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Correio Braziliense

Recuperação será progressiva até a eleição, diz diplomata Rubens Ricupero

Ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco defende escolha da equipe e decisões de política econômica do presidente Michel Temer


postado em 23/11/2017 06:00 / atualizado em 23/11/2017 07:46

"Acredito que terá chance (nas eleições de 2018) alguém que represente a garantia de tranquilidade, estabilidade, crescimento, melhoria de nível de vida. Eu acho que ninguém quer aventuras" (foto: Antonio Cunha/CB/D.A. Press)


O diplomata e economista Rubens Ricupero, em entrevista ao CB.Poder — uma parceria entre a TV Brasília e o Correio Braziliense — alertou para o riscos de prescrição na Operação Lava-Jato. “O Brasil tem um sistema legal, copiado da Itália, que é muito lento, com muitos recursos, e pode haver esse perigo”, avaliou. Para ele, tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República não são capazes de atender a demanda de investigações.


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Apelidado de sacerdote do Plano Real por Itamar Franco, de quem foi ministro da Fazenda,  Ricupero criticou a atuação dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que contribuíram para uma situação econômica “insustentável” no país. Ele enumera como o erro mais grave do período petista o gasto maior do que a arrecadação permitia, gerando rombo no orçamento.

Otimista, ele acredita na melhora progressiva da economia e ressalta a decisão acertada sobre política econômica e sobre as pessoas para conduzi-la que o presidente Michel Temer tomou logo no início do mandato. “Ele escolheu gente de primeira ordem. O Itamar demorou oito meses até encontrar o Fernando Henrique, que foi o quarto ministro da Fazenda dele.”

Aos 80 anos, o diplomata tem uma vida pública marcada pela presença nos principais momentos políticos do país. Sobre o cenário para 2018, ele descartou os extremos e aposta em candidatos que inspirem confiança no eleitor. Para ele, a população não quer aventureiros. “Eu acredito que haverá uma boa chance para um candidato centrista, com experiência, equilíbrio e que seja capaz de se apresentar com uma ficha limpa.”


Com tantos casos de corrupção, como está a imagem do nosso país lá fora?

Mal. A imagem, como vocês sabem, é sempre um reflexo da realidade. Em uma época como a nossa, em que a informação é abundante —  às vezes, até demais —, não se pode esconder coisa alguma. A realidade é aquilo que temos e, infelizmente, é de um momento penoso, mas eu diria que está começando uma fase de recuperação. Tanto em matéria econômica como a própria questão da corrupção. É preciso dizer também, como um lado positivo, que nenhum grande país como o Brasil teve coragem de colocar suas entranhas de fora, com uma operação desse porte como estamos tendo.

Mas a Itália teve a Operação Mãos Limpas...
É, teve a Mãos Limpas, uma situação difícil e mais limitada. Eu fui embaixador lá quando acabava a operação. Na Itália, não existe Poder Judiciário, existe Poder Legislativo e Executivo. Lá, a Justiça não é um terceiro Poder. É muito mais sensível às decisões do Parlamento do que aqui. De qualquer forma, não sei se compararia mais ou menos, mas a Rússia, a China, a Índia, a África do Sul, o Paquistão, esses países todos, que a gente sabe que têm problemas muito graves, nenhum teve uma Operação Lava-Jato.

Depois da Operação Mãos Limpas, acabou tendo recuos em relação à corrupção na Itália. O senhor está otimista nesse aspecto com relação ao Brasil?
Na Itália houve muita coisa que não chegou ao fim, até por prescrição, porque o processo demorou muito. Aliás, o Brasil tem um sistema legal que é copiado da Itália e é também muito lento, com muitos recursos, e pode haver esse perigo. Eu sempre achei que, no Brasil, haverá uma anistia branca, não uma anistia votada pelo Congresso. Muitos casos, dessas centenas que existem aí, nem a Polícia Federal nem a Procuradoria-Geral (da República) vão ter capacidade de investigar, sobretudo se não se mudar o foro privilegiado. O Supremo (Tribunal Federal) não vai ter nenhuma capacidade de julgar isso. Ou haverá uma mudança e as coisas vão melhorar ou, então, ocorrerá o que você disse (recuos). Mas isso vai ocorrer pela incapacidade do sistema. Basta ver o contraste que há entre Curitiba, o Rio de Janeiro e o Supremo.

