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Correio Braziliense

Após proibição do amianto, Eternit vai pedir recuperação judicial

Alvo de polêmica nas últimas décadas, amianto foi proibido pelo Supremo Tribunal Federal em novembro do ano passado. Para especialista, companhia deveria ter partido para outra matéria-prima


postado em 21/03/2018 06:00

Segundo a Eternit, houve uma queda na demanda e nos preços do amianto, o que afetou a rentabilidade do negócio (foto: Gustavo Henrique Denzin Tonoli/divulgação - 13/7/12 )
Segundo a Eternit, houve uma queda na demanda e nos preços do amianto, o que afetou a rentabilidade do negócio (foto: Gustavo Henrique Denzin Tonoli/divulgação - 13/7/12 )


Uma das marcas mais tradicionais do setor de materiais para construção, a Eternit informou à BM&FBovespa, na manhã de ontem, que recorrerá à recuperação judicial, inclusive de suas empresas controladas. O objetivo, segundo a companhia, é tentar manter suas atividades, apesar de estar proibida no Brasil desde o fim do ano passado a produção que tenha como matéria-prima o amianto.

A Eternit alegou no fato relevante que a decisão foi tomada em função dos efeitos negativos da economia no setor da construção civil, as discussões legais sobre a extração, industrialização, uso, comercialização, transporte e exportação do amianto, que, segundo o texto, vem “limitando o acesso da companhia à concessão de novas linhas de crédito”. Além disso, informa a empresa, houve uma queda na demanda e nos preços do amianto, nos mercados nacional e internacional, o que afetou a rentabilidade do negócio.

Em novembro passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu toda a atividade ligada ao amianto na sua variedade crisotila — extração, industrialização, distribuição e comercialização. Essa matéria-prima é usada principalmente na fabricação de telhas e caixas-d’água e a extração e o manuseio durante o processo de produção causam doenças graves. Por isso, foi banida no Brasil.

Apesar de a disputa na Justiça ser antiga, a Eternit preferiu apostar na possibilidade de o produto ser liberado para exportação. Antes da decisão do STF, a empresa havia informado ao mercado que deixaria de usar o amianto até o fim de 2018. No entanto, continuaria a explorar o mineral, por meio da Sama, uma de suas empresas controladas, para exportar produtos para países que não proibissem o uso da matéria-prima.

Paulo Henrique Tavares, professor titular na área de engenharia de materiais do Ibmec-BH, avalia que faltou à Eternit tomar uma decisão estratégica de abandonar o amianto quando o produto começou a ser proibido em vários mercados internacionais e se iniciaram as primeiras denúncias no Brasil sobre os danos causados à saúde. “Deveriam ter investido em novas tecnologias, como outros fizeram”, avalia.

O especialista lembra que hoje os dois principais produtos que antes eram feitos com amianto – caixa-d’água e telhas – são fabricados com materiais à base de plástico, como o polipropileno e o polietileno.

“Claro que há um custo quando se decide fazer a transição de um tipo de produto para outro, já que é preciso investir em pesquisas, maquinário e treinamento. Mas esse custo se dilui com o tempo. Teria sido a forma de preservar a empresa”, avalia. Por se tratar de um assunto polêmico há décadas, Tavares acredita que as empresas que usavam o amianto, como a Eternit, deveriam ter se preparado com o tempo para fazer a transição para outra matéria-prima aos poucos, o que minimizaria o impacto dos investimentos.

Hoje em dia, países da União Europeia, Estados Unidos, Chile, Argentina e El Salvador fazem parte do grupo que baniu o uso do amianto. Mas ainda estão entre os importadores o Vietnã, Venezuela e África do Sul.

O uso do amianto, acrescenta o professor do Ibmec, é o tipo de decisão que compromete não apenas o futuro financeiro de uma empresa, mas também a obtenção de certificações nacionais e internacionais, já que muitas delas levam em consideração aspectos ambientais e sociais na hora de creditar uma companhia. “O mal que o amianto faz não é uma especulação, é um fato. É como acontece com a indústria do cigarro. Não dá para dizer que os casos de câncer não foram causados pelo mineral”, adverte. A empresa foi procurada pela reportagem, mas não retornou o contato.


  • Empresas que fazem parte do Grupo Eternit

    » Sama S.A. – Minerações Associadas, Tégula Soluções Para Telhados Ltda.
    » Eternit da Amazônia Indústria de Fibrocimento Ltda.
    » Precon Goiás Industrial Ltda.
    » Prel Empreendimentos e Participações Ltda.
    » Companhia Sul-Americana de Cerâmica S.A. ("Grupo Eternit")

  • Mineral causa câncer no pulmão

    A discussão sobre o uso do amianto se arrastou por anos em diferentes esferas da Justiça, até chegar ao STF. A proibição foi feita com base em dados que mostram que a matéria-prima é cancerígena e coloca em risco os trabalhadores que a manuseiam. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já se pronunciou sobre o tema. Segundo a OMS, o ato de respirar as fibras do amianto é suficiente para desenvolver um tipo de tumor maligno no tecido que envolve os pulmões, além da doença chamada de asbestose, ou "pulmão de pedra", que é responsável por endurecer o pulmão e levar à morte lentamente por falta de ar. Segundo a entidade, o amianto causa cerca de 100 mil mortes por ano no mundo.

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