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Correio Braziliense

Brasileiro ainda corta gastos com saúde, celular e tevê a cabo

Segundo especialistas, isso ainda pode ser reflexo da crise, que ensinou a população a economizar e a priorizar o necessário


postado em 18/02/2018 08:00

O servidor federal Alexandre Ferreira com as filhas, Maressa e Isadora:
O servidor federal Alexandre Ferreira com as filhas, Maressa e Isadora: "Educação é investimento de longo prazo" (foto: Arthur Menescal/Esp.CB/D.A. Press)
 
A economia está deixando a recessão para trás e os indicadores de consumo estão melhores, mas os dados sobre a contratação de serviços como planos de saúde, TV a cabo e telefonia móvel mostram que o brasileiro ainda está disposto a cortar gastos para manter o orçamento sob controle. Em boa medida, segundo os especialistas, isso ainda pode ser reflexo da crise, que ensinou a população a economizar e a priorizar o necessário e a descartar tudo o que não seja considerado essencial.

Nos últimos 12 meses, o número de contratos de TV por assinatura caiu 5%, fechando 2017 com 17,9 milhões de contas ativas. Apenas de novembro para dezembro, foram 125,7 mil clientes perdidos. Nas operadoras de telefonia móvel, por sua vez, a redução foi de 7,5 milhões de linhas em um ano, uma queda de 3,11%. Somente em dezembro, os cancelamentos chegaram a 2,6 milhões. Nem os planos de saúde escaparam. De 2014 até agora, a Agência Nacional de Saúde (ANS) registrou mais de 3 milhões de convênios desativados.

O consultor financeiro Jônatas Bueno destaca que a economia brasileira ainda não deixou definitivamente a zona de perigo. “Há uma situação de ameaça à macroeconomia, que depende muito da vontade política, das reformas, das eleições, de quais serão os candidatos. Essas incertezas deixam aberta a possibilidade de que as coisas voltem a piorar. Efetivamente, não estamos em um momento de bonança”, explica.

“As pessoas passaram a gastar menos. Esse é um dos legados da crise”, ressalta Bueno. “O que era considerado uma simples comodidade foi cortado, porque as famílias têm limites orçamentários definidos. Eu acho que é um cenário sem volta. As pessoas perceberam o que é desnecessário e onde devem apertar”, afirma.

Tecnologia


O consultor lembra, porém, que o desenvolvimento da tecnologia também está mudando os hábitos dos brasileiros, o que torna alguns serviços menos atraentes, ou quase obsoletos. Hoje em dia, por exemplo, as pessoas podem se comunicar por meio de aplicativos de mensagem, que são mais baratos do que uma chamada telefônica convencional.

“Em vez de ligar para os amigos, as pessoas mandam áudios ou usam mensagens de texto ou de vídeo, muitas vezes sem ter um plano de dados, apenas por meio de wi-fi. Ou seja, em vez de manter um telefone fixo ou mesmo um plano de celular, é muito mais barato usar a internet para se comunicar. A tecnologia tornou o serviço móvel mais barato, e o telefone fixo ficou quase irrelevante, a não ser que a pessoa tenha um comércio”, frisa.

O serviço por streaming é outra tecnologia que tem ajudado a deixar a programação na TV por assinatura para trás. “Ela passou a sofrer o mesmo desinteresse que a TV aberta. No tablet, no celular, no computador ou em outros dispositivos, o cliente pode ter todo o conteúdo que quer sob demanda. Pela falta de modernização, a TV por assinatura tem se tornado menos atrativa”, analisa Bueno.

O gerente de Universalização e Ampliação do Acesso da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Eduardo Jacomassi, observa que, embora seja notória a diminuição de serviços de celular e de pacotes de TV a cabo, as contratações de banda larga têm crescido, o que reforça a ideia de que as mudanças tecnológicas estão por trás da queda no uso de determinadas mídias. “Plataformas como WhatsApp e Netflix influenciam muito nisso. É necessário um bom pacote de dados para poder utilizar esses serviços”, argumenta.

Em relação à telefonia fixa, Jacomassi reforça que a diminuição é constante. “Quase ninguém usa telefone fixo, o ambiente econômico é influenciado pela modernização das coisas e uso de celulares”, afirma. Por fim, Jacomassi explica que a população está cada vez mais inclinada a utilizar serviços que demandam internet, o que pode implicar uma nova forma de comercialização desses tipos de serviço.

