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Correio Braziliense

Consumidor precisa aprender algumas lições com a crise do desabastecimento

Manter a calma e comprar apenas o necessário são soluções para enfrentar a greve dos caminhoneiros. Especialistas alertam que o pânico contribuiu para a piora da situação


postado em 03/06/2018 08:00 / atualizado em 03/06/2018 10:06

Corrida aos postos durante greve: a recomendação, no caso do combustível, é não deixar a quantidade de combustível ficar inferior à metade da capacidade do tanque(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Corrida aos postos durante greve: a recomendação, no caso do combustível, é não deixar a quantidade de combustível ficar inferior à metade da capacidade do tanque (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

A greve dos caminhoneiros provocou desabastecimento em todo o país. Toda a confusão com filas em postos e falta de itens essenciais nos supermercados trouxe diversas lições para os consumidores. Além da escassez de produtos, nas últimas semanas, a população sofreu com o aumento de abusivo de preços, compras limitadas, cancelamento de voos e redução de linhas no transporte público. Alguns estados e cidades decretaram estado de emergência ou calamidade pública.

O principal problema que a crise trouxe para os brasileiros foi a pressão nos orçamentos familiares. Segundo o educador financeiro Alexandre Fragoso, quem paga a conta é o povo. “Quem tem que arcar com as consequências ao final é o consumidor, porque, quanto menor a oferta e maior a procura, é normal que haja um aumento nos preços”, explica.

A recomendação dele é que as pessoas comprem apenas o que precisam. “Se consigo deixar o carro todo dia em casa e tenho gasolina, não preciso passar no posto para estocar galão”, exemplifica. Para ele, o problema do consumo em exagero é que os produtos acabam rapidamente. “Outra coisa é buscar a substituição, opções mais baratas e outras alternativas”, afirma.

Estocar alimentos e combustível não é recomendado também por Adriano Severo, educador financeiro. Para ele, toda essa situação se normalizará no curto prazo. “As pessoas devem comprar somente aquilo que é urgente. A crise é momentânea e trouxe preocupação excessiva da população”, diz.

A recomendação, no caso do combustível, é não deixar a quantidade de combustível ficar inferior à metade da capacidade do tanque. “Em vez de chegar na reserva para abastecer, abasteça quando estiver na metade ou próximo. Assim, caso aconteça alguma coisa, você terá uma reserva garantida”, orienta. Para a comida, a recomendação também é manter um estoque com produtos de maior validade. Na opinião de Severo, os brasileiros não estão preparados para passar por situações semelhantes e, por isso, uma situação individual se transformou em um caos geral.

Na avaliação de Fragoso, a população entrou em pânico. “As pessoas acham que faltarão produtos, ficam com medo e correm para os estabelecimentos comerciais para comprar tudo. O sentimento se espalha e os produtos encarecem e acabam em uma velocidade desnecessária”, analisa. Para ele, os consumidores precisam ter em mente que a crise acabará no curto prazo. Com isso, há um desequilíbrio no orçamento das famílias. “O grande segredo é não entrar em desespero, buscar o equilíbrio, a substituição e tentar ao máximo manter uma rotina de consumo dentro da normalidade”, aconselha.

Gás de cozinha

Outro problema para as famílias foi encontrar botijões de gás. O item essencial para as famílias, que custava até R$ 80, disparou e o preço chegou a R$ 300 durante a crise. Mesmo com o valor abusivo, muitas pessoas compraram o produto sem necessidade. A professora Sheila Castro, 39 anos, foi uma das que sofreram com a falta de gás. Ela e a família tiveram que comprar marmitas e lanches para as refeições porque não era possível usar o fogão para cozinhar. “Não foi um prejuízo grande, mas foi um gasto que não estava planejado. O síndico do nosso prédio já havia avisado para economizarmos, mas, mesmo com toda economia, ficamos sem o abastecimento”, conta.

Para se precaver contra situações semelhantes no futuro, ela comprou uma panela elétrica. “Ficamos apreensivos com a falta desse recurso em casa, então compramos para usar quando necessário”, destaca. Para ela, apesar de o Brasil precisar de movimentos que busquem a mudança, mais uma vez a conta será paga pelo povo brasileiro.

Já a publicitária Luma Guerra, 22 anos, havia programado uma viagem de carro com amigos para um festival, em São Paulo. No entanto, diante da escassez de combustível, ela e os amigos desistiram do passeio. Como ainda não tinha reservado hospedagem, o maior prejuízo foi o ingresso do festival, que custou R$ 150 e não haverá reembolso. “Com o preço que está o combustível, é impossível irmos de carro, não dá. E, além de não haver reembolso do ingresso, não estamos conseguindo vender”, conta.

Em uma comparação, ela descobriu que se fosse encher o tanque do carro, as três vezes necessárias para a viagem, com o preço do combustível em São Paulo, ela gastaria o valor correspondente a uma passagem de avião. “O que seria inviável para mim porque, como está muito em cima da data do festival, seria R$ 1,5 mil”, afirma. Luma ainda destaca que as filas nos postos também seriam um obstáculo para a viagem de carro. “As pessoas estão fazendo fila nos postos de São Paulo para passar um dia todo lá e nós teríamos um dia para chegar porque sairíamos todos direto do trabalho para a viagem”, explica.

Abusos

A publicitária, que diz apoiar a greve, afirma que não estocaria combustível e tem evitado as filas nos postos. Com isso, passou a buscar alternativas para ir ao trabalho e compromissos. “Acho que as filas nos postos indicam um pensamento muito individualista de que cada um tem que ter sua gasolina antes do outro e quem não conseguir que se vire. Então não vou abastecer aqui em Brasília e não quero estocar”, diz.

Em alguns postos, a gasolina chegou a custar R$ 10. Maria Inês Dolci, vice-presidente do conselho diretor do instituto Proteste, afirma que, quando comprovada a prática abusiva, o consumidor tem direito a ressarcimento e, dependendo do caso, até indenização por danos morais. “Há direito em toda greve e protesto, mas não pode haver prática abusiva ou aumento injustificável de preço. Isso está descrito no código do consumidor”, esclarece.

Outro que sofreu diretamente com a crise gerada pela parada dos caminhoneiros foi o estudante Pedro Stuckert, 22 anos. Ele esperava no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, para pegar um voo para Brasília. O voo, entretanto, foi cancelado diante da falta de combustível para os aviões. Pedro conseguiu remarcar a viagem para o dia seguinte. Mas teve outro problema. “Teve um erro no sistema e a minha reserva não foi efetivada”, reclama. A solução foi fazer uma transferência de companhias aéreas. “Como as companhias estão cobrindo os custos para os passageiros com voos cancelados por falta de combustível, eu não tive nenhum prejuízo”, explica.

A respeito da greve, Pedro se declarou completamente a favor da causa dos caminhoneiros. Segundo ele, o Brasil precisa de uma mudança. “Continuar do jeito que está não resolve e acho que não vai mudar porque os brasileiros fizeram fila nos postos enquanto os caminhoneiros se mobilizavam para lutar por uma causa que também era nossa”, argumenta.

Maria Inês diz que é importante que empresas e consumidores afetados pelo desabastecimento se comuniquem para garantir que os direitos de todos sejam respeitados. “A empresa tem obrigação de avisar o consumidor para ele saber se quer prosseguir com a compra do produto. São responsabilidades que os fornecedores têm com o cliente”, explica.



*Estagiários sob supervisão de Leonardo Cavalcanti

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