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Correio Braziliense

Governo proíbe compra de bilhetes de avião de executiva a ministros

Decreto vale para ministros e para o presidente da República. Regra não vale, por enquanto, para o Legislativo e o Judiciário


postado em 08/02/2018 06:00 / atualizado em 08/02/2018 08:08

Segundo Gleisson Rubin, do Planejamento, concursos não voltam ao ritmo normal antes de 2019(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Segundo Gleisson Rubin, do Planejamento, concursos não voltam ao ritmo normal antes de 2019 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

O decreto 9.280, publicado ontem, proíbe a compra pelo governo de qualquer passagem de avião que não seja em classe econômica. Assim, autoridades serão obrigadas a viajar ao lado de quem paga menos pelos bilhetes em qualquer voo, incluindo os internacionais de longa duração. Só poderão ir na executiva ou na primeira classe se pagarem a diferença do próprio bolso.

A medida ainda é restrita ao poder Executivo, mas o secretário de Gestão do Ministério do Planejamento, Gleisson Rubin, afirmou que vê chances de isso se expandir, no futuro, e de o Legislativo, Judiciário e Ministério Público decidirem aderir à regra. “Eu acho que alguém tem que induzir os movimentos”, afirmou ele ontem ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense e da TV Brasília. “Ministro, presidente, vice-presidente, comandantes das forças armadas, qualquer autoridade em uma viagem a serviço em missão oficial vai viajar em classe econômica”, disse.

Segundo Rubin, o impacto disso será, sobretudo, simbólico. “Hoje a quantidade de passagens emitidas em classe executiva já é residual. No ano passado, nós tivemos um total de 598 milhões em passagens aéreas, e o gasto com passagem em classe executiva foi de 500 mil reais, 0,1%”, explicou.

Outras medidas já implantadas na área, com maior impacto, foram compra direta de passagens das companhias aéreas pelo governo e a criação de um sistema eletrônico para a aprovação das compras. Isso reduz a demora de decisão e, consequentemente, a chance de encarecimento dos bilhetes que costuma ocorrer em datas mais próximas das viagens. Em 2014, os gastos com passagens foram de R$ 1 bilhão em valores atualizados. No ano passado, R$ 598 milhões.

Rubin aposta na economia de recursos públicos por meio de outro programa, o Táxigov, que eliminou a frota de veículos destinados ao transporte de funcionários públicos e de documentos. Em vez de carro oficial, os servidores usam um aplicativo e os serviços de cooperativas de táxi. Com isso, espera-se reduzir a despesa de R$ 32 milhões em 2016 para R$ 12 milhões neste ano. No ano passado, quando o sistema começou a ser implantado, a economia foi de apenas R$ 3 milhões. Ministros mantêm carros oficiais.

O valor é baixo, reconhece o secretário, diante do deficit da Previdência, por exemplo, que atinge R$ 155 milhões por dia. “Mas há programas com orçamento muito baixo, por exemplo o de formação de atletas de alto desempenho, com dotação de apenas R$ 7 milhões”. 
 
Leia a entrevista na íntegra: 
 
O que o governo fez para reduzir suas despesas?

Nós temos repensado a forma de funcionamento do Estado. Não basta apenas reduzir o orçamento disponível para os órgãos. É necessário ver de que maneira esse gastos se comportam ano após ano, o que pode ser agregado, principalmente de tecnologia da informação e oferecer o serviço sem trazer prejuízo aos órgãos, obtendo algum tipo economia, de modo que o recurso possa ser direcionado para as atividades finalísticas

Quanto já foi economizado?

Aí nós temos um conjunto de ações, uma carteira de ações. Mais recentemente nós implantamos aqui em Brasília o Táxigov. Pode parecer algo trivial: deixar de utilizar carros de frota própria para utilizar o serviço de táxi que já atende a população de modo geral, mas há uma cadeia por trás dessa prática de ser proprietário de um carro. O ministério que tem um carro gasta também com manutenção, com combustível, com salário de motoristas, com a guarda dos carros. A gente sabe de alguns casos de órgãos em Brasília que alugam prédios e acabam tendo que pagar o aluguel da própria garagem. Então para dar um número, em 2016 o transporte de servidores administrativos, aquele feito pelos carros brancos, que geralmente tem um adesivo na porta “a serviço do ministério tal”, consumiu R$ 32 milhões.

Durante todo o ano?

Durante o ano de 2016. E com o Táxigov essa despesa deve cair para R$ 12 milhões, é uma economia de 60%.

