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Correio Braziliense

Apesar de intervenção do BC, dólar ainda está muito longe da tranquilidade

Expectativa de alta da taxa de juros nos Estados Unidos, divulgação de pesquisas eleitorais e perspectiva de fortalecimento de candidaturas de extremas direita e esquerda aumentarão a volatilidade da divisa norte-americana e o enfraquecimento da bolsa


postado em 10/06/2018 08:00

Para Solgange Srour, caso o cenário atual se materialize, os preços dos ativos vão ser fortemente impactados, com dólar acima de R$ 5 e bolsa perto dos 40 mil pontos(foto: YouTube/Reprodução)
Para Solgange Srour, caso o cenário atual se materialize, os preços dos ativos vão ser fortemente impactados, com dólar acima de R$ 5 e bolsa perto dos 40 mil pontos (foto: YouTube/Reprodução)

A disparada no preço do dólar na última semana foi estancada após o Banco Central (BC) anunciar uma robusta intervenção cambial, com a venda futura de US$ 24,5 bilhões por meio de contratos de swap. A moeda norte-americana, que chegou a ser cotada a R$ 3,922, terminou o pregão de sexta-feira vendida a R$ 3,709. Entretanto, se engana quem pensa que o momento é de calmaria, pois a tendência é de mais volatilidade a partir de amanhã. No mercado, os analistas são unânimes em afirmar que as incertezas eleitorais chegaram para ficar e darão o tom das negociações dos principais ativos brasileiros nos próximos meses.


Além disso, a piora do ambiente externo, com maior aversão ao risco dos investidores em relação às economias emergentes, continuará a pressionar o valor da divisa estrangeira. Com o processo de alta dos juros nos Estados Unidos e o diferencial de juros em relação ao Brasil cada vez menor, os especuladores preferem buscar proteção nos títulos públicos da maior economia do mundo. Com a saída de recursos do país ou a maior procura por dólar, o preço da moeda tende a subir. Além disso, dois eventos devem pressionar o valor da divisa ao longo da semana.

O primeiro deles é a divulgação de novas pesquisas eleitorais pelo Datafolha, marcada para hoje. Conforme revelou o Blog do Vicente, pesquisas internas feitas por grandes bancos do país mostram que, se as eleições fossem hoje, os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) iriam para o segundo turno, com vitória de Bolsonaro na disputa final. Esses levantamentos são para consumo interno. Não estão registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Um executivo de um grande banco foi taxativo ao analisar o momento atual do país, com candidatos de extrema-direita e extrema-esquerda na liderança das pesquisas de intenção de votos. “Infelizmente, nenhum desses dois candidatos espelha o desejo do mercado. Confirmado esse quadro, o estresse que vimos nos últimos dias, que levou o Banco Central a anunciar uma megaintervenção no câmbio, será pequeno. Nem Bolsonaro nem Ciro estão dentro do perfil de gestor que o Brasil precisa”, alerta.

Nem a Copa do Mundo de 2018, que será realizada entre junho e julho, diminuirá as tensões no mercado. Os partidos terão entre 20 de julho e 5 de agosto para realizarem convenções partidárias, formarem coligações e definirem candidatos. E o período para requerimento de registro das candidaturas à Justiça Eleitoral será até 15 de agosto. A única certeza, nesse período, é de grande volatilidade.

 

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
 

Riscos e ruídos

Na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, se reunirá e a expectativa é de que subirá os juros em 0,25 ponto percentual. Com isso, a taxa na maior economia do mundo atingirá o intervalo entre 1,75% e 2%. Mas os analistas estarão de olho nas projeções para juros, desemprego, crescimento e inflação, que também serão divulgadas. Em março, a expectativa era de três altas de juros, mas os investidores passaram a apostar em mais elevações diante das pressões inflacionárias. Caso isso se confirme, terá impactos significativos na cotação do dólar no Brasil e nas demais economias emergentes, além de afetar as bolsas de valores.

As economias emergentes passaram a ser analisadas com lupa pelos investidores, sobretudo aquelas que estão com deficit fiscais elevados, explica a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour. Ela diz que Brasil, Turquia e Argentina estão nessa situação, o que determina parte do processo de alta do dólar. Além disso, no caso brasileiro, a pauta eleitoral traz ainda mais volatilidade e preocupação para os investidores. “A greve dos caminhoneiros exibiu uma sociedade que gostaria de ter um Estado forte, intervencionista e que tabela preços. Isso pode ter um impacto eleitoral relevante. Ficou claro que o governo atual acabou e as expectativas são sobre quem governará a partir de 2019”, afirma.

Solange alerta que ninguém tem clareza do que acontecerá no país até outubro. Para ela, caso o cenário atual se materialize, com dois candidatos extremistas no segundo turno, os preços dos ativos vão ser fortemente impactados, com dólar acima de R$ 5 e bolsa perto do 40 mil pontos.

Mais comedido, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, ressalta que o nível de volatilidade na economia segue elevado, tanto em função do cenário internacional quanto do doméstico. Na opinião dele, os temores de alta mais intensa dos juros por parte do Fed seguem pressionando os mercados emergentes.

Na avaliação do economista-chefe do Banco Haitong, Jankiel Santos, o nível de volatilidade está ligado ao intrincado ambiente político que o país vive, pois os principais candidatos não conseguiram se comprometer com uma agenda de reformas voltada para a atual trajetória insustentável de endividamento público. “De fato, as declarações dos candidatos seguiram o caminho inverso e sugeriram ações bastante populistas, colocando pressão extra sobre o tema”, ressalta.

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