Com a recuperação econômica do governo, é possível que venha um candidato de centro com a marca do governo Michel Temer? Ele tem alguma chance de sucesso?

Não, necessariamente, do governo. Eu penso que a recuperação econômica daqui até as eleições vai ser progressiva, vai ser segura, não vai ser espetacular, mas vai fazer reduzir o desemprego, a inflação vai continuar a cair, com juros baixos. Com isso, a inflação de alimentos, que afeta muito os mais pobres, não vai ser tão grave e isso vai dar condições melhores ao governo. Eu fui ministro do Itamar desde, quase, o começo. A grande vantagem que o Michel Temer teve é que ele tomou uma decisão acertada logo no início sobre a política econômica e as pessoas que deveriam conduzir. A escolha do ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central, do Pedro Parente, na Petrobras, de todo aquele grupo. A Maria Silvia também, no BNDES. Ele escolheu gente de primeira ordem. O Itamar demorou oito meses até encontrar o Fernando Henrique, que foi o quarto ministro da Fazenda dele. O Michel Temer agora está colhendo os benefícios dessa escolha acertada. Se não tivesse havido aquele episódio desastrado no Jaburu, em que ele recebeu o Wesley Batista, ele estaria muito melhor. A meu ver, um fator que vai pesar muito na eleição e que será ajudado pela recuperação econômica é o desejo de normalidade que a população tem. Assim como em 1994, ninguém mais aguentava a remarcação de preços, quatro, cinco vezes por dia no supermercado, ninguém mais quer um aventureiro. Ninguém quer que o Brasil volte a mergulhar em uma crise. Nós estamos saindo de três, quatro anos de constante palpitação. O que o Brasil quer é um presidente que infunda confiança, que não dê medo a ninguém.

Isso exclui os extremos?
A meu ver, sim. Eu acho que vai haver um episódio parecido ao do Tancredo Neves, em 1984/1985. Na época, o Oscar Camilión, o grande ministro e embaixador argentino, disse: o Tancredo não é o primeiro candidato de ninguém, mas ele é o segundo candidato. Por quê? Ele era aceitável para os militares, para o PMDB, por uma razão: ele não infundia medo a ninguém. Nem em relação à vida, à liberdade e à propriedade, nem na condução da economia. A gente não deve subestimar a importância para a população da tranquilidade.

Em relação ao atual cenário político, o senhor acha que é o caso de a oposição rejeitar tanto Bolsonaro (Jair) quanto Lula nesse aspecto?
Eu acredito que vai haver uma boa chance para um candidato centrista, com experiência, equilíbrio e que seja capaz de se apresentar com uma ficha limpa. Nesse caso, o Lula não seria um aventureiro, mas um veterano. O Lula é um grande político, mas é preciso não esquecer que as três primeiras eleições ele perdeu. Na época que ele representava apenas um segmento, era como o partido comunista italiano, tinha um teto, chegava a 30/35%, não passava. Ele venceu as outras porque ele fez um apelo que captou a classe média. Mas será que o programa dele, hoje, é mais parecido com o Lula paz e amor, ou é mais parecido com o passado em que ele era um símbolo de divisão?

O senhor acha que ele tem chance?
Se continuar como um símbolo de divisão e polarização, não. Eu acredito que terá chance alguém que represente a garantia de tranquilidade, estabilidade, crescimento, melhoria de nível de vida. Eu acho que ninguém quer aventuras.

E como seria para a imagem do país, lá fora, ter o Lula presidente?