Já está implantado agora para 2017?

Ele já funcionou em 2017. Nós temos hoje 25 dos 28 ministérios já usam o Táxigov, temos apenas dois ministérios ainda para entrar no modelo. O Ministério da Fazenda tem um modelo de táxi também, que não é o mesmo, mas irá migrar para esse mesmo modelo de 2018. E em 2017, ainda que vários ministérios tenham utilizado esse sistema por alguns poucos meses, a economia já foi de R$ 3 milhões, 60% em cima do uso que foi realizado.

Secretário, o senhor está falando dessa economia mas a sensação que o cidadão comum tem é que existe uma farra dentro do governo, em relação ao dinheiro público. Não se tem controle sobre os carros, qualquer hora do dia você anda por Brasília você vê um carro estacionado a frente de um shopping, de outra área comercial. Existe controle sobre isso? Quantos carros que o governo tem que poderiam ser eliminados?

Vamos lá, falando do Táxigov, nós mapeamos 860 veículos utilizados para essas finalidades administrativas. Aqui eu não me refiro a carros utilizados em atividades finalísticas como viaturas de polícia, utilizados na fiscalização do Ibama, do Incra, enfim, estamos falando no transporte de servidores e documentos. Só o Táxigov já desmobilizou 206 carros desses 860 e ainda temos órgãos para entrar. Este ano o Táxigov vai também para os órgãos da administração indireto, autarquias e fundações aqui em Brasília e deve ir para São paulo e Rio de Janeiro. Inclusive Rio de Janeiro tem uma quantidade de servidores públicos maior do que o Distrito Federal, quase o dobro, então nós temos um grande potencial de redução de frota no Rio de Janeiro e também em São paulo.

O governo é uma concessionária de carros ainda hoje?

O governo já foi um grande comprador de veículos. o que a gente precisa também lembrar é que essa realidade não é de pouco tempo atrás, carros oficiais existem no Brasil praticamente desde que a indústria automobilística se estabeleceu por aqui.

Secretário, vão sobrar veículos de representação mesmo com o Táxigov, que são 98 aqui em Brasília incluindo os de ministros, comandantes de estado, de forças armadas, etc. Agora destes aqui, tudo bem que os ministros tenham um carro de representação, mas os cargos de natureza especial, que são 59, também vão manter os carros de representação. Isso representa 59 carros, 60% do total de carros de representação. Não seria o caso de cortar esses aqui também?

O ministério encaminhou para a Casa Civil uma proposta para eliminar uma outra categoria em que os carros tem a mesma característica do carro de representação que são os veículos institucionais, que atendem aos secretários nacionais, diretores e presidentes de autarquias e fundações, reitores de universidades e institutos federais, cargos de uma equivalência ao chamado DAS6 aqui em Brasília. Este contingente tem mais de 1000 autoridades em todo o país. A ideia é portanto trazer o universo das pessoas que hoje usam carro oficial, carro executivo de um universo de 1100 para 100, reduzir em mais de 90%.

Mas não poderia ir para 40?

Eu acho que é o caminho, veja que até hoje não tínhamos tido redução nenhuma. Esse quantitativo só aumentou a o longo dos anos, ao longo das décadas e essa talvez seja a primeira iniciativa concreta com vistas a uma redução que não é pequena. Estamos falando de uma redução de mais de 90% nesses veículos

Os levantamentos mostram que são feitas mais ou menos, em média, duas mil viagens com carros de servidores por dia. Não é muita coisa? Isso dá 490 mil viagens por ano. Não sei quantas voltas na Terra isso daria…

A ideia como eu disse é mudar o modelo para que os ministérios possam realizar o seu papel mas a um custo menor. Duas mil viagens por dia tem que ser dividida entre 28 ministérios mais a Presidência da República. Vamos falar especificamente do Ministério do Planejamento: ele tem dois prédios na área central, na Esplanada dos Ministérios, mais a Secretária de Orçamento etc. Isso demanda deslocamento de servidores e de documentos entre as unidades e também no relacionamento do executivo com os outros poderes, com os órgãos de controle, enfim.

Ai é que está: esse fosse extremamente louvável, é do Executivo. Quando é que a farra vai acabar nos outros poderes? No legislativo e no judiciário, onde tem vários carros?