Risco


É no âmbito da saúde, no entanto, que os efeitos da crise se apresentam de forma mais clara. Se uma pessoa pode abri mão do celular ou da TV a cabo sem consequências mais graves, com a saúde é diferente. Ficar sem atendimento médico pode deixar sequelas ou mesmo colocar a vida em risco. Bueno destaca que as pessoas podem até achar que plano de saúde não é tão relevante, ou entender que têm condições de fazer uma reserva financeira para bancar atendimento médico por conta própria. Não é, porém, o que ele recomenda. “O brasileiro não tem o costume de poupar. Ter um plano é importante, porque, infelizmente, não dá para depender do serviço público de saúde, que não consegue atender à população com a presteza necessária”, opina.

Desemprego


Segundo José Cechin, diretor executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde), o cancelamento de mais de 3 milhões de contratos entre 2014 e 2017 se deve ao aumento do desemprego nos últimos anos. Mais de dois terços das pessoas que ficaram desprotegidas caíram nessa situação ao perderem os empregos e, em consequência, o plano empresarial de que dispunham. “Eles não tiveram escolha: perderam o emprego, perderam o plano de saúde”, diz Cechin. Os demais tinham planos que custeavam com seu próprio dinheiro e ficaram sem condições de manter a despesa ao se verem desempregados. “Os reajustes têm sido altos e a renda das pessoas mão acompanha.”

É uma situação que deixa as pessoas em risco por adotarem comportamentos nem sempre recomendáveis, como a automedicação. A diarista Edna Vieira de Souza, 44 anos, foi  obrigada a cancelar o plano de saúde há cerca de dois meses, após sair de seu antigo emprego, em uma pizzaria da cidade. Atualmente, quando precisa de algum atendimento médico, acaba por recorrer a remédios que já usou sob recomendação em outras situações. “Nesses dias, estava sentindo mal-estar e dor de cabeça. Na última vez em que senti isso, o médico do plano me indicou um remédio para sinusite. Agora, comprei de novo e tomei, mesmo sem ir a um especialista”, relata.

"O que era considerado uma simples comodidade foi cortado, porque as pessoas têm limites orçamentários definidos. Eu acho que é um cenário sem volta. As pessoas perceberam o que é desnecessário e onde devem apertar”
Jônatas Bueno, consultor financeiro

Tesoura nos gastos


A crise dos últimos anos levou o brasileiro a eliminar ou reduzir gastos considerados não essenciais 

TV por assinatura

O ano de 2017 terminou com 17,9 milhões de contratos ativos, uma queda de 5% em relação ao ano anterior. As empresas perderam 938,7 mil clientes. 
  • A Claro teve a maior redução, com 724,2 mil contratos cancelados (-7,39%)
  • A Vivo teve 131,4 mil cancelamentos (-7,67%)
  • A Algar Telecom perdeu 23,9 mil clientes (- 24,34%)
  • A Nossa TV cancelou 2,7 mil contratos (- 2,14%).
  • Já a Oi obteve acréscimo de 205,2 mil usuários (+15,73%)
  • A Sky ganhou 109,6 mil assinantes ( 2,09%).
  • Nos últimos 12 meses, os três estados com o maior número de assinantes tiveram redução no número de contratos:

Estado Cortes Redução %

São Paulo 447,1 mil -6,21
Rio de Janeiro 97,8 mil -3,83
Minas Gerais 38,3 mil -2,41

Telefonia móvel 

No fim do ano passado, havia 236,49 milhões de linhas em operação no país.

148, 51 milhões 
de linhas eram pré-pagas

87,98 milhões
eram pós-pagas

Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018 houve redução de 7,58 milhões de linhas móveis, o que representa uma queda de 3,11%.
Somente em dezembro, comparado com o mês anterior, o serviço móvel pessoal apresentou recuo de 2,6 milhões de linhas.
Em 12 meses, as linhas pré-pagas caíram 9,83% e as pós-pagas subiram 10,85%.

Planos de Saúde

Desde 2014, a Agência Nacional de Saúde (ANS) registra queda no número de conbtratos de convênios médicos no Brasil.

Beneficiários de Ano planos privados 
(em milhões)

2014 50,38
2015 49,21
2016 47,68
2017 48,30

Fontes: Agência Nacional de Saúde (ANS); Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel);  consultor financeiro Jônatas Bueno


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