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Correio Braziliense

Fusões e aquisições recentes no agronegócio preocupam produtor brasileiro

Alta concentração no agronegócio, que em breve passará a ser controlado por apenas quatro grandes empresas, pode resultar no aumento de preços dos insumos de produção


postado em 27/04/2018 06:00 / atualizado em 27/04/2018 08:14

Para os produtores de algodão, os fornecedores de insumos estão resolvendo seus problemas de custos com as fusões, mas a redução não tem chegado ao mercado(foto: Amipa/Divulgação)
Para os produtores de algodão, os fornecedores de insumos estão resolvendo seus problemas de custos com as fusões, mas a redução não tem chegado ao mercado (foto: Amipa/Divulgação)

São Paulo — A redução da concorrência e o aumento nos preços dos produtos têm sido apontados como os principais reflexos negativos causados pelo processo de fusões e aquisições entre as empresas fornecedoras de insumos para o agronegócio brasileiro. Nas mãos de sete grandes grupos internacionais (Bayer, Basf, Monsanto, Syngenta, Dupont, Dow e ChemChina), o mercado de defensivos passa por um radical processo de consolidação que deve culminar na predominância de quatro gigantes (Bayer/Monsanto, Dow/Dupont, Syngenta/ChemChina e Basf), após a aprovação dos trâmites nos órgãos regulatórios.


A redução de participantes em um mercado do tamanho do brasileiro, que vai colher 229,3 milhões de toneladas na safra de 2018, terá fortes consequências. Segundo Marcos da Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), além de criar um grupo cativo de empresas com poder suficiente para ditar e impor preços aos insumos agropecuários, o novo cenário coloca os agricultores em uma situação de dependência, já que poucos fornecedores vão dominar todas as etapas da cadeia, criando monopólios que vão do plantio à colheita.

“É natural que, quando há uma consolidação no mercado, as empresas adquirem mais poder para impor sua política de preços, principalmente no nosso negócio, onde a utilização de defensivos é de 100%”, diz o executivo da Aprosoja.

Dados da entidade mostram que os valores dos defensivos vêm registrando aumento de 30% a 35% a cada nova safra, percentual “elevadíssimo”, segundo ele, para produtores que já sofrem com uma série de problemas, como as péssimas condições logísticas para escoamento da soja no país. “Boa parte dos nossos ganhos com produtividade no campo tem sido eliminada pelos altos custos dos insumos”.

A Aprosoja entrou como terceiro interessado no processo aberto no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A ideia foi mostrar ao órgão regulador que o aumento de participação da Bayer em áreas como a de sementes, que ela incorporou da Monsanto, pode ser prejudicial ao mercado e aos produtores de soja. Tanto que o Cade já pediu para a Bayer se desfazer de alguns ativos (o fornecimento de sementes é um deles) que vieram do negócio com a Monsanto. O processo ainda está em análise no órgão, e as áreas identificadas como passiveis de concentração de mercado estão sendo vendidas para a rival Basf.

A Aprosoja não está sozinha no debate. Para Arlindo de Azevedo Moura, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), as empresas fornecedoras de insumos estão resolvendo seus problemas de custos com as fusões, mas a redução não tem chegado ao mercado. Na área de fertilizantes, a situação não é diferente. Depois de um período de aquisições – a Mosaic comprou uma parte da Vale Fertilizantes –, quatro empresas (Mosaic, Yhara, Feripar e Elinger) passaram a dominar 70% do mercado.

O maior impacto dessa concentração, segundo Carlos Eduardo Florence, da Associação dos Misturadores de Adubo do Brasil, foi no segmento de pequenas empresas. Muitas delas, diz ele, simplesmente desapareceram. O mercado atual, segundo Florence, é 85% dependente de importação e apenas 15% tem produção local. Quanto aos preços, o executivo afirma que não houve grandes oscilações, uma vez que eles são ditados pelo mercado internacional.

 

Melhora

 

(foto: D.A Press)
(foto: D.A Press)
De acordo com a gerente de agribusiness da PWC Brasil, Daniele Coco, a consolidação é positiva no sentido de dar musculatura para as empresas continuarem investindo em biotecnologia e novos produtos capazes de melhorar a produtividade no campo. “As fusões e aquisições asseguram a continuidade de investimentos na descoberta de novas cultivares e produtos que possibilitem maior tolerância a pragas e ao clima”, afirma Daniela. Além disso, ela cita a maior capilaridade das empresas com as fusões, que ficam mais próximas dos produtores.

A gerente da PCW lembra ainda que o produtor também precisa se preocupar com a melhora de gestão de sua propriedade, especialmente nas questões envolvendo mão de obra no campo e ações para redução de custos. “Culpar outros elos da cadeia é mais fácil. Os produtores têm que buscar maior eficiência e olhar também para o uso inadequado dos insumos, o que acaba reduzindo a produtividade da lavoura”, aponta Daniele, lembrando que há vários cursos de gestão que o produtor pode fazer para ter mais eficiência e maior margem de rentabilidade.

Luiz Motta, sócio da consultoria KPMG e especialista na área de fusões e aquisições, considera que o processo de consolidação no setor de insumos agrícolas não é diferente do que acontece em outras áreas. Primeiro, diz ele, as novas parcerias exigem um período de adaptação, mas acabam transferindo valor dentro de toda a cadeia.

Em um setor pulsante como o agronegócio brasileiro, o movimento de consolidação é ainda mais necessário, diz o executivo. Sem ele, as empresas podem perder a capacidade de investimento. “O processo é natural, desde que não vire monopólio”, afirma Motta. “Afinal, as empresas vão buscar uma rentabilidade que remunere os investimentos”, explica ele, lembrando que a tendência é haver uma acomodação tanto em relação aos preços quanto nos ganhos de produtividade.

Safra de  2018 deve ser menor

Com previsão de chegar a 229,9 milhões de toneladas, a safra agrícola de 2018 deve ser 4,7% inferior à de 2017, o que significa 11,3 milhões de toneladas a menos. Os números são do último levantamento Sistemático da Produção Agrícola de março, do IBGE, e superam em 2 milhões de toneladas as projeções realizadas em fevereiro. A área plantada chegou a 61,3 milhões de hectares, uma pequena alta de 0,1% em relação à safra passada. Em 2017, foram 240,6 milhões de toneladas.

Na soja, a previsão é colher 114,5 milhões de toneladas, número muito próximo ao recorde de 115 milhões de toneladas obtidas em 2017. No Centro-Oeste, o destaque fica com o estado de Mato Grosso, que deve responder por 27,2% de toda a soja colhida no país, ou 31,2 milhões de toneladas. A safra de milho, com 87,2 milhões de toneladas, é o destaque negativo, e deve encolher 12,4% na comparação com o ano anterior. 

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