Eu acho que alguém tem que induzir os movimentos, é isso que o executivo tem feito. Nós temos induzido esse movimento com os veículos oficiais e também com as passagens aéreas, tanto que hoje saiu publicado um decreto acabando com a figura da viagem internacional em primeira classe e também em classe executiva. Então hoje qualquer autoridade do poder executivo, inclusive ministro, presidente, vice-presidente, comandantes das forças armadas, qualquer autoridade em uma viagem a serviço, missão oficial irá viajar em classe econômica.

Vai sentar com o cidadão comum? Isso dá para acreditar? A gente ver o ministro sentando em uma classe econômica de um avião, naquele espaço apertadinha do lado do cidadão comum?

Sim.

Ou isso é para jogar pra galera?

Esse é o desenho que nós queremos, é o futuro que estamos perseguindo. Um ano atrás, voltando para o Táxigov, quando ele começou, muita gente também perguntou: o diretor vai deixar de andar de carro oficial e vai andar de táxi? É o que acontece hoje. Com o fim dos veículos institucionais, os próprios secretários e presidentes de autarquias e fundações aqui de Brasília também vão se valer do Táxigov. No segundo semestre no Rio e São Paulo vai ser a mesma realidade, inclusive para as autoridades. Eu não vejo problemas, eu não vejo motivos para algum tipo de, vamos dizer assim, assombramento para que uma autoridade a nível de um ministro de Estado utilize uma classe econômica na viagem internacional

Qual o impacto financeiro disso?

Hoje a quantidade de passagens emitidas em classe executiva já é residual. No ano passado, nós tivemos um total de 598 milhões em passagens aéreas e o gasto com passagem em classe executiva foi de 500 mil reais, dá 0,1%. Até porque a quantidade de autoridades que fazem jus a classe executiva já não é tão grande, já foi muito maior no passado.

E a emissão de passagem e a demora? Muita gente na administração pública se queixa de que a burocracia para a aprovação de uma viagem muitas vezes leva a pegar um preço mais elevado.

Isso melhorou muito com a modelagem que o governo passa a comprar passagem diretamente das companhias aéreas e não mais por intermédio de agências de viagem. Isso tudo é feito dentro de sistema, antigamente você tinha que aprovar isso em documentos físicos, levar até uma agência que iria emitir a passagem para aquele servidor que iria viajar. Isso e mais a situação de contingenciamento, fez com que o gasto de passagem aérea caísse de mais de R$ 1 bi em 2014 (valores corrigidos pela a inflação) para R$ 598 mi.

Mas quando a gente soma passagens aéreas e diárias, os gastos de 2017 foram de R$1,5 bi. Não é muito ainda?

Em 2014, eram R$ 2,5 bi. Então veja que houve uma redução de R$ 1 bi só neste grupo passagens e diárias entre 2014 e 2017. Tem espaço para reduzir mais, embora a gente comece a chegar em um desenho de corre (?) em que ela tende a se tornar mais estável. Talvez o grande espaço de redução já tenha sido aproveitado e hoje o que se precisa é tentar manter essa despesa controlada.

A passagem fica mais barata, o transporte fica mais barato, mas ainda são muitos funcionários. Não seria o caso de reduzir o número de funcionários públicos?

Também há uma certa estabilidade no total de servidores públicos quando você olha um horizonte mais largo. Basicamente, temos o mesmo quantitativo de servidores no final dos anos 90. Embora tenha havido uma recomposição da força de trabalho no início dos anos 2000, os concursos públicos se tornaram bem mais escassos nos últimos quatro anos e, com o volume de aposentadorias, a gente tem basicamente a mesma força de trabalho.

O governo abriu um programa de desligamento voluntário que teve uma aderência pífia. De 5000 servidores que o governo esperava que aderissem ao programa, só 76 aderiram. Foi um fracasso o programa.

Os resultados do programa acabam sendo impactados pela própria situação da economia. A gente imagina que uma situação possível de interesse por parte do servidor de aderir ao PDV seja iniciar uma atividade na iniciativa privada, ou seja, empreender. E a gente ainda tem um cenário econômico mostrando sinais de recuperação, mas uma recuperação gradual. ainda estamos saindo de um cenário de queda na cadeia produtiva.

O programa segue aberto em 2018?

O Governo deve reapresentar o programa em 2018. Nossa intenção é trazer a máquina para um patamar de eficiência em que você tenha uma quantidade de servidores que seja exatamente aquilo que o Estado precisa para funcionar.

A gente sempre teve muita dificuldade para ter acesso a dados do governo com relação a passagem, transporte e etc. Como está a transparência para esses dados? Hoje, o cidadão comum, se ele quiser saber quanto o governo gasta com passagens, com transporte. É possível sem recorrer a Lei de Acesso a Informação?

