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Correio Braziliense

Interação entre produtores e consumidores cria sistema de compartilhamento

Famílias asseguram sustento a partir da venda de cotas periódicas


postado em 18/12/2017 06:01

Projetos desenvolvidos em diversos países buscam o financiamento da produção de alimentos e a sustentabilidade de agricultores das zonas rurais. Uma iniciativa que cresce por várias partes do mundo avança um pouco mais, revertendo a situação de desânimo de pequenos agricultores, sujeitos às intempéries do clima, sazonalidade e riscos no escoamento da produção. A sigla CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) revela um modo de vida de milhares de pessoas que optaram por apoiar produtores locais, compartilhar custos e prejuízos, incentivar a interação entre pessoas da cidade e do campo, além de promover a agricultura. O Distrito Federal é a unidade da federação que reúne o maior números de CSAs, com 21 comunidades.

Em uma CSA, o que dá sustentabilidade aos agricultores locais é a forma de gerenciamento da produção. As palavras-chaves são compartilhamento e confiança. A comunidade, por meio de um grupo específico de pessoas, apoia determinado produtor de uma maneira bastante organizada. Cada pessoa paga uma cota por mês, ou seja, um valor mensal fixo. Em troca recebe, semanalmente, de 10 a 15 produtos orgânicos, variedade que depende da oferta da época e da estrutura de produção do agricultor. O sistema permite a venda direta da produção local, sem intermediários.

Proporciona, também, uma forma única de relacionamento entre o agricultor e o consumidor, que passa a ser denominado como coagricultor. Isso porque a participação do consumidor não se limita a pagar a cota e receber os produtos. O envolvimento é amplo — o coagricultor se transforma em um colaborador para o desenvolvimento sustentável da região, valorizando a produção local, conhecendo de perto de onde vem o seu próprio alimento e participando de iniciativas para agregar a comunidade. Além disso, ele tem a garantia de que está consumindo produtos orgânicos.

“A CSA é uma tecnologia social que aproxima a cidade ao campo para a alimentação saudável e a produção sustentável de alimentos em comunidades que valorizam a economia local e a autonomia nos seus processos de decisão”, explica a gestora sócio-ambiental, Renata Navega, administradora da CSA Brasília, um grupo que estimula redes comunitárias de produção e consumo de alimentos orgânicos e socialmente justos no Distrito Federal.

A partir de uma perspectiva que integra campo e cidade, os coagricultores, junto com a coletividade, ajudam a financiar a produção, monitoram dificuldades do produtor, participam da tomada de decisões e compartilham soluções com a comunidade. Eles também ajudam a organizar os pontos de convivência, que são os locais para a entrega dos produtos, mas que funcionam como espaços de interação entre as pessoas do campo e a comunidade.

A relação entre produtor e coagricultor é de total confiança. “O agricultor apresenta todos os seus custos de produção e pensa o seu plantio em um ciclo agrícola de um ano. Ele divide esses custos com as famílias que vão se alimentar diretamente dessa terra. Deixamos de ser consumidores e nos tornamos coagricultores, pessoas que assumem o risco da produção agrícola e compartilham da abundância dessa produção”, enfatiza Renata Navega.

CSA Brasília

A CSA Brasília tem 21 comunidades, totalizando 2.000 pessoas, responsáveis pelo pagamento de 520 cotas, com valores entre R$ 215 e R$ 315, por mês. O grupo recebe semanalmente, em média, 10 itens, entre folhosas, verduras e frutas. Além de valorizar a agricultura familiar e fortalecer a agroecologia, a rede promove o contato dos coagricultores com a terra, realiza a gestão participativa e incentiva a prática da economia associativa, práticas que fazem parte dos princípios da organização.

Das 21 CSAs do DF, oito fazem parte da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera), que reúne agricultores das zonas rurais de Planaltina, Taquara, Pipiripau e Taquara, envolvendo cerca de 400 pessoas, entre produtores e suas famílias. Cada CSA tem, em média, 30 coagricultores, sendo que as cotas variam de R$ 275 a R$ 320. Entre outros benefícios, a ligação direta com a associação permite a troca de excedentes entre os produtores, o que garante maior diversificação na oferta de produtos e pouquíssimo desperdício de alimentos. “A CSA ajuda no processo de transformação do território e da família. Agora vemos filhos voltando para a terra para ajudar os pais”, analisa a presidente da Aprospera, Fátima Cabral.

Renda mensal garantida

O compartilhamento de custos na agricultura familiar tem garantido o sustento de muita gente. Depois de ter trabalhado por alguns anos como pedreiro, Willian Lopes Silva, 44 anos, passou a plantar nos sete hectares da chácara Bela Vista, localizada no assentamento Oziel Alves, no núcleo rural Pipiripau. Hoje, o agricultor vê crescer a demanda de hortaliças, verduras e frutas, faz a entrega direta de toda a produção e festeja a renda mensal que passou a ter com as vendas. “A CSA está renovando as minhas esperanças de ter uma vida melhor. Todos os meses tenho uma renda certa, meus filhos estão tendo a chance de trabalhar por aqui mesmo e posso até contratar diarista para me ajudar”, conta o produtor, pai de Magsson, 22 anos, e Willisson, 16 anos.

Desde o dia 10 de novembro, a CSA de Willian tem novo ponto de convivência na sede da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF). No local, 17 funcionários da empresa, inclusive o presidente, Roberto Carneiro, e da Secretaria de Agricultura do DF, são coagricultores da CSA Bela Vista. O contrato inicial é de seis meses, mas o compromisso pode ser reafirmado por um período de até um ano, ao final dessa temporada.

Para atender à necessidade do grupo, de acordo com o tamanho das famílias, cinco pessoas pagam a cota inteira, no valor de R$ 298, e 12 pessoas pagam meia-cota, de R$ 149, por mês. O grupo recebe, todas as quintas-feiras, até 15 itens cultivados na chácara de Willian. “Estamos vivenciando o processo para vermos de que forma podemos contribuir mais com os produtores, aprimorar os processos com a comunidade e trabalhar no DF a questão da economia solidária”, explica a engenheira agrônoma Bruna Heckler, do escritório de Comercialização da Emater-DF.

Desenvolvimento

Como é de praxe nesse tipo de empreendimento, a oferta de produtos varia de acordo com a sazonalidade e com a própria expertise do agricultor, ou seja, novos sabores podem ser apresentados a uma família que desconhece uma hortaliça não convencional ou até não aprecie determinadas verduras. “Está sendo um aprendizado para mim. Já recebi até beldroega, que é uma folhosa. Eu acolhi, senti o novo sabor e fiz um suco, misturando com maracujá, couve e maçã. Minha filha, de 2 anos e meio, adorou”, disse Bruna.

Conhecida internacionalmente como Community Supported Agriculture, as CSAs começaram a ser desenvolvidas na Alemanha, na década de 70, baseadas nos conceitos da agricultura solidária e apoiadas na parceria entre os produtores e os consumidores. Atualmente, a prática já se encontra estabelecida em diversos países, como Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França, Japão e Portugal.

No Brasil existem hoje CSAs em 10 unidades da federação — São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Amazonas, além do DF — e alguns projetos estão em estudo para serem implantadas novas comunidades em outros estados. No seu site, na Internet, a CSA Brasil ensina como agricultores e consumidores podem efetivar a parceria para a criação de uma comunidade semelhante. Entre outros temas, o passo a passo explica quantas pessoas são necessárias para a criação de uma unidade, como planejar a diversidade no campo e como calcular os custos do projeto. 

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