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Correio Braziliense

Expansão do ensino a distância pode levar instituições a guerra de preços

Novas regras para o EAD estabelecidas há menos de um ano tornam planos de expansão das líderes do setor mais agressivos e dificultam a vida de grupos menos capitalizados


postado em 11/01/2018 06:00 / atualizado em 11/01/2018 07:41

Um dos 600 polos da Uninter, do Paraná, que, dentro de um plano agressivo de crescimento, abriu 150 unidades só no ano passado(foto: Rodrigo Ramirez/Divulgação )
Um dos 600 polos da Uninter, do Paraná, que, dentro de um plano agressivo de crescimento, abriu 150 unidades só no ano passado (foto: Rodrigo Ramirez/Divulgação )


São Paulo — Início de ano é época de vestibular e de matrícula nas instituições de ensino superior. No caso daquelas que oferecem o ensino a distância (EAD), 2018 começa com um plano de expansão dos negócios depois de um período sem muito a ser comemorado. O projeto de expansão dos grandes grupos é resultado do marco regulatório do Ministério da Educação (MEC), publicado no ano passado, que flexibilizou algumas regras do segmento (leia mais abaixo). Com isso, como diz Wilson Diniz, diretor de Marketing da Cruzeiro do Sul Educacional, o que se vê agora é uma espécie de “corrida do ouro” por polos que permitam a expansão das operações de EAD.

Os polos servem para abrigar as atividades pedagógicas e administrativas dos cursos de EAD. Em 2017, a Cruzeiro do Sul Virtual (que reúne três marcas) passou de 110 para 360 polos. Até o fim de 2019, segundo Diniz, a previsão é ter mais 900 polos em funcionamento. Hoje, a instituição conta com 90 mil alunos no EAD. “Está todo mundo querendo abrir polo, mas não é algo tão simples de ser resolvido. Passamos os últimos seis meses qualificando novos parceiros para que eles pudessem começar suas operações como polo. Montamos uma equipe de especialistas e construímos internamente uma estratégia para ocupar o mercado”, conta o executivo.

Wilson Diniz, diretor de Marketing:
Wilson Diniz, diretor de Marketing: "Está todo mundo querendo abrir polo, mas não é algo tão simples de ser resolvido. Passamos os últimos seis meses qualificando novos parceiros" (foto: Divulgação)


A Uninter, do Paraná, é outra instituição de ensino com planos agressivos de crescimento. Em 2017, foram abertos 150 polos, o que levou ao encerramento do ano com 600 unidades. Em 2018, segundo o reitor Benhur Gaio, a previsão é abrir 250. “Até o marco regulatório, as regras limitavam muito o crescimento. Esta é a primeira vez que o ensino a distância passa por uma situação dessas, por isso o esforço tem sido tão grande para garantirmos a melhor infraestrutura”, afirma.

Gaio não fala em valores, mas  diz que 15% do montante investido este ano pela Uninter será usado na abertura de polos. A instituição de ensino não trabalha com polos próprios, apenas com parceiros. Outros trabalham com modelo misto — polos próprios e por meio de parcerias, que em muitos casos já têm uma escola de ensino médio, por exemplo, e podem oferecer laboratórios e profissionais para as aulas práticas previstas no programa do curso de EAD de uma faculdade, em complemento às aulas pela internet.

Roberto Valério, vice-presidente da área de ensino a distância da Kroton:
Roberto Valério, vice-presidente da área de ensino a distância da Kroton: "Não queremos entrar na guerra de preços de forma agressiva, mas estamos monitorando os movimentos da concorrência" (foto: Divulgação)


Além da expansão das unidades remotas, a Uninter e alguns de seus concorrentes estão investindo no aumento da oferta de cursos a distância. No caso do grupo paranaense, começou a ser oferecido o curso de gestão de cidades inteligentes, de tecnologia em saneamento ambiental e de investigação profissional. Será o maior investimento dos últimos 10 anos. “Não adianta apenas abrir polos. Decidimos também investir em novas carreiras e, principalmente, na preparação de cursos e atualização das equipes. Nossa previsão para este ano é que a receita alcance dois dígitos de crescimento”, prevê o reitor.