Bom ter citado a Lei de Acesso a Informação. O Brasil foi um dos últimos países, inclusive da América do Sul, a ter uma Lei de Acesso a Informação. Nossa cultura da transparência ainda é algo que está sendo construído dentro do próprio universo dos órgãos da administração pública. Não se pode confundir disponibilizar o dado com disponibilizar a informação. Muitas vezes dar acesso ao cidadão uma quantidade de dados tão grande que ele não consegue achar no meio daquela quantidade de dados aquela informação que ele busca. Então, o Ministério do Planejamento começou a investir em um outro formato. O de painéis gerenciais. Só no ano passado, a secretaria de gestão publicou três desses painéis. Um voltado, justamente, para acompanhamento dos gastos dos diversos órgãos. Isso expõe os órgãos. É o painel de custos. Permite, inclusive, que os órgãos sejam comparados entre si ou comparados com eles mesmos ao longo do tempo.

Quer dizer que você está abrindo essa caixa preta para o cidadão comum?

Mas isso também é bom para o órgão. Porque isso coloca sobre o órgão a pressão de ter um bom desempenho.

Na época do Ministro Bresser Pereira, no governo FHC, o que se pretendia era fazer um esmiuçamento da despesa até por departamento ou por sala. Por exemplo, essa sala juntando todos os salários dá uma despesa X. Mas isso não foi feito. Quando vamos chegar a esse nível de detalhamento?

Acho que o desejo do Ministro Bresser nos anos 90, com os recursos tecnológicos da época, era um desejo bastante ambicioso. Hoje já é bem mais possível. A ideia dos painéis é oferecer para o cidadão a possibilidade de agregar ou desagregar informações de acordo com o seu interesse. Então permite, por exemplo, ver um gasto do governo inteiro em um determinado item de passagem ou o gasto de um órgão ou de uma unidade vinculada àquele órgão. O painel de custeio, por exemplo, traz despesas classificadas em 83 subelementos. Talvez seja a visão mais detalhada do gasto público disponibilizado até hoje em formato gerencial.

Como será a fiscalização dos deslocamentos via Táxigov?

Nós tínhamos uma dificuldade grande em acompanhar o uso do serviço no modelo anterior. O modelo da frota própria, da frota alugada. No Táxigov, o veículo é chamado por meio de um aplicativo, do mesmo jeito que o cidadão usa para chamar esses serviços que hoje são intermediados por celular. O servidor baixa esse aplicativo, é devidamente cadastrado, ao entrar no taxi — que é um taxi normal, não existem taxis destinados só para atender o governo — e o governo não paga o valor da tarifa normal. ele tem um desconto de 14% sobre o valor da tarifa que é resultado da licitação que foi feita. Mas assim que o servidor é cadastrado e baixa o aplicativo, no momento em que ele entra no táxi e começa a viagem, o sistema recebe as informações da viagem. Nós temos acesso não só ao valor da viagem previamente como o itinerário percorrido. O mapa exibe por onde aquele carro circulou.

Então hoje, por exemplo, nesse sistema, é impossível que o servidor pare na escola para pegar o filho ou pare na escola para pegar um filho ou para na academia e deixe o carro esperando?

Eu prefiro fazer a seguinte afirmação. Se ele fizer isso, fica o registro. Tem gente fiscalizando. Nós rodamos o software em cima do total de corridas e esse software identifica destino incomuns. Às vezes, pode aparecer um destino incomum, mas com uma justificativa para isso. Por exemplo, uma atividade em Unaí. Quando fomos pesquisar, era um processo que a AGU era parte e o servidor da AGU foi acompanhar a audiência em Unaí e foi em um taxi. Saiu caro? Sim, essa viagem em particular. Mas em média, sai bem mais barato. É uma economia de mais de 60%.

As redes sociais ajudam a controlar? Hoje é muito fácil ver um carro do governo e fotografar se ele tiver em um lugar inapropriado, fora do contexto de trabalho. As redes sociais têm ajudado vocês a monitorar.

Sim. Elas desempenham esse papel, embora esses carros brancos do governo eles tendem a desaparecer de Brasília. Eles todos serão substituídos pelos táxis e, como os táxis são iguais, vai ser difícil de diferenciar quando é um serviço do governo e quando é um serviço privado. Daí a importância de um sistema por trás que faça o acompanhamento detalhado desse uso. Os veículos do governo que permanecerem, tudo isso deve ser objeto de conteúdo social sem dúvida.