É uma hipótese que eu acho pouco provável e, além disso, só se viabilizaria se ele mudasse esse discurso atual e não me parece que seja o caso neste momento.

O senhor disse que o Lula foi um grande diplomata e, ao mesmo tempo, disse que a presidente Dilma fez uma das piores políticas. Qual a diferença entre eles do ponto de vista diplomático?
Ela não tinha a menor sensibilidade. A diferença são mil coisas, mas vou começar pela personalidade. O Lula é um homem que adora política em geral e diplomacia não é diferente de política. Os grandes diplomatas da história foram todos políticos, não eram diplomatas profissionais. A política é uma só. A arte da política, a maneira de persuadir as pessoas, através da negociação, do poder suave, do encanto, do carisma, isso vigora interna e externamente. O Lula tinha toneladas disso, a sua sucessora não tinha, não se sentia à vontade nem valorizava isso. Lula tinha e tem essa autoconfiança em si próprio. Eu reconheço nele grandes virtudes. Apenas acho que, infelizmente, aquilo que poderia ter sido um marco na história não foi porque ele adotou políticas econômicas que tornaram insustentável. Aquele momento que deu certo, 2009, 2010, não era falso, era verdade, só que não era sustentável.

Quais são as políticas que ele adotou que se tornaram insustentáveis?
O rombo no Orçamento. Gastar mais do que a arrecadação permitia, esse foi o grave erro. Isso não é uma política de esquerda porque a Bolívia, por exemplo, que está indo muito bem, com grandes reformas sociais, é um país moderado, tem inflação baixa, não tem deficit de orçamento porque não fez loucuras, não fez contabilidades criativas, não quis dar um passo maior do que a perna. Quis fazer aquilo que era possível fazer. Aqui, nós quisemos inventar a roda e deu no que deu.

O governo está trabalhando a assinatura de um acordo do Mercosul com a União Europeia, como o senhor está vendo isso? Estamos mais próximos do que já estivemos no passado?
Eu acho que agora é o momento certo. Durante muito tempo, não se podia avançar por causa da Argentina, que bloqueou por muitos anos. Agora, com a Argentina com um governo que tem confiança em si próprio, o país está indo bem, está crescendo, esse problema foi removido. É preciso, agora, que a gente não permita que entre um novo problema, que é a indústria automobilística brasileira. Ela está criando dificuldades. É curioso, porque são as filiais das próprias empresas europeias — cujas matrizes na Europa estão pressionando o Brasil na OMC — que aqui estão fazendo corpo mole. Eu não sou favorável a nenhuma atitude brusca, impensada. A indústria automobilística brasileira é muito grande, cria muitos empregos, mas ela vai ter que passar por uma consolidação. Um país do tamanho do Brasil não pode ter mais de 30 montadoras, algumas das quais só conseguem produzir 7 mil veículos por ano. É um problema, porque tem estados que atraíram empresas, com favores fiscais, mas vamos ter que caminhar para um número menor de montadoras. Vai ter que ser progressivo, mas é preciso que a indústria entenda que tem que caminhar, não pode continuar sob a proteção do governo 60 anos depois de implantada no Brasil.

E em relação à OCDE, como o senhor avalia essa questão?
Eu, durante muito tempo, tive dúvidas se era o momento de o Brasil aderir, porque achava que o país não tinha ainda maturidade econômica para aceitar todas aquelas regras. No passado, o Brasil estava com problemas macroeconômicos, de inflação, até a estabilização da economia. Hoje em dia, começo a achar que a adesão à OCDE pode ter a vantagem de permitir que o Brasil avance mais depressa em algumas reformas, sobretudo uma, que é a tributária.

Nós conseguiremos?

O problema é o seguinte. Para entrar nesses clubes fechados, os membros querem extrair de você todas as concessões, inclusive bilaterais. É o que está acontecendo hoje. Muitos países da OCDE estão querendo resolver seus próprios problemas com o Brasil usando a vulnerabilidade, que o Brasil quer entrar, para nos obrigar a fazer concessões.

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