Efeito colateral


A expansão agressiva prevista pelos grandes grupos que atuam no EAD pode resultar em um efeito colateral: diz uma regra antiga de mercado que o aumento da oferta pode achatar o preço. No caso do EAD, as mensalidades custam, em média, um terço do valor do curso presencial. Em alguns casos, o valor inicial está na casa dos R$ 200. “Neste começo de ano ainda, não percebemos isso no mercado, mas estamos preparados para um possível impacto nas mensalidades por conta do aumento da oferta de vagas. Não queremos entrar na guerra de preços de forma agressiva, mas estamos monitorando os movimentos da concorrência”, conta Roberto Valério, vice-presidente da área de ensino a distância da Kroton.

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Valério aponta outro possível problema nesta nova fase de expansão do EAD: a abertura indiscriminada de polos. Segundo ele, a escolha da localização deve ser muito bem avaliada. Não basta ter a oferta de um interessado em oferecer suas instalações educacionais para uma marca de EAD. “Nós, por exemplo, fazemos estudo de geomarketing para estudar onde vamos nos instalar. Em muitos casos pode ser melhor começar do zero do que pegar um polo pronto em uma região em que a demanda não seja a esperada”, diz o executivo da Kroton.

Benhur Gaio, reitor da Uninter:
Benhur Gaio, reitor da Uninter: "Não adianta apenas abrir polos. Decidimos também investir em novas carreiras e, principalmente, na preparação de cursos e atualização das equipes" (foto: Rodrigo Ramirez/Divulgação )


Para o vice-presidente do grupo, o maior de ensino a distância do país, o espaço de crescimento para o EAD no Brasil ainda é muito grande. No caso da Kroton, são cerca de 1.100 polos distribuídos por aproximadamente 500 cidades. Nos próximos cinco anos, a previsão de Valério é chegar a 3.000 polos. “Além de cidades grandes terem demanda por mais de um polo, vale lembrar que o Brasil tem cerca de 5.000 municípios, muitos deles com uma oferta muito pequena de ensino superior e em mercados que podem ser atendidos pelo EAD”, avalia.


Demanda reprimida


Luciano Sathler, diretor da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed), acredita que, só daqui a três anos, será possível ter uma ideia de qual foi a reação do mercado a essa expansão do setor. “É fato que o EAD vai continuar a crescer mais do que o ensino presencial. A previsão é que, daqui a cinco anos, ele chegue a 40% ou 50% das novas matrículas. Há uma demanda reprimida e, ao mesmo tempo, as instituições querem marcar seu espaço. Mas não dá para saber agora como o setor vai reagir”, analisa.

Com o crescimento rápido, também já se fala da possibilidade de o setor de EAD passar por uma nova rodada de consolidação, seja por meio de fusões, de aquisições ou simplesmente o fechamento de unidades de ensino de menor porte, com atuação regional. “Já estamos vendo isso  no Paraná mesmo entre algumas presenciais. Elas acabam sofrendo mais e não resta outra solução a não ser encerrar as atividades. Por outro lado, tem gente grande com bastante dinheiro em caixa para expandir por conta própria ou para comprar concorrentes”, diz Gaio. Luiz Trivelato, sócio da consultoria Educa Insights, acredita que o mercado de EAD deverá passar por mudanças não apenas quanto ao número de polos, mas com relação aos modelos de cursos oferecidos. Para ele, o ensino semipresencial (uma variação do EAD que tem mais participação em sala de aula) deverá ter um espaço cada vez maior. Além disso, avalia Trivelato, também já é possível ver instituições de ensino mais tradicionais ampliando a oferta com cursos a distância. É o caso da Universidade Católica de Santa Catarina, de Brasília, do Mackenzie e da Uniso.

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