Vocês não diminuíram os cargos de indicação política. Os cargos de livre provimento. É necessário escolher entre os funcionários de carreira, mas ainda é uma indicação política. Não é o caso de reduzir efetivamente esses cargos?

Se faz uma grande confusão com esses números. Houve uma grande redução de 2.500 DAS. Esses foram simplesmente extintos e transformamos 1.400 DAS em funções exclusivas de servidores públicos dos níveis 1 ao 4 em funções que só podem ser exercidas por servidores concursados. O valor dessa função já é calculado em cima de 60% do valor do antigo DAS além do salário do cargo efetivo. Pode acontecer essa situação de o servidor ser recrutado por um cargo político? Se o ministro é uma indicação política, pressupõe-se que todos os cargos do ministério podem passar pelo crivo daquele dirigente. Então essa situação potencialmente vai acontecer assim. O passo seguinte seria estabelecermos critérios objetivos para a ocupação desses cargos, mesmo que direcionados aos servidores de carreira. Mas eu acho importante esse movimento de aumentar o espaço, a presença dos servidores efetivos e reduzir o espaço daqueles servidores que não tem vínculo nenhum com a administração porque via de regra são aqueles que ficam menos tempo, e esta mudança constante de quadros é o que faz com que a memória institucional seja perdida.

O que fazem os países desenvolvidos é que se troca o ministro e com ele meia dúzia de cargos, mas no Brasil são centenas — muitas vezes chegando a milhares. Quando é que a gente vai ter uma situação de primeiro mundo no serviço público?

Bom, muita gente fala “nós temos 24 mil cargos no grupo DAS e as funções comissionadas do poder executivo” são essas a que eu me referia. Dentro dessas 24 mil, os cargos mais altos, que são de secretários e diretores, os DAS 5 e 6, representam 5 mil. Então, 19 mil cargos estão no nível técnico do DAS 1 ao 4. E, mesmo desses 5 mil, no ano passado nós publicamos um decreto que permitia 60% desses cargos devem ser ocupados por servidores de carreira. E aí vale um destaque: desde a Constituição de 88, nunca havia sido definido percentual de educação nesse nível de cargo. Sendo que o ministro tem que olhar para seu secretariado e 50% do seu secretariado. Isso seria em tese um espaço que ele tem para as nomeações políticas.

Ainda não é muito secretário?

Muito ou pouco depende muito do universo que a gente considera. Estamos falando de um governo que administra as dimensões do Brasil, com a quantidade de serviço que a gente administra e que são serviços federais, o Brasil é o país que tem a maior concentração de serviços executados pela união. O que é feito no Brasil, em outros países é executado pelos governos estaduais, pelos municípios. Nós temos uma Federação em que há uma forte concentração de atividades no Governo Federal.

O governo tem anunciado muitos cortes e aumento de impostos, e o cidadão se sente desprotegido. Essa economia que tem sido feita, em termos de redução de benefícios dos servidores, isso tem algum impacto? Dá um alívio na vida do cidadão comum? Sobra dinheiro?

Nesta situação em que o país se encontra, na situação do ajuste fiscal, qualquer economia é bem-vinda e tem que ser perseguida independentemente da sua escala e impacto das contas globais. Uma economia de R$ 20 milhões no Táxigov não tem efeito quase nenhum no déficit fiscal das contas globais do governo. Só o déficit da Previdência, por exemplo, cresce R$ 115 mi por dia, e o táxi-gov tem o potencial de economia, aqui nos ministérios, de R$ 20 mi por ano. A redução dos quase 20 mil veículos de autoridades vai ter um impacto de pouco mais de R$ 30 mi por ano. Mas esses recursos podem ser direcionados para atividade finalística. Essa é a grande equação a ser resolvida. Algumas atividades importantes do Estado, como por exemplo o Combate à Violência Contra Mulher, tem um orçamento de R$ 30 mi por ano. Programa de Formação de Atletas de Alto Desempenho, que é aquilo que pode tornar nosso país uma potência esportiva, tem o orçamento de R$ 7 mi por ano. A economia com o táxi pode dobrar o orçamento de um programa desse. Isso não está acontecendo hoje porque o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias tem ocupado todo esse espaço. Se nós conseguirmos controlar o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias, é importante que o crescimento administrativo também esteja controlado para que o aumento na arrecadação possa ser direcionado para a atividade fim.

