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Economia

Retomada pode não acontecer sem reforma da Previdência, diz economista

Economista Alessandra Ribeiro diz que, se reforma da Previdência não for aprovada em 2019, retomada da economia poderá ser comprometida



A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, pretende manter a previsão de crescimento de 2,8% para 2018, mesmo com o novo adiamento da reforma da Previdência. Ela lembrou que o mercado já não contava com a aprovação da proposta neste ano, mas destacou que, se as mudanças no sistema de aposentadorias não forem feitas em 2019 pelo novo presidente eleito, o quadro fiscal pode se agravar e comprometer a recuperação da economia. ;A reforma da Previdência é necessária, mas não é suficiente;, disse.

[SAIBAMAIS]Pelas estimativas de Alessandra, se o ritmo atual de retomada for mantido, apenas em 2022 o Brasil retornará aos níveis de 2014 e nem daqui a 10 anos será um país desenvolvido. ;O tombo foi grande;,disse, referindo-se à recessão que fez o país encolher 7% entre 2015 e 2016. ;No fundo, essa recessão fez a gente perder boa parte de todas aquelas conquistas de 2005 a 2010;, emendou. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida pela economista ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense e da TV Brasília.

O governo pintou um cenário catastrófico caso a reforma não fosse votada, dizendo, inclusive, que as próximas gerações poderiam ficar sem aposentadoria. Isso pode ocorrer?
De fato, essa é a realidade. A situação é bem complicada sem a reforma da Previdência. Mesmo essa reforma mais desidratada que eles estavam discutindo já seria positiva. Seria o primeiro passo, mesmo cheio de remendos, com necessidades de reformas adicionais. Agora, fica tudo para 2019. A situação fica muito complicada. Não só para a Previdência, mas do ponto de vista fiscal.

O próximo presidente eleito vai ter condições políticas de aprovar a reforma da Previdência? Ele conseguiria construir uma base de apoio para isso?
Depende muito do governo que vai ser eleito. Se vai ser um governo com apoio para realmente encaminhar a reforma e outras coisas. A reforma da Previdência é necessária, mas não é suficiente. Agora, com um governo sem base, com uma eleição apertada e um Congresso polarizado, seria bem difícil encaminhar a reforma.

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Se a reforma é tão importante, por que há tanta resistência na sociedade brasileira?
Acho que o governo não soube comunicar o que, de fato, estava por trás da reforma. Tinha uma primeira abordagem muito relacionada ao ajuste das contas públicas, e a população não conseguia entender aquilo direito. A partir do momento em que ele mudou o enfoque, que era para combater privilégios, a diferença de aposentadoria entre o funcionalismo público e o setor privado, começamos a perceber uma mudança na opinião da população, em geral. O governo perdeu muito tempo com esse enfoque inicial errado. E também teve todo o problema da própria sobrevivência do governo Temer.

A média de aposentadoria do INSS é em torno de R$ 1,5 mil, enquanto, no setor público, passa de R$ 20 mil. Há uma transferência de renda?
Esse é o problema. Não faz sentido nenhum o setor privado ter 70% dos aposentados com salário mínimo enquanto o setor público tem uma média de aposentadoria muito mais elevada e com todos os privilégios. É transferência de renda pura. É isso que tem que ser explicitado, porque o custo será alto sem a reforma. E, se o governo não conseguir encaminhar a agenda em 2019, a economia volta a poder descarrilar novamente.

Esse é um tema que vai ser bem debatido na campanha eleitoral?

Não vai ter muito como escapar. Os mais populistas vão dizer que não vão votá-la, alegando que haverá perda de direitos. Caberá aos candidatos, principalmente da centro-direita ; que tendem a apanhar um pouco mais nessa campanha ;, colocar o problema, explicar a situação, apresentar números e mostrar transparência.

Para o mercado financeiro, qual é o candidato ideal para as eleições?
O mercado quer um candidato que defenda uma política econômica responsável, a manutenção do que foi implementado nos últimos tempos, com uma equipe de credibilidade. E um governo que tenha uma agenda de reformas, mas não é só a da Previdência. O mercado espera isso, porque, de fato, seria positivo para a economia brasileira.

Há uma crítica de economistas de que as 15 medidas que o governo anunciou como plano são requentadas, um pacote de factóides. É isso mesmo?
No grosso, não tem nada muito novo lá. São medidas boas, mas não vão ter um grande efeito para a atividade econômica neste ano, por exemplo. Não muda o nosso cenário. Para 2018, projetamos um crescimento de 2,8%. Mas, se não fossem essas incertezas todas, certamente haveria um crescimento ainda melhor, em torno de 3%.

E a recuperação do tombo que a gente levou na recessão? Quando é que o Brasil vai crescer de fato e virar um país mais desenvolvido?
A economia só vai retornar em 2022 ao patamar em que estava em 2014, mesmo com essa recuperação. O tombo foi grande. Agora, economia desenvolvida, como a gente gostaria de ter, isso não aparece no nosso cenário de 10 anos. No fundo, a recessão fez a gente perder boa parte de todas aquelas conquistas do começo de 2005 a 2010.

Sem a reforma da Previdência, como ficam o teto dos gastos e a meta fiscal?
O teto é difícil de cumprir, mas é factível. Estamos fechando nossos números prevendo um deficit de R$ 135 bilhões para o governo central. Ou seja, o governo vai cumprir a meta fiscal, que estipula deficit de até R$ 159 bilhões, mas o quadro tende a piorar em relação ao saldo negativo de R$ 124,4 bilhões de 2017. Só que o governo não tem muito o que fazer, e o problema maior das contas públicas precisará ser resolvido em 2019, sem falta.