadas duas reuniões entre representantes dos bancos, dos poupadores e do governo. Um terceiro encontro ocorrerá na próxima terça-feira, quando se espera que o acordo possa, enfim, ser selado. ;O importante é que esse trato seja fechado logo. Será um ótimo negócio para bancos e poupadores, que estão sendo derrotados pelo cansaço;, disse um dos interlocutores.


Parcelamento

O acerto deve estabelecer descontos de até 65% sobre os juros acumulados ao longo dos anos e o parcelamento da indenização a ser paga. ;Mas a maior parte deve entrar já na primeira parcela;, garantiu uma fonte. Representantes dos poupadores ainda tentam garantir o ressarcimento para todos os que tinham depósitos na época, ainda que isso contrarie uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio, a Corte restringiu o ressarcimento apenas a filiados de associações que ajuizaram ações coletivas.

Seja como for, o acordo é encarado como positivo pelos envolvidos. Para o governo, é uma extensão dos efeitos dos saques das contas inativas do FGTS e do PIS/Pasep. Dos R$ 12 bilhões, 70% serão pagos pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal.

Para os poupadores ou herdeiros, o acordo também é positivo, uma vez que os valores irão direto para a conta, permitindo que utilizem como bem entender. Pelo lado dos bancos, o acordo também é uma ótima oportunidade. Projeções da equipe econômica estimam que, sem os descontos, os bancos teriam R$ 50 bilhões a pagar aos consumidores.


Lentidão

O aposentado Gilberto Salmazo, 66 anos, é um dos poupadores que estão na expectativa da indenização. Apesar de considerar o acordo uma vitória, critica a lentidão no processo. ;É uma penalidade para o cidadão. Deveria haver um prazo máximo para o julgamento de qualquer processo;, disse.

Não fosse a demora na Justiça, ele avalia que os recursos já poderiam ter sido utilizados para ajudar na economia, com consumo, geração de empregos e impostos. ;Os bancos divulgam trimestralmente bilhões de reais em lucro. Por que não devolver aquilo que é direito dos trabalhadores?;, criticou.

Ainda que a indenização seja parcelada em quatro ou cinco meses, como ocorrerá com o pagamento dos recursos do PIS/Pasep, o acréscimo de uma renda extraordinária na economia vai beneficiar o varejo, avalia o economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. ;Sobretudo, se tudo isso desaguar em 2017, teremos um efeito muito semelhante ao que tivemos no FGTS;, analisa.

Ao contrário dos saques das contas inativas, Bentes avalia que a liberação da indenização acontece em uma situação um pouco mais favorável. Como muitos consumidores usaram o dinheiro do FGTS para pagar dívidas, o valor recebido pelos poupadores tende a aumentar o consumo. ;Os juros vêm caindo e isso torna a prestação média mais barata. O sujeito fica mais corajoso para tomar crédito quando sabe que não está devendo e tem um recurso extra para isso.;

Embora seja positivo, o impacto não será tão relevante, na avaliação do economista-chefe da INVX Global Partners, Eduardo Velho. ;Qualquer adicional de renda disponível ajuda a aumentar o consumo, mas vejo o efeito disso como algo politicamente interessante para o governo, que deve publicizar esse acordo. É mais uma percepção do que efetivamente uma grande ajuda aos gastos;, disse.


Negociadores

A Advocacia-Geral da União (AGU) é a responsável pela intermediação do acordo. Os consumidores estão representados pela Federação Brasileira dos Poupadores (Febrapo), pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e pelo sócio-fundador do VG Advogados, Luiz Fernando Pereira. Já as instituições financeiras são representadas pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). As reuniões estão sendo feitas na sede do Banco Central (BC), com participação do diretor de Relacionamento Institucional e Cidadania da autoridade monetária, Isaac Sidney Menezes.

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