Como está a projeção para 2018?

Esse ano ainda é um ano que o espaço para recomposição da força de trabalho é extremamente reduzido, as poucas vagas que teremos abertas são basicamente para a substituição dos terceirizados, até para cumprir um pouco a missão que o ministério com os órgãos de controle. A ideia é que, a medida que tivermos uma situação fiscal e a regularização das contas públicas, a gente possa retomar um calendário de concursos para atividades essenciais ao Estado, e isso seguramente é só de 2019 para frente.

São quantas vagas que podem ser substituídas de terceirizados desses termos de conduta que vocês fizeram?

Esse número é publicado na Lei de Diretrizes Orçamentárias, o espaço já fica pré-definito, não é algo que temos a liberdade de dentro do exercício fazer alterações.

As nomeações para concursos que estão em andamento já são garantidas?

Sim, com o detalhe desse ano, por ser um ano eleitoral, as nomeações tem que acontecer até 30 de junho. Todo ano que temos eleições gerais, não se pode realizar nomeações no segundo semestre, só depois das eleições.

As pessoas que forem aprovadas nesses concursos certamente serão nomeadas?

Depende da situação do concurso. Todo concurso pode ter uma situação de judicialização em qualquer de suas etapas.

Em relação a Reforma da Previdência, esses órgãos não vão ficar esvaziados, por conta dos acordos coletivos?

Duas preocupações que nós temos: a primeira é de agregar a esses órgãos o máximo que pode ter de automatização de processos da tecnologia da informação, muito poderia ser disponibilizado em canais digitais – inclusive o INSS tem um bom canal –; e nós temos que também pensar na melhoria da localização da força de trabalho de modo geral. Qualquer empresa que queira participar de uma licitação ela tem que se cadastrar e, ainda hoje, com todos recursos que temos disponíveis, os empresários têm que levar os documentos pessoalmente até um ponto de atendimento onde um funcionário vai checar aquela informação e verificar se a documentação está OK para que a empresa possa ser cadastrada. É uma atividade altamente burocrática de verificar papel, então até o final do primeiro semestre, teremos o CCAF totalmente digital. E os 4 mil servidores que trabalham nessa área? Serão realocados para outras atividades.

A procura pelos concursos, que é muito grande, não demonstra que a remuneração dos servidores tá acima do que seria razoável, acima da iniciativa privada?

Em alguns casos, sim. Principalmente nos concursos de nível médio, que tendem a se tornar cada vez mais escassos. Isso é talvez um dos problemas mais sérios, essa pequena amplitude entre o salário de ingresso e o de final de carreira. Isso acaba provocando o desestímulo dos servidores de carreira.

Há mais casos em que a tecnologia vai engolir determinadas funções no serviço público?

Acho que é um processo natural. Tivemos, no ano passado, um ato que eliminou 61 mil cargos que não fazem sentido na realidade de hoje. O fato é que algumas ocupações vão sumindo e outras vão deixando de existir, só que essa dinâmica vai se tornar cada vez mais intensa. O que temos investido fortemente não é focar na atividade que deixará de existir, mas no potencial de ofertas de serviço digitais. E o governo ainda está muito atrasado nisso. Hoje nós temos, nos serviços federais, menos de 40% que são oferecidos nos serviços digitais.

Dá para dizer que nessa dinâmica, a gente não vai ter mais o número de concursos públicos que já tivemos um dia?

É um exercício quase de futurologia, difícil de quantificar. O que acredito é que os perfis de ingresso devem ser alterados substancialmente. A tendência é buscarmos perfis cada vez mais generalistas, porque a própria atividade vai mudando. Além disso, ainda vão cobrar mais no termo de aprendizado e na formação ao longo da carreira.

É muito difícil se demitir no serviço público. O senhor acha que isso pode mudar?

Acho que precisa mudar. Hoje nós temos processos de avaliação que são bastante antigos, precisam ser revistos e redesenhados. Associar essa estratégia de avaliação em qualificação do servidor público, não posso cobrar se não ofereço pra ele uma trajetória de carreira e desenvolvimento.

Quanto os servidores estão em condições de se aposentarem que podem se aproveitar dessa reforma da previdência?

Se fala em vários números, um deles que teremos 25% dos servidores em condição de se aposentar, o que não quer dizer que vá acontecer. Até porque a estrutura remuneratória dessas carreiras ainda é muito amparada em gratificações que não são carregadas por uma aposentadoria. Por isso, muitos postergam a decisão de aposentar.

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