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Correio Braziliense

Crise dos combustíveis: incertezas podem afetar investimentos no Brasil

Concessão em série aos caminhoneiros e demora para agir colocam o governo em xeque, atacam o humor do mercado e podem comprometer imagem internacional do país


postado em 29/05/2018 06:00 / atualizado em 29/05/2018 00:28

Caminhões parados na BR-262 na semana passada, quando começou a greve: mais de uma semana de protestos que mergulharam a economia brasileira na insegurança(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press - 21/5/18)
Caminhões parados na BR-262 na semana passada, quando começou a greve: mais de uma semana de protestos que mergulharam a economia brasileira na insegurança (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press - 21/5/18)


São Paulo — A segunda-feira agravou a ressaca da última sexta-feira, quando o mercado mostrou preocupação com os efeitos da greve dos caminhoneiros e o rumo que o governo pretendia dar naquele momento à Petrobras, empresa de capital misto diretamente impactada pelas paralisações que tomaram o país nos últimos dias. O Ibovespa fechou em queda de 4,49%. Já o dólar comercial, com alta de 1,72%, encerrou o dia a R$ 3,7281 — foi a maior alta diária desde 7 de dezembro de 2017.

Economista-chefe da corretora Spinelli, André Perfeito acredita que o comportamento do mercado ontem, com queda na bolsa de valores, alta do dólar e desempenho fraquíssimo dos papéis da Petrobras, refletiu o humor dos investidores quanto ao Brasil. “É como se eles mandassem uma mensagem do tipo ‘duvido que vocês do governo consigam fazer o que estão falando que vão fazer’ em relação à Petrobras”, explica. “O governo comprou tempo ao anunciar esse pacote, o tempo acaba. Ninguém sabe o que acontecerá depois, a imprevisibilidade é muito grande”, completa.

Perfeito lembra que a situação pode ficar ainda mais grave caso os petroleiros cumpram a promessa e paralisem suas atividades a partir de amanhã. Esse é mais um ingrediente para aumentar a pressão sobre a saída de Pedro Parente do comando da Petrobras. “São várias frentes com problemas que acabam gerando um desconforto ainda maior entre os investidores”, avalia.

Apesar de o pacote de concessões feito pelo governo atingir mais diretamente a Petrobras, seu impacto é generalizado, na avaliação do economista. De imediato, muitas empresas tiveram de rever sua produção e suas vendas por causa da suspensão do abastecimento de matérias-primas e do bloqueio em estradas, que levou à interrupção no escoamento de mercadorias. Foi o caso de gigantes como Marcopolo, Suzano e Whirlpool.

Para o professor de finanças da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), César Caselani, as notícias dos últimos dias não são boas e vão ter impacto na tomada de decisão por parte dos investidores. Isso porque, segundo ele, com o tamanho e a importância da Petrobras no mercado de capitais brasileiro, tudo que acontece com a petroleira, uma espécie de vitrine da economia nacional, influencia as demais empresas.

“Para os investidores, é como se eles pensassem assim: ‘se essas coisas acontecem com a Petrobras, imagine com as outras empresas’. Isso mostra a instabilidade política e econômica e como o governo não tem conseguido controlar a situação”, explica.

Focus

O ambiente ficou muito conturbado e isso já vem se refletindo na expectativa do mercado, como mostram os dados do relatório Focus, feito pelo Banco Central com base na estimativa de economistas. O câmbio, por exemplo, já dá sinais de que deve continuar em trajetória de alta. Da mesma forma, muitos economistas têm refeito suas contas e projetado um crescimento menor para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2018. Perfeito, por exemplo, começou o ano com uma previsão de alta de 2,5%. Agora já trabalha na casa de 1,6%.

O economista Paulo Leme, que está deixando a presidência do banco Goldman Sachs, também prevê um crescimento baixo para o PIB brasileiro, que, segundo ele, deverá avançar entre 1,7% e 1,8%. Analista-chefe da Rico Investimentos, Roberto Indech também acredita que o impacto do pacote do governo sobre a Petrobras exercerá um contágio na expectativa dos investidores.

“Isso mexe com a credibilidade, não há dúvida, e afeta a bolsa como um todo. O governo já vinha enfrentando uma situação delicada com relação às contas públicas. Por isso, não se imaginava que haveria condições de tirar algo do saco de bondades como foi feito agora com os caminhoneiros. Agora vamos ver de que forma a aprovação do projeto de reoneração da folha de pagamento de alguns setores poderá recompor o caixa”, avalia.

Para Indech, o conjunto ajuste fiscal, a falta de previsibilidade e a ingerência do governo na Petrobras ainda poderão causar estragos maiores na economia. Tudo isso, lembra o analista-chefe, em um ano com incertezas eleitorais e um cenário internacional instável, com a expectativa de alta da taxa de juros nos Estados Unidos e o seu impacto na alta do dólar.

Mais otimista, Eduardo Coutinho, coordenador e professor do custo de administração do Ibmec-BH, não acredita que depois da paralisação dos caminhoneiros os investidores reajam negativamente tão depressa. Isso porque, segundo ele, a política de preços da Petrobras, ao que tudo indica, não deverá ser afetada, o que seria um grande gerador de incertezas para quem tem dinheiro para colocar no Brasil. Hoje, cerca de 55% dos investidores na bolsa local são estrangeiros.

“Todo mundo está observando o desenrolar dessa história, mesmo os setores exportadores, que também sentiram os reflexos da greve dos caminhoneiros. Se os investidores tiverem a certeza de que não haverá impacto fiscal negativo, certamente vão se tranquilizar. Mas ainda, há o risco de os petroleiros entrarem em greve e tudo isso mudar novamente”, adverte Coutinho.

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