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Correio Braziliense

Preço cai menos que a média e etanol não compensa para os brasilienses

Mesmo com a boa safra de cana, que reduziu os custos do álcool em todo o país, troca da gasolina pelo produto ainda não é compensadora para o motorista do DF


postado em 11/05/2018 06:00 / atualizado em 11/05/2018 16:23

Keila Tatiane Formiga, professora:
Keila Tatiane Formiga, professora: "Para que eu começasse a abastecer com etanol, ele precisaria estar em torno de R$ 2 por litro, e não cerca de R$ 3,50, que é o valor encontrado por aí" (foto: Andressa Paulino/Esp.CB/D.A. Press)

Com o preço da gasolina cada vez mais alto, o uso do etanol hidratado para abastecer o carro deveria ser uma opção para muitos motoristas, mesmo porque o biocombustível tem caído de preço em todo o país. No Distrito Federal, contudo, essa regra não vale. Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP), desde março, o preço nacional médio do etanol registrou queda de 6,68%. Nos postos do DF, o valor do produto diminuiu 5,83%. Nessa situação, a substituição da gasolina pelo derivado de cana-de-açúcar continua não sendo vantajosa para o consumidor brasiliense.

O valor médio do etanol nos estabelecimentos habitualmente visitados pelo Correio no DF é 19,38% mais em conta do que o da gasolina. De acordo com os dados da ANP, a diferença é ainda mais discrepante. Enquanto a média nacional indica economia de até 48,09% para o consumidor que opta pelo álcool, no DF a poupança é de apenas 16,84%. Para que o uso do biocombustível nos veículos compense, no entanto, é preciso que o preço do biocombustível não ultrapasse 70% do valor cobrado pela gasolina. Isso porque os motores a álcool consomem mais do que os movidos a gasolina.

Em alguns estados, a diferença de preço entre os dois produtos torna compensador o uso do álcool.  Em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que concentram juntos metade da frota nacional de veículos leves, o valor do etanol em relação à gasolina chegou a 64%, 68%, 66% e 71%, respectivamente. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), a boa safra é a maior responsável pela redução do preço final do produto.

 

 

Queixas

Entre consumidores do Distrito Federal, porém, as reclamações quanto ao preço do etanol são recorrentes. A professora Keila Tatiane Formiga, de 41 anos, afirmou que, apesar dos cálculos, a substituição da gasolina pelo álcool continua não sendo vantajosa. “Toda vez que eu coloco os preços na ponta do lápis para saber qual combustível é mais econômico, a gasolina sobressai”, disse. “Para que eu começasse a abastecer com etanol, ele precisaria estar em torno de R$ 2 por litro, e não cerca de R$ 3,50, que é o valor encontrado por aí”, afirmou.

O motorista Cassiano Pereira Martins, 62, também reclama do valor cobrado nos postos do DF. “Mesmo com a opção de abastecer com os dois combustíveis, sempre dou preferência à gasolina. Com ela, o meu carro percorre 12 quilômetros por litro. Com o álcool, ele só faz 9 quilômetros”, destacou Martins. “Desde que comprei esse veículo, em 2012, só o abasteci com etanol duas vezes”, contou.

Segundo o presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, faltam incentivos para a comercialização do etanol. “Estamos em um bom momento para o produto, a safra está muito boa e estamos produzindo bastante. O que falta é incentivo, propaganda para que o biocombustível seja mais utilizado”, afirmou Pires. De acordo com ele, é questão de tempo para que o etanol seja vantajoso em todo o país. “Ainda existem locais em que não compensa abastecer com etanol, como no DF. Mas a tendência é de que a gasolina continue em alta, então, daqui a alguns meses, o combustível será mais vantajoso no Brasil inteiro”, previu.

Marcos Jank, engenheiro agrônomo e especialista em agronegócio e comércio exterior, disse nesta semana, em entrevista ao programa CB Poder, do Correio e da TV Brasília, que, em um momento de alta do petróleo, a produção e o consumo do etanol podem se viabilizar no mercado. “O preço da gasolina é formado a partir das cotações internacionais do petróleo e de seus derivados. Então, se o petróleo subir, isso beneficiará o etanol que, além de poder ser misturado à gasolina, é um concorrente direto desse produto, pois pode ser usado sozinho como combustível”, explicou.

Jank observou que o preço do etanol também está ligado ao valor do açúcar, que, no momento, está em baixa. “Tivemos problemas de acesso do açúcar na China, conflitos comerciais. Infelizmente, alguns países, como os Estados Unidos, têm pressionado nossos clientes a comprar os produtos deles, e isso nos deixa fora do mercado”, explicou. Isso tem aumentado a oferta de álcool dentro do Brasil.

Competitividade

Para que surjam novos investimentos no setor, Marcelo Jank acha que é necessária uma visão de médio e longo prazos, o que os empresários não tiveram nos últimos oito anos. “Momentaneamente, teremos esse movimento de açúcar para etanol, puxado pela alta cotação do petróleo e pelo baixo preço do açúcar. De 2005 a 2010, foram construídas muitas usinas, mas, de lá para cá, tudo parou. O setor entrou em crise, a ponto de hoje importarmos etanol de milho. Perdemos competitividade”, avaliou.

* Estagiárias sob supervisão de Odail Figueiredo

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