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Correio Braziliense

Grandes empresas apostam alto em startups

Corporações de diversos setores investem na criação de espaços de desenvolvimento de inovações para encontrar soluções mais rápidas para seus negócios e para o mercado


postado em 20/04/2018 06:00

Espaço da Órbi Conecta, que surgiu da união de forças da MRV, Banco Inter e Localiza(foto: Divulgação)
Espaço da Órbi Conecta, que surgiu da união de forças da MRV, Banco Inter e Localiza (foto: Divulgação)

São Paulo — Cada vez mais as grandes empresas percebem que a aproximação com as startups pode ser um grande negócio. Só nos cinco últimos meses, foram lançados dois grandes projetos — o Órbi e o inovaBra — e há muitos outros em gestação.

Bancos, companhias do setor de construção, mobilidade e seguros estão entre aqueles que decidiram investir em estruturas para fazer parte desse novo ecossistema de negócios. Seja por meio de aportes de capital (a chamada aceleração) ou a criação de espaços de compartilhamento de demandas e geração de ideias, corporações como Itaú, Bradesco, Banco Inter, MRV, Porto Seguro e Localiza apostam alto nas startups.

Uma das investidas mais recentes na parceria entre empresas e startups é o Órbi Conecta, em Belo Horizonte, que surgiu da união de forças da MRV, Banco Inter e Localiza. O espaço foi inaugurado há cinco meses e, segundo Anna Martins, diretora executiva, tem como proposta a conexão entre grandes empresas e startups.

O projeto surgiu depois de um representante do San Pedro Valley, comunidade de startups da capital mineira, procurar o Banco Inter sugerindo que houvesse algum tipo de solução para que essas pequenas empresas também usassem as vantagens da conta digital, sem tarifas, que na época era oferecida apenas aos clientes pessoa física.

Para as empresas iniciantes, diz Anna, toda economia é bem-vinda, inclusive nas despesas com bancos. Cerca de 200 startups foram então à instituição financeira apresentar suas demandas. “O banco achou interessante aquela interação e percebeu que não precisaria criar um hub para juntar as startups. Elas já estavam interagindo com o banco e desenvolvendo inovações”, lembra a diretora do Órbi.

A relação se estreitou e João Vitor Menin, presidente do banco, percebeu, depois de ver alguns projetos em São Paulo, que também poderia investir no segmento. Depois de conversar com a MRV e a Localiza, surgiu o Órbi, um espaço de conexão entre as startups e as empresas – tanto as patrocinadoras do projeto quanto aquelas que queiram contratar serviços por demanda.

Atualmente, há 12 startups no espaço, mas as interações também acontecem no ambiente virtual. Segundo Anna, a ideia é que outras empresas se interessem em patrocinar o projeto para desenvolver soluções para seus negócios, assim como o Banco Inter fez com a startup Beer or Coffee, que aglutina cerca de 400 espaços de coworking no país e oferece aos clientes a possibilidade de pagar uma tarifa única para que usem qualquer um deles. Até agora, segundo Anna, cerca de 450 empresas passaram pelo Órbi e 15 contratos já foram assinados entre as companhias e as startups.

 

inovaBra habitat foi lançado pelo Bradesco para geração de negócios de alto impacto(foto: Egberto Nogueira/Divulgação)
inovaBra habitat foi lançado pelo Bradesco para geração de negócios de alto impacto (foto: Egberto Nogueira/Divulgação)
 

Curadoria

O Bradesco é outro exemplo de grande grupo que decidiu estreitar a relação com as startups e agregou ao seu projeto universidades, investidores, grandes corporações e os seus principais parceiros tecnológicos. Em fevereiro, o banco lançou em São Paulo o inovaBra habitat, espaço de 22 mil metros quadrados dedicado à geração de negócios de alto impacto baseados em tecnologias digitais disruptivas, como Blockchain, Big Data e Algoritmos, Internet das Coisas, Inteligência Artificial, Open API e Plataformas Digitais. A ideia é ter um ambiente de conexão de pessoas e corporações, tanto para o desenvolvimento de soluções quanto para investidores em busca de bons projetos.

Além de servir de espaço de coworking, o inovaBra oferece o apoio de curadoria especializada, incluindo a integração entre demanda, tecnologia e recursos financeiros, com o objetivo de incentivar a inovação. Por enquanto o lugar é ocupado por 600 “habitantes”, como são chamados os parceiros.

Paralelamente, o Bradesco inaugurou recentemente o inovaBra lab, um laboratório colaborativo com o objetivo de acelerar o desenvolvimento de inovações do banco em conjunto com parceiros de tecnologia. O espaço abrigará experimentações que surgirem no inovaBra habitat.

Fernando Freitas, superintendente executivo do Departamento de Inovação do Bradesco, explica que a relação entre empresas e startups ajuda a complementar a oferta de produtos e serviços para os clientes. “O banco não teria como fazer uma série de desenvolvimentos porque simplesmente não é o nosso negócio, por isso a importância de estreitar a relação com quem produz esse tipo de conhecimento”, diz.

Algumas dessas soluções já estão em prática no Bradesco. Uma delas, desenvolvida pela startup Qranio, permitiu criar uma plataforma de treinamento dos funcionários. Outra, a MEI Fácil, que ajuda na forma formalização e no dia a dia administrativos dos microempreendedores individuais, serviu para que a instituição financeira se aproximasse desse nicho.

