Economia

O que muda no setor de varejo com a entrada de investidores no Walmart?

Fundos de investimento negociam aquisição de parte da operação da rede americana no Brasil, o que poderá provocar estragos na concorrência e atrair gigantes como a Amazon

Paula Pacheco/Estado de Minas
postado em 23/01/2018 06:00
Analistas do varejo acreditam que papel dos fundos será acelerar expansão da rede para torná-la atrativa a investidores estrangeiros

São Paulo ; A notícia de que três fundos estariam em negociação para ficar com metade da operação do Walmart no Brasil provocou inquietação no varejo brasileiro. Isso porque o movimento do terceiro maior grupo com atuação nesse mercado poderia resultar em efeitos colaterais para os concorrentes diretos.

Na madrugada de ontem, a agência de notícias Reuters publicou que o Walmart Stores estaria em negociação com a Advent International Corp, com atuação em private equity, e com a GP Investments Ltd e a Acon Investments LLC. Em discussão, a possibilidade de vender 50% da operação do Walmart no Brasil. Procurados, Walmart, GP e Advent negaram a negociação e classificaram as notícias como ;especulações; e ;boatos de mercado;. Já a Accon não se pronunciou.

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[SAIBAMAIS]Para quem acompanha o varejo de perto, a entrada de investidores no Walmart pode ter dois possíveis desfechos. O primeiro deles seguiria movimento muito comum nesse tipo de atuação. Depois que a operação estivesse azeitada, os fundos poderiam repassá-la a um novo grupo, ainda sem negócios no Brasil. Essa seria a porta de entrada necessária para que grandes operadores internacionais do varejo on-line se estabeleçam no país sem as dificuldades de um recém-chegado.

Entre as empresas que poderiam buscar esse tipo de negócio, avalia Marcos Gouvêa de Souza, do Grupo GS, estariam gigantes como Amazon, Alibaba e a JD, que já é parceira da operação de internet do Walmart na China. ;Esse interesse na expansão de negócios on-line para o ambiente físico tem se ampliado. A Amazon comprou a rede Whole Food. Já a Alibaba comprou participação na Bailian Group, segunda maior varejista chinês;, explica o especialista.

Nesse caso, diz Souza, o papel dos fundos seria acelerar o crescimento do Walmart no Brasil para tornar o negócio mais atraente a investidores estrangeiros. Para o consultor, apesar de a companhia ter adotado um programa forte de recuperação, com desembolsos da ordem de R$ 1,5 bilhão, nesse tipo de negócio é preciso se manter sempre competitivo em razão do alto nível de exigência.

Se a negociação entre os fundos e a companhia americana se confirmar, avalia o especialista, a parceria fará com que o Walmart mantenha o foco mais em questões operacionais e menos em aspectos financeiros da operação. ;Apesar de ser a terceira em faturamento, a empresa não tem a relevância que gostaria. No processo de recuperação que está colocando em prática, talvez o reposicionamento no negócio global demore mais do que o esperado;, diz Gouvêa de Souza.

Coordenador do Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), Maurício Morgado não acredita na hipótese de o Walmart se aliar a um concorrente, caso o negócio com os fundos seja concretizado. Para o estudioso, é mais provável que a companhia melhore seus pontos fracos no Brasil: ;Nos últimos anos, a empresa vem sendo apertada pelos dois principais concorrentes, seja na operação nas lojas, no caso do Carrefour, seja nos negócios on-line, pelo GPA, controlador da Via Varejo.; Por isso, diz ele, seria importante ter os fundos como parceiros, mas desde que se saiba antes o destino do dinheiro que será colocado na operação, se vai ficar no Brasil ou se vai para a matriz.

;A operação on-line do Walmart ainda não é expressiva;, afirma Morgado. ;Tanto que eles saíram desse segmento e depois voltaram. Mas é o tipo de canal de venda cada vez mais relevante. Tanto é assim que, nos Estados Unidos, o próprio Walmart comprou no ano passado uma empresa de moda, a Bonobos, que só opera no sistema on-line. Eles têm interesse cada vez maior nessa área para não perder espaço para a Amazon;, explica o especialista.

O coordenador do centro da FGV, no entanto, alerta que a operação on-line, para ter sucesso, precisa estar muito bem integrada ao negócio físico, algo que vem sendo feito, por exemplo, pelo Magazine Luiza. É, diz Morgado, a forma de reduzir os custos da operação. ;O Walmart está precisando de um Abilio Diniz por lá;, diz, referindo-se ao fato de o empresário ter sido o presidente do GPA por muitos anos e depois ter se aliado ao Carrefour por meio do fundo Península.

Fundos de investimento negociam aquisição de parte da operação da rede americana no Brasil, o que poderá provocar estragos na concorrência e atrair gigantes como a Amazon

Sem estresse

Economista do Banco Votorantim, Roberto Padovani acredita que o grande atrativo para os fundos se aproximarem do Walmart será o comportamento da economia brasileira. Para o especialista, o varejo foi o carro-chefe da retomada da economia e do fim da recessão. ;Faz sentido o varejo chamar a atenção de investidores;, diz Padovani. ;Vimos ao longo de 2017 a queda da inflação e da taxa básica de juros, o aumento da confiança e do poder de compra da população. Esses fatores impulsionaram o desempenho do varejo, e em 2018 esses aspectos da economia devem se manter.;

Para Padovani, o endividamento dos brasileiros deve continuar baixo, a inflação, mesmo que tenha uma pequena alta, ainda estará em níveis modestos e a tendência é de que os juros, mesmo que sejam elevados pelo Comitê de Política Monetária ao longo de 2018, não devem passar por muito estresse, o que se reflete na obtenção de crédito mais barato.

;A população ainda não está sentindo essa retomada, talvez porque ainda esteja muito dependente do emprego informal, o que causa certa insegurança. Mas a tendência é de que o crescimento do varejo puxe o aumento da atividade econômica, a redução da ociosidade na indústria e, consequentemente, a geração de emprego. São esses aspectos que tornarão o país atraente nos próximos anos;, acredita Padovani.

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