Além do inovaBra habitat e o inovaBra lab, a instituição financeira conta com um fundo de R$ 100 milhões para acelerar startups, que pode receber aportes entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões, com o teto de R$ 20 milhões. Por enquanto foram desembolsados, segundo Freitas, 20% desse total, mas nos próximos dois meses serão investidos mais 70% na participação em startups.

Cubo, do Itaú, foi um dos primeiros espaços a oferecer um ambiente favorável a startups. Inaugurado em 2015, em São Paulo, o lugar conta hoje com 55 startups residentes (juntas, elas faturam cerca de R$ 200 milhões) que já receberam mais de R$ 150 milhões em investimentos. Além de abrigar negócios promissores, o Cubo realiza pelo menos três eventos por dia para o debate de ideias e troca de informações. Desde a inauguração, o espaço já recebeu 65 mil pessoas.

Diretor de tecnologia do Itaú e responsável pelo Cubo, Lineu Andrade conta que no segundo semestre o projeto passará a ocupar um novo endereço, quatro vezes maior que o atual, numa área de 20 mil metros quadrados. “Queríamos criar um hub de empreendedorismo, que reunisse universidades, empreendedores e grandes corporações. Temos startups atuando nas áreas de varejo, inteligência artificial, RH, agribusiness, saúde e fintechs. É a oportunidade para que as empresas conheçam novas soluções de forma antecipada”, afirma.

Flavio Pripas, diretor do Cubo Itaú, acredita que o espaço garante a possibilidade de geração de valor tanto para as empresas que buscam soluções quanto para as startups. “Nossa vocação é fazer as conexões entre aqueles que precisam e buscam inovações digitais e aqueles que as desenvolvem”, resume.

 

O Cubo, do Itaú, já conta com 55 startups; juntas, faturam cerca de R$ 200 milhões(foto: Solange Macedo/Divulgação)
O Cubo, do Itaú, já conta com 55 startups; juntas, faturam cerca de R$ 200 milhões (foto: Solange Macedo/Divulgação)
 

Psicologia em vídeo

Na Porto Seguro, o relacionamento com as startups fica debaixo do guarda-chuva da Oxigênio.  Segundo Maurício Martinez, gerente da área, o espaço de 1,3 mil metros quadrados, em São Paulo, já fez nascer produtos e serviços que estão sendo usados pela companhia. Um deles é o atendimento psicológico por vídeo, que começou sendo oferecido aos funcionários da seguradora e passará a fazer parte das opções de atendimento aos clientes da área de seguro-saúde.

“Esse tipo de investimento é importante para as grandes empresas porque dá agilidade ao desenvolvimento de soluções. Oferecemos uma espécie de padrinho, que é um executivo de nível mais alto, que acompanha a empresa por três meses. Depois dessa mentoria, existe a possibilidade de um representante da startup passar mais três meses no Vale do Silício (no estado americano da Califórnia)”, detalha Martinez.

Além da mentoria, as startups selecionadas, dependendo do programa do qual fazem parte, recebem aportes da Oxigênio, que pode chegar a R$ 600 mil no ano. Até agora, 29 startups já passaram pelo programa da Porto Seguro.

Carol Morandini, executiva de startups e desenvolvimento de negócios da Telefônica, conta que a companhia atua em várias frentes. Além de fazer aportes para ter uma participação de até 7% nos negócios, a empresa tem dentro da Telefônica Open Future um programa que contrata consultorias e oferece mentorias e treinamentos em diversas áreas, como marketing digital e vendas, além de rodadas com investidores. “Essa aproximação com as startups é importante para o ambiente de negócios. Quem não inova perde mercado ou simplesmente desaparece”, afirma Carol.

 

(foto: Rafael L. G. Motta/Divulgação; Solange Macedo/Divulgação e Fernando Martinho/Divulgação)
(foto: Rafael L. G. Motta/Divulgação; Solange Macedo/Divulgação e Fernando Martinho/Divulgação)
 

Do impacto social à ponte com companhias de peso

O ecossistema das startups oferece diferentes oportunidades para diferentes perfis de negócios. A aceleradora Artemisia só investe em produtos e serviços que tenham algum tipo de impacto social, explica Paula Sato, gerente de projetos. “É preciso ter a rentabilidade como qualquer outro empreendimento, mas não se pode fugir da busca por soluções que ajudem populações de baixa renda, seja nas áreas de educação, saúde ou alimentação”, diz.

A Artemisia costuma fazer o trabalho de procurar os projetos mais recentes que atendam a essa demanda para que participem da seleção de startups. No último processo de seleção, de 700 propostas, foram selecionadas 10 para fazer parte do programa de aceleração, que dura de cinco a seis meses e inclui a disponibilidade de conteúdo para o negócio, realização de workshops e o acompanhamento por profissionais.

A Liga Ventures tem uma proposta bem diferente ao se apresentar como uma aceleradora corporativa que faz o “casamento” entre startups e grandes companhias, como a Porto Seguro, a Mercedes-Benz, a AES Brasil e a Cisco. “Ouvimos essas empresas, entendemos quais são suas demandas e ouvimos o ecossistema para saber o que mais se adequa a essa necessidade. A partir daí, fazemos a seleção de qual startup pode atender melhor”, diz Rogério Tamassia, cofundador da aceleradora. Ele está otimista com o ambiente de negócios no Brasil. “É um momento de efervescência. Vemos negócios nascendo todos os dias, com grandes empresas gerando riqueza graças a jovens startups.” 

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